O ensaio intitulado Sobre estar doente, de Virginia Woolf, escreve sobre o corpo e o inequívoco modo de tomá-lo como texto, para ser lido através do conceito de doença. O escrito nos guia por um caminho desertor das noções de saúde que configuram as leituras de corpos, seus estados e sintomas, indicando o descompasso atribuído ao pensamento científico dualista, como forma de ler os equívocos existenciais que permanentemente habitam um corpo deixando pistas de suas infinitas transformações. Um corpo do-ente é, sobretudo, um corpo falante de outras línguas, capaz de apreender sons, acontecimentos e palavras sem se deixar dominar por significados universais e dominantes. Portanto, estar do-ente é perder a falsa familiaridade com o mundo e recobrar o contato com um estranhamento incômodo e íntimo.
Virginia Woolf não estava preocupada em circunscrever um estatuto epistemológico para o adoecimento. Seu compromisso com as letras e suas funções referenciais se situa em um outro lugar. Sua escrita configura a doença como estado, uma transformação que descortina assombrosas terras desconhecidas. Esse território é, supostamente, ermo e deserto por que nos provoca um desenraizamento do que compreendemos como vida e saúde. Sua escrita nos orienta a construir um estatuto para o corpo, mas não através dos conceitos de saúde, beleza ou funcionalidade dos órgãos, mas toma como ponto de partida um corpo cujo estado de adoecimento o deforma a um estado de transparência por onde podemos espiar diretamente os mais variados modos como este mesmo corpo intervém nos estados de afetação e decisão de um sujeito. Portanto, Woolf revela que o corpo adoecido demonstra como é o corpo, afinal, a referência orientadora da existência de um sujeito.
Para nomear essa hipótese, Woof descreve o sujeito como uma criatura inseparável do corpo, sendo esta criatura a própria substância dessa passagem infindável de mudanças de estado. Temos, portanto, uma definição woolfiana para o sujeito. Trata-se, nada mais, do que uma criatura monstruosa, substância resultante de infindáveis deformações de estado afetivo e material. Tal constatação encurrala explicações universais sobre esse sujeito-corpo, pois tem, por efeito, uma solidão singular que deflagramos pelas guerras silenciosas e não registradas sobre as guerras e os dramas cotidianos que aí tomam forma, seja causada por uma febre, uma melancolia ou um calor. Habitar um corpo configura, portanto, um ato contínuo de coragem, um enfrentamento com interminável tarefa de compor sentidos, fabricar nomeações e historicizá-las para descrever tais acontecimentos de existência.
Sabendo que a linguagem, em qualquer língua, não será suficiente para escrever textos sobre as mais infinitas monstruosidades, por sua característica tão singular quanto cada esforço para costurar letras e criar formas em torno desse abismo desértico que deixa toda e qualquer língua seca, haveríamos, portanto, de cunhar palavras por conta própria, arrastando, com as mãos, a dor e o mais puro som que daí produz gritos, ruídos ininteligíveis, de modo que quando misturamos suas matérias, delas brotam palavras nunca antes faladas por aquele corpo. Woolf destaca não apenas a necessidade de liberdade de transformações com a língua sagrada e originária, mas, ainda, de uma nova hierarquia dos afetos, das paixões.
Sobre os sentidos das palavras e seu descompasso com um dizer que ali se esconde, a escritora destaca a experiência de assumir-se doente como a expressão da mudança de forma do mundo. Há, portanto, uma inversão na concepção de doença descrita por Woolf. Não é apenas o corpo doente que se percebe alterado, mas é o mundo e seus objetos que passam a ser estranhos, como se uma perda do referente partilhado produzisse um desconhecimento fissurado entre o corpo e seu entorno. Nessa condição, a deformação dos sentidos, por onde o corpo lê o mundo, promove o aparecimento de um novo tipo de estética, por onde percebe-se com maior evidência a beleza própria das coisas e dos lugares. Circunscrever esse estado de graça é, na verdade, uma tentativa de encontrar uma forma que transmita essa experiência que não se pode colocar em palavras, justamente pela perda do referente partilhado, próprio à experiência vivida.
Através dessa passagem entre estados de percepção de realidade, estar doente permite a perda de tempo para experimentar o sabor das distrações. O mundo, então, se torna uma superfície na qual existe sempre alguma pequena encantadora distração. Desde uma mancha na parede que parece nunca ter estado ali até ser percebida, até o som dos passarinhos escondidos entre muros de concreto na cidade. No campo dos afetos, ficamos mais próximos de sentimentos esquecidos na correria do dia-a-dia, como a franqueza pueril que permite dizer verdades confessadas que o estado de saúde cautelosamente esconde. Assim, é com o estado de doença que podemos conhecer nossa alma e prestar um pouco mais de atenção nos detalhes imperceptíveis das almas dos outros.
Tomei licença para trabalhar a noção de alma woolfiana através das transformações topológicas lacanianas. Quando Lacan aborda a topologia do toro, ele nomeia o primeiro furo do toro, produzido pelo movimento circular da pulsão de alma. Esta, por sua vez, precisa ser esvaziada para tornar-se superfície moebiana, transformação que converte o espaço imaginário do toro em superfície deslizável na banda de moebius. É por um pinçamento da linha de borda e depois meio giro de torção que temos uma falsa banda de moebius. Trata-se de uma falsa banda de moebius porque se esta for novamente inflada imaginariamente, revela o rápido retorno a sua forma anterior de toro. Notamos, nas primeiras teorias lacanianas sobre o toro e moebius, que alma se aproximaria ao espaço vazio (inflado ou esvaziado, a depender da operação em jogo) que sustenta os movimentos dessas figuras. No escrito de Woolf, tocamos com a poesia de suas palavras, a possibilidade de almar através da escrita topológica. Segundo Milner (2012), a alma do nó borromeano é lalingua que esta anima o corpo, que, por sua vez, é um modo de comunicação do impossível. Outro modo de escrever o vazio espacializado por uma estrutura que escreve a ausência.
Lalíngua é um significante inventado por Lacan para nomear uma língua singular de um sujeito. Ela é capturada através do efeito de ressonância que ela produz no corpo falante e que permanece à espera de ser lida e traduzida. Lalíngua é tão insubstancial como a noção comum de alma. No entanto, sua materialidade é sonora e ressoa no corpo falante. Ao desejarmos conhecer essa insubstancial propriedade singular do humano, que habita seu corpo mas não se localiza em órgão algum, estamos em posição privilegiada para notar uma não convergência desta não-substância entre as pessoas. Lalíngua não faz conjunto, pelo contrário. Como afirma Woolf, para cada ser humano há uma floresta intocada, onde não encontramos sequer pegadas de pássaros. Essa imensidão de solidão que habita cada corpo pode ser um indício da motivação humana em orientar-se pelo desejo de estar sempre acompanhado. A ânsia por comunidade esconde esse insuportável e radical estado de solidão inabitável, porém habitada, de cada um.
Quando o faz de conta da vida cotidiana cessa, no estado de doença, nos tornamos desertores da marcha da vida em comunidade, social. Passamos a experimentar a irresponsabilidade e o desinteresse ao qual somos capazes, estranhando a intimidade suposta nos laços da espécie e nos tornando mais familiar com a desconcertante ausência de comunicação da natureza. O céu se torna apenas um conjunto de cores, formas, movimentos e sensações que nada querem dizer. Os objetos fragmentados da cidade, como prédios, igrejas e ruas, são apenas pano de fundo para a encenação da vida humana. A chuva, o sol e as tempestades apenas preenchem o espaço de movimento. Tudo isso acontece à revelia de nosso esforço racionalista de tudo saber, conhecer e explicar. O mundo é uma incessante criação e destruição de formas que se descortinam infindávelmente, desperdiçando energia apenas para manter esse movimento durante anos e anos.
O que nomeamos como belo, a princípio, é nada mais do que o caráter impiedoso e incessante do mundo, com seus imensuráveis recursos de transformação sem propósito. Vivos ou mortos, atentos ou distraídos, o mundo continua a experimentar seu estado de transformações. Somos nós, a espécie humana, quem não nos familiarizarmos com nosso estado contínuo de transformação, estranhando aquilo que em nós é mais livre e descompromissado com qualquer demanda de existência ou necessidade de manutenção do conjunto referido à espécie.
Para Woolf, a poesia, a linguagem, as diferentes línguas servem apenas para fazer companhia aos humanos em sua insuperável e vasta floresta inexplorada e cheia de solidão. Os poetas realizam o incrível ato de sair dos seus estados de repouso, como se reconhecessem a morte ao deitar em seus travesseiros e, com isso, aprendem a não desviar da tarefa de ler o mundo através de suas letras. Seriam a leitura do mundo e sua escrita os atos de marcação do passa a passo de um corpo na floresta inabitada de cada um? Se os poetas conseguiram essa proeza, foi porque perderam o medo de criar uma intimidade com a indiferença das coisas do mundo para com a existência humana.
O desdém do universo com a existência humana se desenha cotidianamente como as ondas do mar, que se lançam pra frente, incansáveis. Quando toda a terra estiver transformada, não deixará de seguir triunfando com suas transformações a novos estados. Enquanto isso, nós, que, segundo Woolf, estamos presos no anzol da vida, nos debatemos com a imortalidade da universo atravessando nossos poros, sussurrando, na língua dos ventos, que nós fazemos parte dessa transformação e a imortalidade não é do corpo, mas dos rastros e restos de nós incorporados pelo mundo.
O fracasso da nossa esperança de imortalidade é, ao mesmo tempo, a conversão em um farfalhar dos ventos que suspiram esperança e serenidade. Estar doente promove um saber sobre a finitude do corpo. Sabendo-nos mortais, torna-se impossível desviar das decisões no trajeto de vida. Se não temos acesso ao infinito, somos impelidos ininterruptamente a decidir pelos caminhos. Os poetas aprenderam esse saber-fazer com as letras, usando suas línguas como depósito das incessantes escolhas e atribuição de formas possíveis para conceber o que chamamos de vida e existência. Eles sabem que não há como comandar todas as formas e domá-las com a razão ou a matemática. Esse discernimento, próprio dos poetas, os permite estar atentos para a chegada do próximo acontecimento desestruturante, deformativo, para capturar tal instante na língua até que a próxima deformidade permita realizar uma nova forma estruturante o suficiente até a próxima destruição. Para Woolf, os corpos doentes, por sua vez, absorvem o estado repentino de mudança que a doença impõe e com isso estão próximos ao saber dos doentes dos poetas. Ambos cessam de racionalizar o encanto emergido nesses estados alterados de existência e permitem que as palavras alcancem um estado de ascese onde parecem possuir uma qualidade mística.
Assim como Woolf, vamos recorrer aos poetas. Nossos poetas, no entanto, não são apenas os que escrevem poesias, mas esses assumidamente doentes da alma, monstros deformadores da língua, que buscam os divãs analíticos para deitar-se e experimentar essa posição outra. Deitados, onde o corpo produz espasmos e reações adversas e incontroláveis, suas línguas se impõem numa habitação do corpo. Nãotodos escutam esses sons e ruídos provocados pelo corpo, porque para ler um texto através da fala é preciso escutar também com o corpo, deixar-se atravessar pelo que de lalíngua ressoa em nossos corpos-caixas acústicas. Torna-se necessário alcançar o que está para além dos significados supostamente partilhados e se deixar guiar pelo som, pelas cores, por uma ênfase em uma palavra ou gesto, pela incompreensibilidade que o estado de doença exerce em nós ao furar os consistentes sentidos. Deixemos de lado a inteligência que tiraniza nossos catalogados cinco sentidos e empobrece nossa habilidade de ler línguas desconhecidas através de outros poros não catalogados.
Tornemo-nos, também, parte desse conjunto de elementos que são lidos como exceção em suas supostas categorias referenciais, composto pelos doentes, poetas, estrangeiros. Como estrangeiros, escutamos o que passa inaudível aos sentidos padronizados, através da reverberação do som e do ritmo do exigem a fundação de uma nova forma de utilizar o corpo e seus furos. Que seja possível arriscar conjecturas de tradução e fazer anotações à margem do esperado. Que sejamos, também, dominados por um estado febril que nos coloca em suspensão atmosférica, transformando a espera insuportável entre falas na aposta tranquila de uma surpresa ou da mesmidade que ali insiste. Pouco a pouco, nesses estados de alternância atenta, vamos nos habituando à presença desse corpo e da sonoridade de sua língua estranha a ponto de perceber nuances, diferenças, novidades, fazendo crescer um encanto diante de uma escrita falada incomparável com qualquer outra que já tenhamos pesquisado anteriormente.
Sabemos o quanto a indistinção de línguas reina na atualidade. As pessoas se regozijam de terem tornado-se uma única rede, um coro doutrinado e dócil a soar no mesmo tom e ritmo. Assim, retomar, diante dessa verborragia, o inconclusivo som que destoa pode ser escandalosamente conclusivo. Ajudar a fala a desmoronar as redes por onde a palavra se perde para reencontrar seu mar de ondas incessante liberdade pode ser uma estratégia de trabalho.
Entrar em contato com o monstruoso estranhamento que habita os corpos fora do seu estado de comunhão, familiaridade e normalidade social, implica em atravessar um estado de luto, construídos de atos de errância para com o tempo normativo de elaboração das perdas e, sobretudo, a desnaturalização das perdas. Tal problemática está presente nos impasses políticos dos feminismos, ao retomar que essas políticas não são referidas apenas em nome das mulheres, pois questionam, sobretudo, o conceito de gênero no qual a categoria mulher é construída. Segundo Carla Rodrigues, podemos reconhecer as performances de gênero e suas variações. No entanto, estas funcionam como um exercício de liberdade performativa social e defesa de direitos políticos, do que como identidades e produção de categorias de normalidade de gêneros.
Um sujeito que se reconhece na sua estranheza impossível de categorizar no coletivo, sempre terá problemas ao fazer conjunto com coletivos referidos a uma concepção estável de identidade. Assim, um sujeito que não se reconhece atraves dessas normas estará sempre em contato com um luto inerminável, recolhendo suas perdas impostas pelos sistema sexo-genero desestabilizador que ainda se sustenta por ontologias enfraquecidas diante da alteridade que sempre se configura com outras roupagens.
Desta forma, cabe aos corpos falantes, que se nomeiam e identificam através de categorias como homem e mulher, desconstruir sua ligação primordial e constitutiva com a alteridade, promovendo seu estado de luto nos modos como aprendeu a falar de si em categorias que se tornam estranhas ao próprio sujeito. Uma mulher estará sempre presa ao conceito categorizado de seu gênero, porque tal construção já é feita para condena-la a essa lugar binário. Por isso, o luto como experiência de despossessão trata do sujeito despossuído como esse que existe em estado de perda, que se sustenta exclusivamente pelo seu fazer em constante mutação. Viver em estado de despossessão é situar-se à margem dos sistemas regulares, viver em perda de si, já que esse si situa como o corpo é reconhecido e identificado pelo outro.
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Do-ente. Em: www.alineaccioly.com.br
