Bittersweet

Cara leitora,

Estava numa festa de rua quando encontrei um conhecido que lê todos os meus textos. Isso mesmo. Há pessoas que lêem todos os meus textos. Uau! Ele também escreve, mas ainda deve criar justificativas plausíveis para não escrever todos os dias, como eu passei anos fazendo. O fato é que naquele instante, quase vinte e duas horas de um sábado, me dei conta que havia esquecido de programar o post de hoje. Pânico! Andei para um lado, andei para o outro e decidi ir embora. Meu filho tinha pedido carona e eu havia pensado em levá-lo para seu compromisso e voltar para o meu. Mas depois de ter me lembrado da minha quase falha com o compromisso diário, voltei correndo para casa. Afinal, já são cinquenta e dois dias seguidos escrevendo e publicando. Não me perdoaria por esse deslize

O desvio de rota deste sábado veio pela necessidade de deixar meu consultório arrumadinho para um evento que iniciará semana que vem. E depois disso ainda tive que comprar um telefone novo porque o meu morreu. E depois disso ainda teve a festa de aniversário da colega que eu tinha quase esquecido. Eu escrevo tantos quase em tantos textos que só posso hipotetizar que eu vivo na beira. E não se trata de falta de planejamento. O cálculo neurótico é propositalmente para viver à beira. É um traço do meu nascimento, já escrevi sobre isso. É quase morta, mas sempre escolhendo viver. E agora, sempre escolhendo escrever. 

Tive um namorado que adorava palestrar sobre a minha beira. Dizia que eu ficava ao pé do muro entre a neurose e a psicose. Bom, escrevi um livro chamado Carta de a’muro e nunca publiquei. O dia que levei ele pra analista dar uma olhada, quase morri atropelada. Isso dá outro texto, outro dia. A brincadeira do título do livro não publicado veio de Jacques Lacan, que dizia que entre um homem e uma mulher havia um muro. O muro da linguagem. A’muro. Dai escrevi o livro contando todos os desencontros do amor por causa dos encontros com as fantasias. Talvez eu deva escrever sobre isso em outro texto. (Só nesse parágrafo já são duas ideias de textos).

A questão é que o amor, assim como a escrita, só experimentamos sem medo da loucura. Todos os poetas e escritoras sabem disso. Mas o homem, oh como ele é são! Normalzão. Guardião da sanidade nas partos dos hospícios das enlouquecidas mulheres que ousam nada querer saber do amor, mas vivê-los.

De toda forma hoje queria agradecer ao meu leitor diário. Foi por causa dele que acordei a tempo para a quase falha. Acho curioso como a maioria das pessoas são absolutamente desinteressantes e assim, do nada, há algumas que nos surpreendem. Por outro lado, algumas decepções são difíceis de colecionar.

Essa semana recebi um email muito difícil, de alguém que não consegue encontrar espaço de exercícios de liberdade através das minhas palavras. Meu estilo debochado, que transforma constrangimento em risos de medusa, não expressa desejo, acolhimento e abertura ao diálogo para algumas pessoas. Entendo, mas não deixo de ficar triste. Há estilo para todos os gostos. Eu gosto do amargo, mas há pessoas que preferem o doce. Se o estilo é o homem, como afirmou Jacques Lacan, complementaria hoje afirmando que para cada mulher, nãotodo homem. Para cada desejo, nãotoda satisfação. Para cada sonho, nãotoda realização. Ce sa. O doce não seria doce se não fosse o amargo. E, entre duas pessoas, há um muro. A’muro. É por isso que a gente escreve o amor. Mas eu só tenho Almor para oferecer.

Até breve, 

Al. 

Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Bittersweet. Em: www.alineaccioly.com.br

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