Não me lembro ao certo a primeira vez que assisti Frances Ha. Desse primeiro encontro, fiquei com a impressão de leveza e persistência da protagonista em meio ao caos contingencial da vida. O filme faz parte do estilo Mumblecore, que poderia ser traduzido livremente como a prática do resmungo. É muito comum a jovens adultos em tempo de enfrentamento da realidade avassaladora da vida após a fase universitária.
Reassisti Frances Ha no mês passado e tive um outro encontro com o testemunho das decisões da protagonista. Gosto de Frances porque ela é extremamente honesta com suas vulnerabilidades e com sua aposta no amor, a ponto de vaguear errantemente pela vida burocrática, suposta aos adultos, porque está sempre apostando romanticamente que as coisas acontecem para aqueles que acreditam e insistem. Seu jeito quase infantil de lidar com os desencontros provoca incômodos nos colegas, já tão aderidos às performances sociais esperadas deles. Frances destoa. Ela aposta na escolha pelo amor entre mulheres acima de qualquer outro tipo de relação. Ela acredita na amorosidade não sexual entre seus amigos. Ela abraça as contingências com leveza. Ela insiste na repetição. Por isso, ela arrasta um traço de graça diante do impossível, nomeada por um amigo como undateable. Ela é impegável.
Gosto do jogo de sentidos que a palavra em português nos permite. Frances não adere, ela escorre pelas ruas, nas instituições e entre grupos de amigos. Frances escapa das demandas estereotipadas de sua geração o tempo todo, insistindo num modo aparentemente ingênuo de ver a vida. No entanto, o que se revela apenas no final do filme, quando ela comenta sobre seu estilo de direção coreográfica, é que ela tem um gosto especial pelo que parece errado numa dança. Parece errado, mas é errante.
Ao fim do enquadramento cinematográfico, ao qual fomos convidadas a testemunhar, Frances abraça o propósito de seu estilo, uma marca que destoa. Sua vida não é orientada por formas padrões de enquadramento das paixões, nem nos passos de dança, por onde segue fracassando como bailarina para descobrir a veia autoral coreográfica. Frances renova constantemente sua insistência na invenção.
A simples ideia de ter como protagonista do filme uma mulher lutando cotidianamente para sobreviver, subjetiva e materialmente, me encheu de entusiasmo. Por outro lado, permanece não escancarada sua posição lésbica na orientação de seu desejo. Não se trata de sexo, em princípio, mas da escolha erótica por sua amiga, que se renova o filme inteiro e em alguns momentos nos causa constrangimentos. Seu modelo de amor é cortez e ela passa a maior parte do filme amando sozinha, na posição de uma oferta disponível a ser usufruída a qualquer momento pelo objeto amado.
Frances termina a película vivendo a cena tão esperada de sua fantasia amorosa. Em sua definição de amor, bastava ter a confirmação, através do olhar, de que havia reconhecimento e cumplicidade com um outro alguém em um espaço público. A cena, no entanto, deixa entrever que a verdadeira realização de Frances, através da fantasia, é a confirmação de que ela não desviou de seus sonhos, transformando uma relação unilateral em uma composição de sua coreografia de vida. Frances manteve-se enlaçada à estranheza que causava aos olhos do outro, impegável.
Quero destacar uma cena que acontece logo no começo do filme. Seu namorado a convida para dividir o apartamento e ela recusa. Justifica sua negativa através do compromisso com a amiga, pois não deseja quebrar seu contrato com ela. Nos primeiros minutos do filme, fomos apresentadas a logica amorosa que as duas vivem, nomeadas por elas mesmas como uma relação lesbica sem sexo. Por relação lesbica, definimos, nesse recorte, a decisão de amorosidade e o reconhecimento de semelhança ética entre mulheres. O namorado fica claramente contrariado e termina a relação, com a expectativa de que Frances ceda diante da possível ruptura e aceite a mudança. Ela não recua e logo percebe o jogo esquizo que ele tenta realizar pelo discurso. O rapaz reforça o convite para residirem juntos e quando ela nega, termina a relação. Ele faz esse jogo discursivo três vezes. Ela, cansada, vai embora.
Semanas depois, Francês é informada pela amiga que o contrato de aluguel delas termina em dois meses e que a amiga mudará para o bairro dos seus sonhos. Frances fica desesperada e revela à amiga o motivo do término com o ex namorado. A saga do caos começa a partir da constatação da disparidade na lealdade entre ambas. Passamos a acompanhar a desorientação de Frances, vagando pela vida urbana e profissional.
Qualquer relação que nos permitamos fazer com esses elementos pode resultar em interpretações que justifiquem ou mesmo conectem os eventos, compondo uma explicação para o descaminho de Frances que se desenrola até o final do filme. No entanto, não nos interesse aqui compor uma verdade através da determinação dos acontecimentos e acasos como fatos. O ponto que ilumino situa-se na dificuldade de uma jovem em apostar insistentemente em formas discursivamente que lhe causam estranhamento, ainda que corriqueiras para todo jogo social. Como resultado, o fracasso é delineado e esperado, visto que seus espaços funcionam majoritariamente apoiados na norma social vigente.
Tenho relido os textos de Monique Wittig, agrupados no livro intitulado Pensamento Hetero. Consigo associar claramente as criticas que ela faz ao feminismo francês da época, especialmente os de escritoras fortemente representadas por Helene Cixous e sua instituição feminista, ao qual elas fizeram parte por algum tempo. Wittig desligou-se do coletivo de mulheres justamente por recusar a assunção empoderada desse lugar social nomeado como mulher. Para a escritora, a classe mulher já configura uma lógica que tem seu lugar associado ao pensamento hetero, cujos conceitos, epistemologias, filosofias e construções lógicas desenvolvem-se através de uma mitologia de naturalidade para as classes homens e mulheres.
Não entrarei em detalhes nesse texto, mas a escritora segue afirmando que Lésbica é sobretudo o nome de uma decisão política de recusar afirmar-se através da mitologia biológica, insistindo em ser não-homem e não-mulher. Ao recusar essa conjunção particular como únicos lugares possíveis de afirmar-se humano, o que a feminista recusa é ser referida ao discurso heteronomativo.
A proposição de Wittig me lembra os atuais desdobramentos filosóficos de Paul Preciado, que inventa nomeações diversas – homem trans lésbica, mutante, dissidente – para nomear sua decisão de saída da referência do sistema sexo-genero como forma de classificação social e histórica. A saída da jaula, segundo o filósofo, impele que reconheçamos estar sempre falando de alguma, posto que somos sujeitos da linguagem e da cultura. Podemos subverter nossas prisões e encontrarmos formas únicas de fazer uma vida sem resumir-nos aos aprisionamentos intitulados normais. Mas esse ato começa com a recusa a habitar os discursos forçadamente considerados referência da norma humana.
Wittig, por sua vez, afirmava-se lésbica por definir esse lugar como a possibilidade de não estar referida a homem algum, apenas à semelhantes fora do discurso heteronormativo e esse era seu jeito de sair do discuro mitologicamente naturalizado como normal.
São detalhes sutis que mostram os descaminhos das nossas decisões. Conheci militantes do feminismo radical cuja defesa da liberdade (para alguns) era encantadora. Conheci mulheres que se diziam lésbicas, mas se tornaram versões de um machismo assustador. O que elas tem em comum é uma luta para criar lugares de fala, de reconhecimento e de empoderamento dentro dessa lógica sufocantemente heteronormativa. O feminismo exclusivo de mulheres, o feminismo liberal, o movimento lésbico sem gays e pessoas trans, são versões que se tornam tão problemáticas quanto o machismo vigente. Não se trata de renovar o mito mudando o protagonismo dele. Não adianta nomear-se lésbica ou feminista e levar adiante uma norma heteronomativa, dentro dos contratos sociais esperados. Tratar-se-ia de fundar outro discurso, dissidente, que não refere as relações entre humanos através do discurso hom’ano.
Lembro-me da minha tristeza ao descobrir que nas relações entre mulheres há repetições das mesmas exigências contratuais heteronormativas: espera-se o sexo regular, o casamento, o comparecimento social entre famílias, a reprodução da espécie. Claro que somos livres para desejar. Mas é sempre estranho quando os desejos cumprem sempre a mesma rota entre pessoas absolutamente diversas.
Uma moça encantadora a qual me apaixonei reclamou, em um dia de chuva, que a relação lésbica era ruim quando não tinha um homem para doar o casaco na noite fria. Reclamou, em outro momento, como era ruim sentir-se insegura diante de violências possíveis, ao andar num parque ou numa noite deserta depois das onze. Ela poderia estar apenas nomeando suas inseguranças diante de sua própria decisão de saída do modus operandis discursivo, mas estava, sem se dar conta, contabilizando todas as supostas desvantagens que existem em abandonar um sistema em que se espera a passividade e a subserviência de uma mulher mas, em troca, garante um ideal de segurança, acomodamento e benefícios. Anos depois, essa bela moça casou-se com outra, vivem uma vida feliz e heteronamtiva com seus casamentos, sobrinhos, natais em família, concurso público e financiamento residencial. Eu, como Frances Há, me assustei quando ela demonstrou menos compromisso com a subversão e desejo pelo acomodamento. Tá, eu também ainda estava aprendendo a construir tudo aquilo. Mas achei que nosso contrato era sobretudo amoroso, fora da lógica. Ela, como a amiga lésbica de Frances, queria morar na rua do bairro mais bonita dos seus sonhos. A vida segue para todes. Eu, sigo como Frances, como Wittig, como Preciado. Impegável. Dissidindo. Um dia por vez.
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Frances Ha. Em: www.alineaccioly.com.br
