Tem um trecho de O romance luminoso que Mario Levrero escreve um texto inteiro do seu diário abrindo e fechando parênteses um atrás do outro, sem pontuação ou palavras entre o final de um e o começo de outro. Algo assim:
(llnkhduebjdnkdnckl)(kjdbjkwbdjkwbdj)(nskjwbdjkwbdj)
Fiquei tão incomodada com o deslizamento do texto entre blocos de parênteses que parei de prestar atenção no conteúdo para ler o que se desenhava através daquela forma, ou seja, do uso que ele estava fazendo do símbolos para transformar a experiência do leitor. Conferir se todos os parênteses abertos foram fechados e depois conferir se os assuntos eram realmente distintos o suficiente para não habitarem um mesmo e único parênteses.
Bom, ele tinha mesmo fechado todos os parênteses abertos e, seguindo a leitura, encontrei a explicação para o recurso gramatical. “Escrever entre parênteses me provoca ansiedade, com certeza por temor de fechá-los, como se fosse algo tão importante; de modo que continuo fora do parênteses com o tema do parênteses”
Claramente o efeito da forma escrita tinha sido bem sucedida. Senti o que ele escrevia estar sentindo através daquele recurso. Fiquei ansiosa com os parênteses ininterruptos por realizarem, ao mesmo tempo, o movimento de deslocamento intra-temático e o movimento de destaque como marca da diferença entre os conjuntos de pensamentos, ainda que seguissem ligados apenas por um mesmo fluxo de acontecimento na frase. Mas, na verdade, minha ansiedade apareceu por causa de um tique obsessivo que tenho.
Trabalho com revisão e com escrita de textos. No entanto, meus textos SEMPRE são publicados com algum erro. Faço isso obsessiva e intencionalmente, mas o propósito é uma estratégia do meu inconsciente. Criei o hábito de revisar textos escritos apenas depois de publixados, simplesmente porque fico empolgada demais e quero deixá-los ir ao mundo o quanto antes. Além disso, me conhecendo bem, sei que quando reviso demais um texto a ponto de ele sair perfeito, há grandes chances dele nunca conhecer os olhos do mundo. O processo de auto-revisão caminha de mãos dadas com todos os constrangimentos morais que impelem à interrupção da publixação. Acumulo textos perfeitos que, depois de um tempo, se tornam impublicáveis.
Do minuto que publico, faço rapidamente algumas revisões e encontro erros bobos, que seriam considerados motivo de vergonha para uma escritora e revisora. Mas esse é exatamente o ponto obsessivo. Crio formas de ter sempre alguma vergonha nos textos que publico, alimentando uma necessidade inarredável de ficar me culpando, posteriormente, por não ter corrigido. É o sistema clássico obsessivo de autopunição e vergonha. Crime e castigo.
Por isso, não consigo catalogar esses deslizes como erros, porque são praticamente uma parte obrigatória no tratamento de horror que dou a qualquer texto que tenha escrito. Entendo porque Kafka desejava que seus textos fossem queimados. Além disso, não é à toa que adoro usar o termo lacaniano publixação. Publicar é tratar o texto publicado como esse lixo que cai, na condição de resto, para o mundo. Como as fezes. É o pedacinho do nosso corpo que entregamos para outro usar como quiser, como faz a lagartixa quando solta o rabo.
No minuto que produzimos esse pequeno objeto e lançamos ao mundo, não temos mais controle algum do que será feito desse resto produzido pelo nosso corpo. Nossa liberdade depende disso. De qual pedaço de nós escolhemos ceder ao outro para nos alforriarmos. Enquanto os leitores lêem o texto escrito, o escritor ja partiu para outra coisa. Provavelmente, restará apenas o desencontro dos sentidos produzidos pelo texto, causando toda sorte de desconfortos e constrangimentos.
Publicar e ter essa relação de incômodo com o texto. Ele passa a condição de estranho-familiar. Os meus carregam esse tique de sempre arrastarem deslizes idiotas, dando consistência ao furo no meu narcisismo na escrita. As trocas de letras ou o posicionamento de vírgulas em lugares errados (quase sempre são esses os deslizes) demonstram a pressa na qual nascem as palavras, suscitando um martírio que perdura até o próximo texto. Não é burrice, nem desatenção, muito menos preguiça. É um sintoma obsessivo clássico, às avessas. É um jeito de ainda ficar ligada as fezes antes de entregá-las ao esgoto. (risos)
Coisa boa foi quando Lacan deu mais atenção para a lalíngua, que subverte as palavras fazendo outro uso das letras e das sonoridades que elas carregam. Ato falho não deixa de ser uma demanda de leitura pelo lugar de falha. O acerto de uma mensagem que sempre chega ao seu destino. Mas os equívocos de lalíngua não são do mesmo calibre que os atos falhos. Não se trata mais de um pedido de leitura endereçado a um outro. Esse sintoma quer alçar à categoria de estilo, portanto, é uma referrância do sujeito, de modo que apenas os corpos falantes são capazes de atribuir a referência de tradução.
Porque meu coração é selvagem e tenho pressa de viver.
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Erros. Em: www.alineaccioly.com.br
