Natimorto

Em um desses domingos passados, assisti os oito episódios de Mike, série da Hulu que está disponível na Star Plus. Os episódios apresentam um recorte da vida pessoal do lutador Mike Tyson. Como toda biografia, o roteiro apresenta as contradições presentes na vida do protagonista e costura com algumas invenções. Talvez por esse último aspecto, o lutador não parece ter gostado do resultado final. Seu incômodo, no entanto, não se situa no conteúdo apresentado, mas na sensação de ter tido sua história roubada. Mike não recebeu o valor econômico ao qual ele supunha valer, como narrativa, para o público da série. 

Alguns momentos me chamaram atenção na série. Especialmente a representação de algumas figuras de amor que atravessaram o curso de sua trajetória constitutiva. O personagem passa oito episódios afirmando que não aprendeu a amar. Justifica essa afirmação ao identificar que não sabe reconhecer a experiência de amor por si mesmo. 

Em uma cena de poucos minutos, Tyson está numa sessão de análise e a analista esta quebra o discurso vazio que ele repetia ao longo de toda vida como justificativa para ter se tornado irresponsavelmente violento fora dos ringues. Ela demonstra, através de sua narrativa, como ele foi amado e como aprendeu a se olhar através das demandas de amor de seu entorno – sua mãe, seu pai branco, seu pai preto. 

O primeiro amor se inscreveu em seu corpo por meio de uma fantasia de abandono materno. Sua mãe repetia incansavelmente que ele era o estranho dentre seus filhos e abandonou qualquer expectativa produtiva em sua direção. Em sua visão, era certo que ele daria em nada. Retardado, medroso e ladrão, seria ninguém. O narcisismo materno presente nessa relação amorosa implicava que ele fosse ninguém para seguir no fantasma do desejo materno. Era nessas condições que ele tinha um lugar nos afetos dela. 

No instante em que ele decide ir embora, aos treze anos, tratou de abraçar a atribuição de valor afetivo que um treinador lhe ofereceu. Este último assumiu o lugar de um pai branco para Mike, convocando-o a assumir o lugar de nada como estratégia, para desnortear a expectativa de seus oponentes e revelar-se como um monstro imbatível. Essas operações marcam versões de amor, em seu corpo, que costuram o lugar de nada com uma apresentação monstruosa e amedrontadora de si. A analista, nos poucos minutos da cena da análise, consegue oferecer essa interpretação para Tyson. Foi amado pela mãe, através da fundação da consistência de um lugar vazio; e foi amado pelos dois pais, no investimento de uma performance violenta e monstruosa. 

O treinador, especialmente, possibilitou a Tyson a chance de constituir uma outra versão de si, cujo valor social poderia ser mais alto. O preço, para essa transformação, implicava necessariamente a assunção de uma performance monstruosa. Ele foi ensinado a fazer uso do racismo e dos preconceitos de classe a seu favor. Se as pessoas tinham medo dele, ao assumir a monstruosidade atribuída através do olhar racializado dos outros, ele construiria um mito de poder impossível de ser destruído pelos homens nos ringues. 

Através dessa alienação mitológica, fundou-se uma versão de Tyson que solidifica um nome cujo valor tem como suporte a repetição do estereótipo racial – o homem negro monstro. Após a morte de seu criador, ele confunde-se com o mito e transforma-se, fora dos ringues, no personagem. Estupra, violenta, animaliza-se, não apenas no enquadramento dos esportes, mas na vida como um todo. Em troca, ganhava a certeza de ser visto, de ser pago, mas perde a chance de reconhecer o olhar de amor que sempre havia sido seu verdadeiro objeto de desejo.

O que os dois traços, materno e paterno, parecem comungar é do convite à violência. A mãe mostrava ao filho como dava conta de apanhar do marido como sinal de força. O pai branco mostrava ao filho como ter uma família (e a deliciosa manteiga redonda europeia)  tornando-se um monstro assustador sem competidores à altura. A assunção da violência originária parece inescapável. Ela é a realização do amor, para Tyson. Logo, está sempre presente de alguma forma em todas as suas relações com homens e mulheres. 

Uma vida pode ser resumida em um intervalo temporal escriturado através das decisões que um sujeito toma diante de acontecimentos. Somos mais falados do que falantes e, por isso, supomos ser causados pelos acidentes aos quais fomos acometidos ao longo da infância. No entanto, os fatos (acontecimentos no caminho) terminam tornando-se convicções. Nos convencemos, ao passar dos anos, que somos determinados pelo que nos aconteceu e abandonamos cada vez mais os instrumentos que possuímos para escrever a nossa realidade. Enxergamos a vida como uma via de mão única, tornando-nos a criança que deveríamos ser aos olhos dos nossos pais. 

Todo começo de ano as redes sociais replicam diversas mensagens sobre uma nova chance de reconexão dos adultos com a criança que foram. Tenho um pouco de asco desse convite à repetição. É que num trabalho de análise, trata-se justamente de tratar o infantil para finalmente autorizar-se a liberdade de inventar qualquer outra história. 

Contardo Calligaris costuma dizer que o objetivo de uma análise assemelha-se ao processo de escritura. Tratar-se-ia de encontrar com a criança maravilhosa escondida no âmago do nosso ser e matá-la. É preciso assassinar a boneca narcísica inventada pelos pais. Essa tarefa do processo analítico viabiliza a morte de uma criança que, na verdade, já estava morta. É uma espécie de natimorto. A criança de nossa infância é um cadáver do qual aprendemos a gozar na ilusão de podermos manipulá-lo. 

Calligaris havia atravessado sua análise, não por acaso, com um analista que escrevia sobre a morte da criança como condição para a liberdade do ser. Serge Leclaire, seu analista, publicou Mata-se uma criança em 1975. Ainda que pareça um tabu no campo psicanalítico, o fato é que os analistas orientam mais as direções de tratamento do que parece. Eles se abstém, no entanto, de dirigir o sujeito que passa pela análise. Afinal, quem passa num escrito, numa análise e numa história de decisões constitutivas é sempre um único sujeito.

Tyson fez dos pais, treinadores e esposas seus suportes para validar sua versão monstruosa e violenta de si, mantendo viva a fidelidade com a criança narcísica que foi para eles. O preço de não poder inventar-se outro foi alto para ele. 

Assisti a série por indicação de um dos meus filhos e passei muito tempo interrogada sobre as possíveis maternagens que realizamos. O que nós, mulheres, ensinamos e fantasiamos sobre a existência masculina em nossos filhos? Qual é a parte do nosso narcisismo, sem qualidades, que pode ser extraída para justificar possíveis atrocidades nos caminhos futuros de suas vidas? Qual versão de nós é enterrada pelas crianças que somos para nossos pais? Que natimorto carregamos nos corpos adultos, sem dar voz, letra e passagem? Ficou tarde para Tyson. Espero que não para meus filhos. Desejo que sejam livres até de mim.

Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Natimorto. Em: www.alineaccioly.com.br

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