Roupas envelhecem no armário?
Em um tempo distante, quando o mundo era mais mundo e tudo parecia uma brincadeira, comprei uma camisa. Não era qualquer camisa. Era uma camisa azul da cor do mar. Junto com ela vinha o desejo de procurar algum motivo novo pra sonhar, razão para viver depois de um divórcio traumático.
A camisa azul era tão bonita que eu gostava de economiza-la. Seu tecido era delicado e facilmente amarrotável, de forma que eu gostava de poupa-la do desgaste de ser muito lavada e passada. Diversas vezes deixei de usa-la porque ela era bonita demais para a ocasião ou formal demais para outras.
Tratava-se de uma bela camisa azul, uma roupa que veio pra sonhar, mas que parecia não caber no discurso estético do meu corpo naquele tempo. No armário ela ficou pendurada, esperando sua hora de brilhar.
Tempos depois, redescobrindo nuances da minha feminilidade, me preparava para participar de um evento de psicanálise. Era a primeira vez que leria um caso clínico escrito por mim em um evento de pessoas que eu cresci sonhando dialogar. Meu cabelo estava assimetricamente cortado na moda sapatão contemporânea, meu óculos rayban combinando com minha calça jeans perfeitamente ajustada no corpo e, naquele dia, senti que era a estréia da minha camisa azul.
O tecido leve e a costura delicada vestiram perfeitamente as curvas do meu corpo, permitindo o discreto toque feminino em um look marcadamente masculinizado. Me senti contraditoriamente confiante e amedrontada.
Estava arrumada para participar do evento e no meio daquela multidão de psicanalistas interessados na minha mesa, percebi a sala cheia e… tive uma crise de pânico. Nas minhas crises de pânico, tenho falta de ar, preciso correr para ficar sozinha e deitar em posição fetal, escutando música no fone de ouvido até esperar passar. Eu estava tentando ler um caso clínico pela primeira vez em uma sala cheia e tive uma crise de pânico.
Enquanto tentava me acalmar, lembrei que aquela não tinha sido a primeira vez que vestia minha camisa azul da cor do mar. Queria esquecer, mas havia vestido ela uma primeira vez tempos antes, em um evento de psicanálise na cidade que eu morava. O psicanalista que seria a atração daquele evento se dirigiu sorrindo em minha direção e, discretamente, sussurrou que eu estava muito bonita, muito parecida com a esposa dele. Disse, num tom afetivamente debochado, que aquela camisa realçava minha feminilidade e não aquela baboseira masculina que eu andava me ocupando de vestir. Sorriu e se afastou.
E foi assim que a camisa azul da cor do mar foi pendurada no armário, a espera de um corpo que estivesse preparado para se defender das pequenas violências discursivas que uma mulher sofre.
Olhando para todos aqueles psicanalistas desejosos de escutar minha apresentação sobre o caso clínico, eu e a camisa azul entramos em conflito. Era bonita demais, amarrotada demais, delicada demais pra servir ao seu propósito libertário e sonhador. Li o caso e peguei o primeiro avião com destino a meu pequeno e vazio apartamento de mulher divorciada. Não saí por meses. E a camisa azul ficou pendurada no armário esquecida entre as roupas de festa que nunca usamos mais de uma vez, mas guardamos achando que um dia elas serão usadas novamente.
Uma roupa sabe quando será usada pela última vez? Ela aproveita seu último dia de existência como roupa no corpo de quem a veste? Uma roupa envelhece, esquecida no guarda roupa, mesmo sem ser usada ou lavada? Um tecido perde suas fibras, rompe suas características de tecido, envelhecendo junto com o pó do armário?
Duas mudanças depois, redescobri a camisa azul no armário. Ela parecia… velha. Como uma roupa que não é usada envelhece? Sem saber como responder a essa pergunta, vesti a camisa e me dei conta que seus botões estavam frouxos. Ao abotoa-los, eles ficavam levemente caídos já que as linhas pareciam ter cedido de seus pontos e costuras. Meu corpo também ja não era mais o mesmo. Seios fartos e barriga saliente, a pandemia havia me feito engordar alguns quilos e ganhar algumas medidas. Não nos reconhecemos, eu e a camisa. Decidi dar uma chance pra ela e fomos trabalhar.
O desencontro perdurou ao longo de todo o dia. Das 8 da manhã as 9 da noite, entre pacientes e suas angústias, havia uma guerra silenciosa acontecendo entre meu corpo e a camisa azul. Esse mesmo azul, que antes parecia ser a cor mais quente, agora estava apagado, desajeitado, quase virando verde claro. Como pode uma roupa nao usada e não lavada desbotar sozinha no armário?
Pacientes indo e vindo e os botões insistiam em abrir, dois especificamente, frouxos, já não sabendo mais se comportar dentro da fazenda para o qual foram costurados. O tecido se esticava e acaba deixando à mostra pedaços da minha pele, me obrigando a ajeitar a camisa no corpo durante todo o dia, desconfortavelmente.
Voltei pra casa resmungando, compreendendo que aquele havia sido o último dia de insistência naquela roupa. Mas quando tirei a camisa azul do meu corpo, não consegui joga-la fora. Bateu uma tristeza. Afinal, como pode uma camisa envelhecer sozinha no guarda roupa? Como pode uma roupa ficar tao desencontrada de um corpo? Como pode um sonho não encontrar lugar para ser sonhado?
Não tem revolta não.
Me despedi da camisa, prometendo dedicar-lhe um texto sobre a história das roupas que tem vida própria e envelhecem sozinhas, enquanto ninguém vê. Ela vai embora encontrar um corpo que possa dar o destino de roupa que ela merece e eu tambem vou. Amanhã será um novo dia. Certamente seremos mais felizes.
Pós escrito – Barthes
Em Costume azul e colete amarelo, Barthes define ROUPA como um fragmento do discurso amoroso: Toda emoção suscitada ou conservada pela roupa que o sujeito usava no encontro amoroso, ou usa com intenção de seduzir o objeto amado.
A camisa azul conservava o desejo de inventar uma resposta para o que é ser uma mulher. Ela acabou ganhando a marca de uma violência, suturando o enigma.
Agora posso deixar a camisa cair. O corpo também. A fantasia envelhece e cai do armário. Ufa!
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Camisa azul. Em: www.alineaccioly.com.br
