Espelho

Um dia me olhei no espelho e meus olhos pareciam não mais fazer parte daquele corpo que refletia no quadro espelhado do banheiro. Imperceptível, era como se os olhos me olhassem, como se eu e os olhos da imagem não fossemos mais um, mas distintos.

Os olhos que supostamente eram meus me encaravam, pretos, como quem olha de volta. Como uma resposta de presença no olhar firme que me fitava. Estou aqui, os olhos pareciam dizer. Eu tinha onze anos e essa experiência foi assustadora.

Decidi não mais me olhar no espelho e sempre que passava por algum, não encarava. Olhava sempre meio de lado, esquivada, apenas para ver os contornos, o corpo, mas não os olhos. 

Eu tinha apenas onze anos. Escrevi um monólogo sobre essa cena, para uma teste de teatro ao qual eu passaria. O dia que tive medo dos meus olhos. Re-encenei o medo e o texto escrito no palco e depois disso não me lembro mais o que aconteceu com o texto, com o medo, nem com os olhos. Só sei que passei a fazer teatro e algo encontrou lugar.

Como poderia estar tão amedrontada de encontrar meus olhos nos espelho, fitando-me, depois de tanto anos sentada na frente do espelho esperando justamente algum sinal?

Dos sete aos nove anos passei horas e dias sentada na frente do espelho enorme da minha avó, esperando. O espelho do banheiro que me olhou de volta era pequeno e cabia só o rosto. No da minha avó, era enorme e passível de enxergar o corpo todo em pé e sentado.

Eu nao sei como começou nem como permaneceu, mas sei como terminou. Fiquei anos sentada na frente daquele espelho arrumada, pronta pra partir, esperando. Esperando. Esperando. Até hoje não sei o que. Qualquer que fosse a espera, ela nunca se realizou, então eu tive que levantar e ir embora pra outra cidade.

Toda vez que voltava pra visitar minha avó, beijava o espelho e deixava nele marcas de batom pra registrar que eu não estava lá esperando. Mas voltava de vez em quando pra visitar. E, em algum momento, não voltei mais e o espelho é quem foi embora para outra casa desconhecida. 

Conjecturo, depois de mais velha, que esperava ver meu corpo crescer, esperava virar mulher. Esperava ver essa transformação acontecer primeiro no espelho pra ter certeza que estava acontecendo também no meu corpo. Como se precisasse ver primeiro no espelho, depois no corpo.

Me lembro, alegre e aterrorizada, de andar pra cima e pra baixo com o livro de anatomia feminina perguntando todo dia pra minha mãe se eu já tinha passado pra proxima figura. A folha figurava seis momentos do desenvolvimento feminino, e as alteraçoes se davam especialmente nas curvas do corpo, nos seios, nos pelos pubianos e na altura.

Passei meses perguntando pra minha mãe se eu já estava na proxima figura, ao que ela sempre respondia rindo que ainda não. Um dia, talvez sem paciencia depois de tantos dias respondendo sempre a mesma coisa, ela disse que não era assim tão rápido. Que as mulheres da nossa familia eram sempre as últimas, lentas, e que um dia teria mudado sem eu perceber. Que as vezes não chegaria a ser o que estava figurado ali.

Não satisfeita, eu mostrava pra ela a próxima figura da puberdade e antecipava que ja estava lá. Ela, ao contrario, dizia sempre que eu ainda estava uma figura atrás. Eu sempre achando que estava um passo a mais e ela sempre me dizendo que eu ainda estava um passo atrás.

Meu terror surgiu nesse desencontro. Angústia, medo. Como vou saber onde estou? Como vou saber ao certo? Como vou saber? Fiquei imersa nunca angústia sem lugar, sem referência, sem profundidade final e parei de perguntar. 

Eu ainda não sabia que a mulher que eu seria já estava em construção. Sua imagem não apareceria primeiro no espelho, mas no branco do papel à espera de escrita. No desenho da letra. No corpo do texto. Estava lá o tempo todo.

Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Espelho. Em: www.alineaccioly.com.br

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