Dissidência

Texto em homenagem ao dia da visibilidade trans. Respira, toma fôlego, e vamos ultrapassar a preguiça dos 140 caracteres juntes.

Faz alguns anos que tenho estudado Paul Preciado e sua construção epistêmica e filosófica da noção de dissidência. Meu interesse é justificado por diversas frentes, desde os analisantes trans que acompanho na clínica à curiosidades pessoais que não vem ao caso. Em termos teóricos, me interessa seguir investigando e a proximidade entre os finais de análises e a noção de um ética dissidente. Tenho me perguntado sobre o quanto essas idéias se entrecruzam na clínica psicanalítica da atualidade. 

Hoje é dia da visibilidade trans e gostaria de deixar registrado meu posicionamento ético-político com a causa. Por isso, recupero um trecho de um trabalho que apresentei no último evento da Haeresis. Cito uma parte que me ajudar a pensar nos problemas vividos por corpos auto referenciados como mulheres quando se emaranham em modos de uso do discurso feminista que terminam, por efeito colateral, produzindo sintomas, angústias e inibições de toda sorte. O gosto amargo fica quando reconhecemos que nosso instrumento de batalha contra a guerra do patriarcado reitera soluções excludentes de minorias, sustentadas por uma perspectiva supostamente natural e biologista que mantém a estrutura não deformada. Afinal, toda crítica gira em torno do que insistimos em defender como mulher, feminino, substantivos e adjetivos que carregam uma suposição de naturalidade biológica que não deixa de ser uma falácia estruturante até dos impasses feministas.

Monique Wittig foi uma feminista lésbica que rompeu com o movimento feminista francês justamente ao notar que o impasse interno se localizava na defesa da identidade dita feminina. Só para ilustrar brevemente, mulheres desfem – que não performam feminilidade, pareciam não compor as ideias da luta feminista. Abordarei a teoria de Wittig com maior detalhamento em outro texto. Cito-a apenas para ilustrar que os embates são antigos e seguem fragmentado o campo de batalha dos corpos excluídos das frentes políticas consideradas idealmente importantes.

A noção de corpo falante, concebida por Shoshana Felman e sustentada topologicamente por Jacques Lacan, parece uma saída interessante de nomeação para o impasse dos conjuntos sociais humanos. Estaríamos mais ligados por sermos estrangeiras natas habitando a linguagem partilhada sem perder a referências de nossas línguas próprias, do que para a divisão mitológica e binária de machos e fêmeas, cis e trans, heteros e homos. Mas, talvez vocês não estejam ainda preparadas para essa conversa. 

Também vou precisar adentrar com mais detalhamento a noção de corpo falante, mas destaco aqui que o parlêtre par la lettre – é o corpo que fala pela letra. Ao falar, ele não diz o sentido, porque o amor é impossível de se escrever precisamente. Só pode ser lido na borda, entre línguas estrangeiras. Somos capazes, no máximo, de traduzir, tentando encontrar meios de usar as letras soletradas pelos corpos, construindo alguma miragem de sentido em comum. Por isso, um corpo falante realiza a escrita das intermináveis deformações de um corpo. Os movimentos de escrita, nodais e modais, promovem um atravessamento não apenas das fantasias imaginárias que articulam esse corpo ao sistema social, mas enfrentam, ainda, uma travessia das estruturas simbólicas de sexo-gênero e identidades que permanecem ensurdecendo analistas e analisandos no reconhecimento das monstruosas e incabíveis invenções. 

Os movimentos de decisão do sujeito, Preciado nomeia, à sua maneira, como dissidência. Pretendo discutir muito essa articulação em dois mil e vinte e quatro. É mesmo um escândalo retomar o mito de Aristófanes à perspectiva mutante de Preciado. Não podemos mais encontrar nossas metades porque do instante em que fomos talhados, mutamos. A essa altura, espero ter causado alguma vertigem em você, leitor. As referências são inúmeras. O trabalho é árduo. 

Por enquanto, ficamos com a provocação de Preciado. No final de 2019, o filósofo ocupou seu espaço numa mesa do Congresso da Escola da Causa Freudiana em Paris, convidado pelos psicanalistas da instituição a falar sobre as mulheres na psicanálise. Vocês ainda estão cegos diante do enigma produzido pelo recalque freudiano acerca das mulheres? – inquietou-se o mutante. Paul Preciado é trans e apresenta-se através dos movimentos ininterruptos de mutação de um corpo não binário, um monstro que fala

O relatório escrito para ser apresentado por Preciado na reunião foi interrompido e não terminado. Por efeito, alguns psicanalistas se apressaram em publicar e traduzir para diversas línguas uma versão transcrita de sua fala, prolongando um efeito em cascata não apenas no campo psicanalítico francês, mas em várias escolas de psicanálise no mundo. Aqui no Brasil, reverberou um certo rechaço ao uso discursivo da histeria por Preciado.  Psicanalistas do campo freudiano se apressaram em publicar suas respostas ao que eles supunham ter sido a escrita e fala de Preciado, defendendo a clínica psicanalítica das supostas acusações do filósofo. 

Meses depois, Preciado decidiu rapidamente publicar a sua versão escrita do texto interrompido naquele fatídico dia. O monstro que vos fala. Na apresentação do texto, ele anuncia que seu discurso funcionou como um terremoto para o campo psicanalítico mundial, que, por sinal, já estava com suas estruturas fragilizadas mediante as intensas e indesviáveis acusações de ensurdecimento diante das questões de gênero e sexualidade. Estas já não cabiam nos divãs edípicos freudianos ou nem mesmo nas tabelas de sexuação lacanianas. Diante desses impasses clínicos e teóricos, analistas insistiram pelas respostas binárias, dessa vez separados entre os que defendiam o Édipo e a Tábua da sexuação e entre os que tentavam salvar a teoria articulando-a conjuntamente com as teorias feministas e as filosofias de gênero. O risco de enlaçar epistemologias que não abordam as operações da sexuação e da identificação a partir dos mesmos critérios gerou uma onda de Caos na práxis que se arrasta até o presente momento.

Deixaremos essa discussão para um momento futuro. Há muitas mutações que precisam ser topologicamente operadas para que o discurso acompanhe a subversão dissidente. Por hora, meu interesse é seguir escutando os monstros mutantes e as línguas que deles ressoam, de modo a ler o inincurralável por qualquer teoria, por qualquer noção de clínica, para aprender algo sobre como esses poetas do corpo inventam com seus impossíveis. 

Preciado começou sua fala convocando a plateia de psicanalistas a assumir a responsabilidade do campo lacaniano nas transformações da epistemologia sexual e de gênero. Ele clamou a plateia que apresentasse quantos deles haviam renunciado à referência ao sistema sexo-gênero no seu percurso de final de análise, dispositivo do passe e autorização como analista do campo. Sua provocação foi efetiva, de modo que monstros, ou, nas palavras de Preciado, mutantes, não levantaram sua voz. Não havia dissidentes ou testemunhas da dissidência na sala?

O filósofo seguiu denunciando a cultura atual como um regime de diferença sexual. Nesse regime, humanos partem do principo de natureza para categorizar homens e mulheres, suposição equivocada que impede a civilização de reconhecer o dispositivo político do qual fazem parte no sistema sexo-gênero. Somos, sobretudo, humanos. Traduzir homo sapiens por homem e não exclusivamente por humano teria sido nosso primeiro equívoco de sentido. O primeiro passo para reconhecer os dispositivos de poder que se deflagram a partir desse mito inicial implica, portanto, em estranhar o que é nomeado como natureza da espécie humana, reconhecendo que as categorias de feminilidade e masculinidade não são o ponto de partida para nomear as diferenças e semelhanças dos corpos humanos. 

Por situar-se a partir da referência mutante, Preciado remete tal condição ao resultado de uma metamorfose, como as escritas por Kafka, autor de A metamorfose. Intitulado pelo filósofo como o grande mestre do saber-fazer com as operações mutantes de escrita, Kafka é referência por seu fazer com a loucura íntima de seus personagens. É outro texto, no entanto, que Preciado situa sua referência kafkaniana. No texto Um relatório para uma academia, encontramos a narrativa de Pedro Vermelho, um macaco que aprende a linguagem dos humanos e apresenta para autoridades científicas o que essa evolução humana representou para ele. Para tornar-se humano, Pedro teve que dominar a linguagem, mas não apenas. Precisou, sobretudo, esquecer de sua vida de macaco. Para suportar esse apagamento, com toda a marca de violência que tal operação carrega, tornou-se dependente de álcool. 

Assim, a história de Pedro marcada por Kafka não demonstra o sucesso da emancipação que a linguagem humana permite, mas, apresenta a perda da liberdade forçada por um modo padronizado e específico de fazer-se falante através da linguagem. A escolha forçada que estava em questão indicava a escolha entre jaulas: a jaula animal ou a jaula humana. 

Preciado apresenta sua leitura do mundo através de sua jaula de homem trans. Apresenta-se como um corpo marcado pelo discurso através do significante transsexual. Não é um significante qualquer, pois se constituiu através de uma trama tecida entre os saberes jurídicos, psiquiátricos e psicanalíticos. Este último, por sua vez, compõe em seu discurso, analítico, significados que definem a escrita do impossível. 

Trans é um dos nomes do corpo falante em movimento constante de metamorfose do impossível. Estruturalmente, situa-se na borda tecida entre as estruturas (neurose, psicose, perversão, autismo), articulando-se borromeanamente de modo a compor uma existência singular. Preciado, no entanto, faz referência a um modo de leitura edipiano da transexualidade, ironizando os limites do complexo de Édipo na leitura e articulação das operações de transexualização de corpos falantes. Se referido ao complexo de Édipo, restaria às pessoas trans o diagnóstico de doente mental, da monstruosidade não padronizada pelo complexo de Édipo. 

Em tempo, lembro a vocês que as histéricas foram as monstruosas de seu tempo. Tomaram a palavra para gritar ao pai da psicanálise que seu complexo de Édipo apertava seus corpos no divã. Hoje, são as pessoas trans, como Preciado, que assumem esse lugar da monstruosidade mutante que fala aos psicanalistas. O corpo trans é a incorporação da resistência à conformidade padronizada da subjetividade escrita pelo complexo de Édipo Freudiano. São corpos que decidem habitar à margem dos discursos e, por isso, não são reconhecidos como especialistas da própria existência. Os corpos trans decidem por não se enjaular na língua freudiana ou lacaniana, porque preferem enjaular se no exílio de suas línguas próprias para, com elas, mudar a linguagem. 

Estamos juntes. Grande parte das construções feministas, que foram tão importantes em determinadas épocas, já não são mais suficientes para abraçar as mutações das minorias. A ideologia da diferença sexual naturalista tornou-se um freio para os projetos de transformação radical. Precisamos seguir em mutação, com projetos transversais. A revolução feminista não é mais apenas de mulheres, mas é de todos os corpos falantes que são abjetados das estruturas petrossexorracial. Precisamos mudar nossa compreensão política, aprofundando os problemas nas linguagens identitárias segmentárias que nos colocam para nos destruirmos, implodindo nossa noção de comunidade LGBT. 

Como nos convida Preciado em Dysphoria Mundi, vamos nos concentrar em desenhar a mutação, inventando outros modos de relação e militância. Por isso, nesse dia, faço coro a inquietante pergunta de Audre Lorde: Qual parte de você sobreviverá a todas as libertações que seu corpo demanda, em mutação? E, com Preciado: você escuta o som do mundo desmoronando? 

Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Dissidência. Em: www.alineaccioly.com.br

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