Nos anos oitenta, era corriqueiro que as músicas não tivessem fim. Em certo momento da repetição exaustiva do refrão, o volume abaixava gradativamente até chegar ao silêncio. Talvez essa característica oitentista tenha ficado marcada em mim. Através dela, consigo ler a morte como uma degradação temporal até o instante em que se encontra o silêncio.
Não conseguimos representar a morte porque ela não se resume ao instante em que o corpo para de funcionar. A transformação constituída pela morte é um acontecimento entrelaçado com a noção que temos de vida, desde o princípio.
Sempre tive problemas com finais. Eu só sabia pensar na morte através da ideia de suicídio, como um ato de interrupção do curso do tempo no momento arbitrário de decisão de um sujeito. Tal qual meu raciocínio suicida, minha escrita por muito tempo encontrou a morte precoce. Grandes ideias sempre acabam murchando ao longo do texto, tornando-se repetitivas tais quais as músicas com finais que não terminam. Passei muito tempo pensando sobre como abaixar o volume de um texto, para levá-lo à transformação que ele demandava até o encontro do silêncio.
Quem soube mexer com essa lógica temporal foi Fernanda Torres em Fim, livro que foi transformado em série pela GloboPlay. Um grupo de amigos participa do funeral do primeiro homem da turma a morrer, dando início (a partir do fim) a uma costura de narrativas, entre idas e vindas temporais. No roteiro, os finais não acontecem gradativamente, pois são o centro orientador das tramas e dos personagens. Apesar da trama acontecer majoritariamente entre as idas e vindas de velórios, o ponto alto da série acontece quando os personagens apresentam suas tragédias pessoais, momentos em que uma certa ilusão diante da vida se quebra.
Foi com ajuda de literaturas sobre o fim, como a de Torres, que descobri como os finais são apenas um instante em que você decide terminar aquele arranjo de palavras, atribuindo a elas um ponto de parada na escrita. O ponto de parada não equivale a morte do texto. Não é necessário performar uma reviravolta ou um rebuliço. Há finais que simplesmente são a interrupção do fluxo que até então vinha desaguando. Descobri, também, que textos intermináveis podem apenas ser textos que ainda não foram finalizados. Alguns ficam em suspensão durante anos à espera de um fechamento. Por vezes, temos que descobrir as palavras que ainda não existem em nosso vocabulário para nomear as transformações que estão acontecendo pela via do texto. Ao dar algumas voltas em outros textos, coletamos as palavras que nem sabíamos precisar para descobrir, aposteriori, o final anterior.
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Finais. Em: www.alineaccioly.com.br
