Guardadora de palavras

Achei um dicionário de português na bagunça dos armários de casa. Pequeno, serviu aos meus filhos durante a infância, na época de escola. Busquei uma palavra nele enquanto estava escrevendo o capítulo de um livro. A palavra procurada foi tributário. Queria achar um sinônimo, porque havia usado duas vezes seguidas na mesma frase. Não achei um sinônimo pra ela no pequeno dicionário e entendi porque as pessoas têm dicionários grandes em casa. Os pequenos não prestam, são econômicos demais nas informações e na quantidade de palavras catalogadas. 

Acabei pesquisando no google e fiquei irritada de ter cedido à tecnologia porque tenho uma porcaria de um dicionário pequeno e inútil em casa. Que isso, Aline! Me arrependo imediatamente de ter adjetivado como porcaria um pequeno guardador de palavras. 

Acho que ainda me lembro o dia que ele foi adquirido. Interrogada pela vendedora sobre as possibilidades de volume do dicionário, me lancei ao pequeno porque as professoras de português dos meus filhos só usavam o objeto para ensinar aos meninos como usar um dicionário. Preocupei com o peso da mochila e com as costas dos meus filhos. 

Naquele momento, não se tratava da possibilidade imensa de consulta às palavras, mas do manuseio. Logo, o dicionário era pequeno para caber na mochila, sem pesar, e para permitir a diversão na aprendizagem da consulta. Obviamente, aquela pequenina casa de palavras se tornaria pequena e econômica demais. Não à toa, ficou perdido nos armários da casa por anos. 

O pequeno dicionário que tenho é um Aurélio, mas é um mini Aurélio. Desejo ter um dicionário Aurélio dos grandes. O Aurélio é um clássico e meu desejo de tê-lo adveio da história que li sobre sua criação. Fiquei comovida e nem sei muito bem o motivo. Talvez pela desgraça, pela bebida, pela intriga entre amigos. É um dicionário que tem história e afetos. 

Hoje em dia só vende Houaiss. Nem se vende dicionário, para ser mais precisa. Não quero me atualizar. Quero me relacionar com os objetos que têm histórias que transbordam afetos. Tenho certeza que um Aurélio já derrama, essencialmente, um certo drama.

Algumas coisas não precisam ser apenas utilitárias, ainda que sejam concebidas para este gênero. Ao menos, os dicionários. São guardadores de palavras. 

Fernando Pessoa era um guardador de rebanhos. Acho que sou uma guardadora de palavras. Preciso escrever meu dicionário.

Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Guardadora de palavras. Em: www.alineaccioly.com.br

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