Personagens

A essa altura, meus amigos já fazem piada sobre meu processo de escrita. Quando começo a rir e fico pensativa ou permaneço intrigada com algo que acabaram de dizer, eles instantaneamente me devolvem um olhar consentindo meu exercício de coleta de ideias.

Há uma hiância abissal entre o instante de coleta de uma ideia e o momento subsequente da transformação textual. Em geral, nos momentos de escrita, me sinto quase sempre parafraseando sentimentos virtuosos com linguagem nobre. O trecho em itálico foi escrito por Virginia Woolf em quatro de janeiro de mil novecentos e quinze, mas veste perfeitamente minha inquietude atual. 

Dois dias depois, em seis de janeiro de mil novecentos e quinze, Virginia registrou que escreveu a manhã inteira com infinito prazer, o que é estranho, pois o tempo todo ela sabe que não existe motivo para sentir-se satisfeita com aquilo que escreve. É apenas uma questão de tempo para que passe a odiar as mesmas palavras que tanto ama no instante de escrita.

Ao ler diários de escritores e seus conflitos com a escrita, tenho a sensação que até os diários já foram todos escritos. Como se até os nossos dramas mais íntimos não tivessem novidade alguma diante dos dramas já vividos e registrados por pessoas em universos tão diferentes quanto os nossos. Talvez por isso eu tenha me resumido a uma personagem-narradora dos meus próprios textos autoficcionais. Estes, importam menos pelo conteúdo que produzem, pois o que vive através dele não é novidade, trata-se apenas  da minha passagem e sobrevida nesse mar de letras já escritas. Estou apenas nadando entre letras. Desconhecendo-me nas palavras de outros escritores que replico na minha própria forma. 

Constantemente observo estilos de escrita de colegas que admiro e faço alguns cálculos sobre a maneira como eles parecem apagar traços de suas intimidades no texto final, ainda que, claramente, a decisão pela temática seja, em si, um recorte do autor que o escreve. Há um elogio a despessoalização no texto literário, mas confunde-se constantemente uma falsa neutralidade com o exercício de despessoalização. A morte do autor não equivale ao apagamento da causa êxtima que orienta a escrita. 

No meu caso, escrever autoficção é meu jeito de exercitar a despossessão dos sentidos e a despretensão por um ideal literário ou científico. É uma travessia em que cada palavra cai imediatamente a cada passo em direção a próxima palavra. Como peças de roupa que, quando retiradas, perdem a função figurativa a qual estavam associadas e, ao final, resta um corpo de texto que tornou-se a própria nudez em cena, revelando outra superfície que já tornou-se infamiliar ao trajeto de queda das letras-vestes. Textos autoficcionais são, como diria Woolf, na-falta-de-uma-palavra-melhor, uma decisão de pensamento. 

Quando estou atravessando a experiência mundana com meus amigos, só consigo ter pensamentos nada nobres que interrogam, em silêncio, como todos eles conseguem viver sem respirar palavras. Nunca consegui, a vida toda. Poderia escrever uma fórmula para o acontecimento químico que as palavras provocam no meu corpo, como as siglas H2O, O2 ou CO2 escrevem composições químicas. Lembro que já brinquei de escrever, no primeiro texto dessa prática, TRÊTÊ. Entretextos. 3T.

Foi minha tentativa de brincadeira com o RSI, o enxame de S1 lacanês. Mas esse já é outro texto. Divago. É que me dei conta, só agora, que esse texto não vai ter final, apenas interrupção de fluxo. Ele foi o próprio parênteses de um pensamento invisível que conseguiu se inscrever. 

Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Personagens. Em: www.alineaccioly.com.br

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