Meus amigos passaram uma semana hospedados na minha casa. Atualmente, são as pessoas com quem mais me sinto confortável no universo. Foi uma experiência interessante para recuperar algumas partes de mim que eu tinha esquecido, mas que estavam encapsuladas como marcas temporais neles, nas nossas histórias, permitindo um reencontro com fragmentos de mim que estavam perdidos.
A felicidade por recebê-los situa-se, especialmente, pela confirmação da construção de uma casa viva. Alguns anos atrás, ela foi habitada por corpos que transformaram o espaço em uma espécie de casa dos mortos pra mim. Receber corpos vivos e circular palavras e afetos pelas janelas, portas e corredores me fez experimentar um outro lugar de habitação possível para os mesmos vãos que um dia já foram assombrados, assustadores, petrificados. Obscuros.
Por outro lado, sei que me embriago com facilidade no burburinho das vozes dos encontros sociais. Os dias e noite lendo e escrevendo, no meu terceiro quarto-escritório da casa, não são apenas organizadores e produtivos, mas seguem sendo, sobretudo, um deleite ético e decisório na minha vida. Assim como há histórias que precisam ser recuperadas quando se perdem pelo meio do caminho, há alguns acontecimentos que são bons demais para serem destruídos, mas não o bastante para serem olhados demais.
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Burburinho. Em: www.alineaccioly.com.br
