Unheimlich

A alienação não é uma operação tão escandalosa como a escravidão. Ela opera quase imperceptivelmente através da linguagem e vai sendo absorvida pelo corpo silenciosamente. Quando colocamos uma semente em terreno e fértil e regamos com a quantidade de água necessária, uma raiz cresce e depois dela, uma infinidade de galhos, folhas e mais raízes germinam. É lindo ver esse processo em cada tipo de planta, fruta e toda a flora que temos acesso em cada espaço geográfico. Com a linguagem, algo parecido acontece. Uma palavra, antes de ser vocalizada por nossas bocas e compor um discurso completo, se implantou em nosso corpo em sua forma mais primitiva, com um som e um movimento corporal. 

Se vocês já tiveram a oportunidade de estar próximos de um agente materno e seu bebê, perceberam o encanto que envolve o jogo de alienação simbólica. Há erotismo, afetação, sensibilidade. O bebê brinca com sua boca, faz bolha de ar e baba, ousando produzir algumas sonoridades. Enquanto mexe sua boca – e com isso seu corpo inteiro-, descobre o que aqueles movimentos produzem como percepções e sensações variadas. Sonoridade, textura, cheiros e sabores. Ao mesmo tempo, um adulto e tantos outros, movimentam seus corpos produzindo um jogo entre som, afeto e palavras Essa brincadeira séria transforma gradativamente o então corpo livre e exploratório da criança em um corpo moldado às expectativas desenvolvimentistas esperadas da espécie humana. É assim, sutil e amorosamente, que as palavras e seus sentidos vão silenciosamente parasitando nossos corpos, sendo absorvidas por cada dobra do nosso corpo como um câncer, de modo que, mais tarde, ficam tão entranhadas que se torna impossível extraí-las sem arrancar pedaços de nossa carne e de nossos ossos. 

Ontem apresentei um projeto a um grupo de pessoas que me empolgam muito. Uma delas, em especial, vem chegando devagar. Acho que estamos nos (des)encontrando devagar. Desconfiado é aquele que sabe bem os efeitos trágicos de alguns processos alienantes, menos pelo agente de poder, mas pelos buracos que descobrimos ter, tão férteis e tão disponíveis aos convites de amor (suposto). Não por acaso, foi ela quem notou a implantação de uma palavra recém inventada no campo psicanalítico, a expressão infamiliar. Particularmente, gosto da palavra, pelo prefixo in que ela carrega. A palavra foi inventada por um grupo de tradutores que para conceber um novo termo, na língua portuguesa, que pudesse carregar a indeterminação necessária do mesmo termo em alemão, unheimlich. Até esse ponto, me deliciei com o puro estado de invenção de uma palavra nova. Tenho a palavra original tatuada em uma parte do meu corpo, de tanto que gosto dos impossíveis que ela carrega.

O problema vem depois da invenção, no uso que certos discursos tomam como forma de apropriação dos sentidos. No filme Oppenheimer, acompanhamos de perto a empolgação de um grupo de cientistas desenvolvendo suas ideias extraordinárias, com verba do governo. Sabemos o quanto é raro o investimento financeiro no campo científico, na produção de idéias. O gosto amargo, no entanto, vem depois, quando é necessário enfrentar o objetivo nada secreto que envolve todo investimento capital. Há guerras, há execuções e mortes, há um uso não previsto pelos cientistas que, em todos os seus cálculos de probabilidades de problemas futuros, nunca conseguem antecipar. Não sou tão ingênua de supor que um grupo de cientistas não tenha parte nesse terror. Um inventor tem responsabilidade por sua invenção e os efeitos destrutivos que ela possa vir a promover na civilização. 

Voltando a nossa palavra da vez, estive num processo de doutorado nos últimos cinco anos e acabei ficando perto de um dos grandes responsáveis pela invenção da nova palavra. Ele e seus colegas passaram a defender o uso do termo em todas as traduções textuais do campo freudo-lacaniano, chegando a discutir com estudantes que seguiam apresentando suas teses utilizando termos imprecisos anteriores. Os colegas de trabalho desses inventores passaram a endossar o uso do termo com seus orientandos, de modo que, no espaço de menos cinco anos, essa sementinha já tinha se pulverizado de tal forma que parecia natural aos olhos dos leitores do campo psicanalítico recém chegado.

Um outro colega nosso, também tradutor e extremamente politizado, percebeu o discurso de poder em torno do uso da palavra. Uma nota: há uma competição silenciosa entre tradutores diante de termos intraduzíveis. A competição, em princípio, é saudável, visto que nós leitores nos beneficiamos da produção de palavras novas, de arranjos entre palavras, do trabalho exaustivo de invenção para nos ajudar a ler línguas estrangeiras. Sem ajuda desses astutos transliteradores entre línguas, perderíamos a oportunidade de conhecer os mais belos grãos de estilos de outros territórios geográficos. Mas no caso específico de nossa palavra, o esforço denunciado pelo segundo tradutor demonstrava como já temos belas palavras na língua portuguesa que servem aos princípios de tradução. Algumas, inclusive, são poéticas o suficiente para manter o buraco necessário nas palavras entre línguas, permitindo caber a entrada do leitor com suas próprias elucubrações. Alguns textos, em especial, foram escritos para transmitir afetos e experiências indizíveis através das lacunas que habitam as palavras. 

Esse segundo tradutor ressalta, portanto, que a tradução não pode servir para tudo responder, a tudo resolver, porque há um certo tipo de literatura que sobrevive justamente porque deixa furos de respiro no texto que foram abertos propositalmente pelo escritor, espaço por onde o leitor pode entrar e cerzir sua própria versão entre textos. Assim, este tradutor recuperou os termos utilizados anteriormente para traduzir unheimelich – estranho-familiar, inquietante, e propôs o termo incômodo

Não me cabe tomar partido ou resolver querelas insolucionáveis. Ontem, quando uma astuta participante do grupo recém inaugurado fez um comentário sobre a tradução no texto de Clarice Lispector, percebi imediatamente como meu texto recém escrito estava cheio dessa palavra recém inventada, resultado de um forçamento produzido intencionalmente como forma de alienação a um discurso e poder. Quantas palavras se tornaram familiares nas nossas bocas, para traduzir nossos buracos, mas terminam por roubar nossa chance de brincar com a língua e confeccionar nosso jeito singular de mergulhar no universo desconcertante dos afetos e dos modos como os incorporamos?

No processo de transformação ao qual somos impelidos, para tornarmo-nos adultos, humanos civilizados, é impossível escapar a alienação forçada da linguagem. É até redundante escrever tal expressão. Não à toa, com alguma sorte, somos acolhidos afetivamente para que essa linguagem se entremeie, aos poucos, em nossa carne e nossos ossos com muito erotismo. O erotismo necessário para tornar-se suportável a produção de uma versão dócil de um corpo que passará ao exercício da servidão voluntária à civilização. 

Se temos menos sorte, essa forçação vem com doses intensas de violência e marcas de dor que se tornaram impossíveis de serem esquecidas. A cada palavra falada, torna-se inescapável sentir as dores que ela carrega, emudecendo-nos para deixar de sangrar as violências civilizatórias. De todo modo, se há algo inesquecível e insolucionável nesse modo de reiniciar o processo de humanização ao qual todos necessariamente partilhamos, ficamos com os restos. São efeitos acumulados após anos de incidência dessas operações. Esses restos insistem em se pronunciar como desconfortos, provocando em nós modalidades variadas de inquietudes, estranhamento, incômodos, infamiliariadidades, angústias. Porque nosso corpo esconde, nas nossas dobras inacessíveis ao outro, as marcas de resistência. São os silêncios plantados nas mesmas palavras forçadas. É um certo desajuste, uma sensação de que algo não encaixa, não reverbera os sons primitivamente produzidos por nossos corpos, do tempo que com ele brincavam livres. Há sons e movimentos corporais que produzimos apenas quando as palavras não são suficientes para expressar nossas experiências. É um certo jeito de dobrar o corpo, de esticar a entrada de ar na boca, de sonorizar diferente uma expressão. 

Demonstrei um pouco desse funcionamento em outro texto, Thinkos. Por isso, lembrei mais uma vez dos fungos. Mas agora me refiro aos que habitam nossos corpos. Alguns deles se tornam tão necessários que precisamos alimentá-los para que eles cresçam e nos ajudem a combater outros parasitas. Nosso corpo é um território ainda desconhecido e inexplorado, mesmo que variados discursos tentem produzir verdades inquestionáveis que não colam. Fica o desarranjo. Resistimos. Há uma geração inteira de analistas que acha problemática a noção de resistência. Para eles, claro. Porque os analisantes chegam aos consultórios pedindo ajuda para lidar com as lógicas de poder e suas violências, mas encontram quase sempre uma nova necessidade de alienação. A mim, me faz vibrar. A resistência permite o ressoar de uma decisão ainda frágil de um corpo que clama por uma leitura. Mas não qualquer leitura. Definitivamente, não demanda uma tradução a qualquer custo. Afinal, o primeiro leitor e tradutor dessa língua nativa inexplorada, que sonoriza e gestualiza sutilmente no campo da linguagem é o corpo falante que se apresenta estrangeiro à própria existência nativa. A tristeza, a dor, o sofrimento se localizam nesse roubo. Mas, não tem nada não. A cada um, seu unheimlich. A cada um, sua chance de encontrar as palavras que autorizem o voo cujo destino é o reencontro de si. 

Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Unheimlich. Em: www.alineaccioly.com.br

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