Deflexão

A maioria dos todos os textos não nascem prontos. Demandam trabalho, por dias. Meses. Anos! Alguns nunca ficam prontos, existem na condição de inacabados. Há, ainda, os textos ruins que escrevemos e desejamos esquecê-los. Os esquecíveis servem de passarela para outros que estão por vir, como um aquecimento da mão que escreve e do jeito com as palavras. O exercício de escrita permite que textos inesquecíveis surjam quando menos se espera. 

Depois de abrir o baú de textos de Fernando Pessoa, o que biógrafos e pesquisadores encontraram não se resumiam aos textos mais importantes e imponentes do escritor português. Havia um tratado sobre o exercício vital de escrita. Os insistentes e curiosos descobriram o quanto é necessário brincar com as palavras para que apenas alguns textos vivam infinitamente. 

Tenho curiosidade na leitura de diários, manuscritos e rascunhos de grandes escritores de poucos textos, porque conseguimos encontrar o esboço de um caminho de criação com as palavras. Dá pra compreender que a escrita não é mágica, não é apenas ocasional ou um acontecimento imediato. É, sobretudo, uma insistência com o tempo, com o espaço, com a transformação dos elementos que estão sendo coreografados. 

Sigam pacientes, leitores. Nem todos hão de ser interessantes e inesquecíveis. Com sorte, ao menos um.

Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Deflexão. Em: www.alineaccioly.com.br

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