Trapaça

Deixei vinte e dois textos programados. Talvez tenha sido uma trapaça a qual me dei conta nos últimos dias. Não deixei de escrever nenhum dia, cumpro meu combinado de escrever e publicar trezentos e sessenta e cinco textos em dois mil e vinte e quatro. Mas trapaceei quando decidi salvar alguns textos antigos do cemitério de textos ao qual eles estavam fadados.

Passei muitos anos da minha vida escrevendo. Quase todos desde que aprendi a escrever. Percebi, tardiamente, que um emaranhado de afetos sempre me impedia de publicá-los. De deixá-los serem lidos por outros olhos que não os de sua criadora e alguns poucos amigos e familiares. Em dois mil e vinte e dois decidi que jamais conseguiria publicar um texto antes de publicar todos os outros que já estavam prontos antes daquele. Como uma mãe com seus filhos, que gosta de ser justa com a quantidade de amor e dedicação que dá a cada filho mesmo sabendo que a incidência do tempo e da vida torna isso difícil. Foi com muito pesar, luto e trabalho de análise que decidi não mais voltar a todos os textos não publicados até determinada data, para salvar os novos textos recém nascidos. Criei um livro pra eles, que ainda está em desenvolvimento, chamado Cemitério de textos

No entanto, no final de fevereiro, retomei alguns desses textos, corpos mortos sendo enterrados por novas palavras – orações de velamento-, e senti que eles ainda respiravam. Senti que eles ainda não estavam prontos para serem cadáveres exumados do cemitério pela personagem investigadora de mistérios. Então, antes que eu pudesse me arrepender dessa pequena trapaça, programei-os aqui, nos últimos vinte e poucos dias. 

Acho que vocês sacaram que algo estava diferente. Alguns vieram me perguntar se havia mudado de estilo. Bom, agora a confissão está escrita, o delito perdoado. E retornamos a programação atual.

Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Trapaça. Em: www.alineaccioly.com.br

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