Trêtê

Desperto para alguma realidade nesta quarta-feira, dia vinte de dezembro de dois mil e vinte e três. Enrolo na cama, aquecendo vagarosamente o corpo para a maratona do dia. Levanto para fazer meu café da manhã, tentando lembrar a planilha de alimentos que salvei no celular na noite anterior. Comecei a dieta. Despretensiosa, mas rigorosa, como quem se faz de boba para não atrapalhar os próprios planos. 

Datei oficial e simbolicamente o começo de um relacionamento amoroso com meu corpo através desse exercício de regulamentação das texturas, dos aromas e dos sabores que atravessam meus orifícios. Dou à dieta o tom que dedico aos meus apaixonamentos amorosos: é com uma intensa desconfiança que sigo o arriscado impulso de desejar o que ainda não tem nome. Sigo sonhando com a possibilidade de me surpreender com os tropeços  no meio do caminho. 

Espero que esse passo ensaiado, oficializado nesta data e neste texto, perdure para além do prazo de validade das mulheres que passaram pela minha vida nesse último ano. Dois mil e vinte e três não foi um ano bom para se relacionar com meu corpo. Ele estava vencido, adoecido, machucado. Cicatrizando marcas cujas legendas não cabem na escrita desse texto.

Coloco At Last pra tocar na sala. Ao som de Etta James, preparo e degusto o delicioso e pequeno desjejum. Meia fatia de pão árabe, vinte gramas de queijo minas frescal e vinte gramas de uma geléia de morango caseira, receita de uma querida colega. A casa é ocupada pelo cheiro de um cafézinho caramelo recém passado, torrado dias antes na minha cafeteria preferida. I found a thrill to press my cheek. Som, sabor, aroma e sonhos. A receita do amor.

Não levo mais do que cinco minutos para terminar a primeira refeição do dia. Tento resgatar na memória resquícios dessa forma de viver, que já experimentei mais rápido do que gostaria, anos antes. Me refiro a uma economia existencial cuja importância não repousa nos excessos que entorpecem os buracos do nosso corpo, resultando quase sempre em mal estar e dor. Faço alusão ao prazer inenarrável do sabor fugaz de um alimento quando transpassa a textura dos buracos da língua, da gengiva, da mucosa bucal, promovendo uma explosão de sensações que causam cócegas nas bochechas e formigamento na ponta da língua. 

A única sobra que testemunha a transformação química recém experimentada é a do gostinho de quero mais, falta necessária que me lança a novas experimentações nas refeições seguintes do dia. O que acabamos de presenciar foi a experiência instantânea de prazer experimentada pela mistura de elementos tão distintos, criados na medida certa. 

As memórias que transbordam, em resposta à experimentação que acabou de acontecer, remetem à experiências de corpo tão satisfatórias como essa, em outras situações e com outros alimentos. Lembro, assim, de um jeito econômico de existir que eu havia fundado e refundado anos antes, mas precocemente abandonado. Busco desesperadamente reencontrar meu corpo perdido nos escombros desse corpo que hoje habito. 

Dois mil e vinte e três foi uma árdua jornada de travessia da dor. Depositei meu despedaçamento e minha decomposição existencial na dor que senti e sofri. Acumulei violências, cataloguei minhas covardias e depositei toda essa série de inflamações no meu quadril. Da ilíaca se produziu uma odisséia que irradiou e percorreu todo meu corpo todo. A contaminação se espalhou rapidamente através das estruturas neural e nevral. Senti a dor de um quadril alargado por duas gestações e inúmeros abortos. Senti a dor da lombalgia de uma bunda brasileira cujo valor nunca usufrui, mas fui usufruída. Senti a dor de ter um útero que parece nunca ter sido meu. Senti a dor de ser mulher nessa merda de mundo misógino e lesbofóbico. É um ardor, porque queima. Porque grita em silêncio um som agudo que reverbera abafado em cada pedaço até então desconhecido do meu corpo.

Meu medo e minha covardia não cabiam mais em mim. Depois de perceber ter vivido boa parte dos meus quarenta anos com medo, contabilizei secretamente as violências sofridas. Me assustei! O engano foi acreditar que me protegia do ódio do mundo e do meu próprio atrás de estátuas masculinas. Nenhum homem, nem meus filhos, nem meus namorados, nem meus pais ou tios puderam me proteger do ódio que eles mesmo foram ensinados a alimentar pela existência feminina. Ninguém pôde arrancar das minhas entranhas o medo de amar mulheres, a começar por mim. Meu corpo carrega esse peso das mais variadas formas. 

No ano de dois mil e vinte e três, quando saí dessa estrutura que parasita existências, senti de uma tacada só a dor irradiada de ser mulher, de me assumir mulher, de gostar de mulheres. Chegou o tempo da ira, tanto tempo adiada. A raiva queima, detona, arrasa. Cria desertos. Desmata. Porque a transformação é uma mudança de estado. É a morte de um estado de existência para nascer outra. Morrer para germinar. Só que desta vez, o fogo não é do corpo de Fênix. São os urubus devoradores de minh’alma que assassino dessa vez. Quanto a mim, permaneço em trânsito.

Assim, nessa manhã despretensiosa de uma quarta-feira de dezembro, na quase-virada de ano, dou início à escrita diária de uma dieta. É o ensaio de uma transformação econômica de uma mulher. Um laboratório experimental da deformação dos modos de usufruto de um corpo. É a palavra abraçando o corpo em seu irremediável desejo, insistente, mesmo não encontrando morada permanente nas palavras, sempre provisórias. Amar mulheres. Almar mulheres. Afinal, o que é uma mulher, senão uma espécie rara de disco arranhando tentando tocar sua voz ad aeternum?

Semana passada encontrei meu melhor amigo da vida em São Paulo e ele confidenciou que se irrita muito com a minha inabilidade de dizer coisas e não enxergar o que elas escrevem. Eu ri, lembrando como ele, constantemente, encosta gentilmente a mão no meu braço, aproxima seu corpo ao meu, me olha nos olhos e diz, muito acolhedor e cirúrgico: Aline… (qualquer que seja o conteúdo, traduzido como abrace as palavras que você acabou de dizer)

A questão desse final de semana foi o meu desejo de ser escritora. Brincamos de esconde-esconde desde criança, o corpo que escreve e o texto escrito. Nosso romance permaneceu escondido em bolsas amarelas, como da personagem Raquel, no livro de Lygia Bojunga. A bolsa amarela foi um dos primeiros lugares em que encontrei morada. As palavras de Lygia, na voz de Raquel, puderam compor meu dicionário de palavras para traduzir meu desconforto silencioso com absolutamente tudo. Até então, eu não sabia que as confusões que eu sentia poderiam ganhar nome. 

Em sua conturbada e isolada infância lotada de adultos, Raquel mantinha em segredo  três desejos: ser adulta, ser homem e ser escritora. Essas três formas de existência pareciam me vestir, como as roupas usadas da tia distante e rica que Raquel descrevia no livro. Nós, mulheres, descobrimos muito cedo que ser adulto e homem são roupagens que nos habilitam à passabilidade social com mais privilégios. Uma criança, especialmente menina, jamais vai experimentar certos sabores, mesmo que sonhe com eles todas as noites. 

Meu interesse nesses lugares sociais, no entanto, eram apenas fantasias do carnaval passado que eu reciclava para existir com algum gosto de liberdade. Infelizmente, foi só mais tarde que encontrei outras palavras para me alertar dos perigos de vestir palavras alheias. Fernando Pessoa morreu cedo, mas escreveu como ninguém sobre como devemos nos agarrar à nossa estranheza, multiplicá-la, tornando-nos especialistas dessa língua estrangeira nata

Ao contrário disso, meus descaminhos resultaram numa fantasia que ficou grudada na cara e as pessoas passaram a me reconhecer pelo que não era. O sonho de ser escritora ficou escondido em alguma bolsa amarela da minha vida, porque uma mulher não se salva do ódio do mundo, nem mesmo quando torna-se outro para autorizar-se ao poder. 

Assim, o surto de meia idade no qual me deflagro espelha o estranhamento de um caminho que trilhei publicamente, e, ao mesmo tempo, deixa transparente uma obra subterrânea que construí, camuflada como os camaleões do deserto. São volumes de livros inacabados, poemas nada românticos, textos que foram feitos para dizimar o mundo, dentre outras variadas formas de alimentar a ira mascarada de docilidade. Oscilo entre o medo de perdê-los numa pane do sistema e a ânsia de catalogá-los num testamento para autorizar suas publicações post-mortem. Os devaneios quanto ao destino desses escritos sempre são férteis, terminando por produzir novos textos e nenhum destino quanto à publicação. Na maior parte do tempo, apenas esqueço que os escrevi. 

Voltei a ler Fernando Pessoa, um dos grandes responsáveis pelo incentivo à escrita. Na adolescência, recolhi seu estilo literário para aprender a escrever o desassossego. Pessoa escreveu ininterruptamente desde a infância. Guardou seus escritos em um baú que só foi remexido anos depois de sua morte. A grande maioria desses textos nunca foi publicada ou lida, a não ser por ele mesmo. Ele criou um arranjo literário peculiar com a criação de seus heterônimos. Todas as cartas de amor são ridículas é um de seus poemas mais conhecidos. Foi escrito dois meses antes de falecer por problemas intestinais. Morreu cedo, aos quarenta e oito anos, no auge de sua produção textual. 

Meu amigo sorriu, ao ouvir esse fato histórico de Pessoa e me perguntou até quando eu ia continuar dizendo que queria ser algo que já era. Eu sorri. Senti a bochecha formigar e pensei na autorização à nomeação de escritora. Passei a vida percorrendo fervorosamente o caminho da autorização de si mesmo do analista e, no final das contas, ao terminar a escrita de um manuscrito doutoral e a publicação de um livro com o caso clínico que escreve minha autorização, o que se revela intimamente, pra minha surpresa, é que o desejo nunca foi bem esse, senão o de ser lida. 

Ler textos, ser tocada e atravessada por eles, escrever outros textos que atravessem outros autores que possam também escrever e assim firmar um dispositivo de texto a texto, entre textos. Então, estava ali o tempo todo e eu não conseguia assumir? O que passa, afinal, no livro, é um dispositivo de escrita, em que um texto provoca a escrita de outro texto e depois mais dois textos. Quatro textos nascem, orientados por um primeiro que havia sido rejeitado, mas que quando é lido, provoca um enxame de letras subversivas.

Por isso, quando me perguntam sobre minha orientação sexual, ensaio responder que sou escritora. Esse é o maior armário de onde estou conseguindo sair, depois de quatro décadas e segredos, vergonhas, culpas, inseguranças. A causa que orienta minha existência, minha erótica, meu modo de relação, meu jeito de amar, é a escrita. Que me perdoem as colegas lésbicas (as que me acolhem, mesmo com trajetorias tão errantes que escrevi; e as que me regorjitam por ter sido uma lésbica de pessimas maneiras, errante, vergonha pro coletivo), mas o que posso dizer de mim é que sou nãotoda psicanalista, pesquisadora, lésbica, feminista, esquerdista e tantos outros predicados que nomeiam pedaços da minha dança no mundo. Não sou confiável. O que me orienta e me impele a romper a qualquer instante com qualquer fidelidade exigida por esses campos – é que sou escritora. Pertenço ao texto. Só posso habitar a palavra e o não-espaço até o surgimento da próxima. 

Hoje, neste final de manhã de uma quarta-feira despretensiosa de dezembro, começo uma dieta pra lembrar meu corpo que ele já pode sair dos escombros (da gordura, dos ossos, dos órgãos, das vísceras, da dor de existir) e começo a escrever a transformação dessa economia de usufruto dessa carne, desse corpo, desse organismo. Obrigada por ler esse texto, a invenção ficcional de uma origem. Vamos de um texto a texto em 2024? Entretextos. Entretextos. Trêtê.

Comecei ao som de At last, na voz de Etta, e termino no ritmo da voz de Zélia Duncan, em Lá vou eu. Na medida do impossível, tá dando pra se viver. Num apartamento, alguém está tentando acreditar que as coisas vão melhorar ultimamente. Vamos na medida do impossível. A única medida reguladora possível de qualquer economia de vida.

Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2023) Trêtê. Em: www.alineaccioly.com.br

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