Amo as pessoas através das palavras que as dedico. Talvez seja uma inverdade dizer que as amo. Me corrijo: amo certos instantes transitórios que acontecem entre pessoas, ocasionalmente, e que são enquadrados, a posteriori, através das palavras. Momentos em que algum trabalho mútuo permitiu a co-habitação em um espaço que localiza o vão entre dois universos absolutamente estrangeiros.
Essas experiências são irreplicáveis. Por isso lançamo-nos ao reencontro, porque o trabalho no desencontro termina por re-lançar à escrita de novas transpassagens de afetos. De encontro a encontro, o que se escreve são movimentos de corpos falantes que investigam pontos de encontro para logo perderem-se novamente.
Em casa, mais tarde, sou impelida a escrever algo sobre o que sucedeu, como quem não quer esquecer e precisa guardar a sutil arte de amar. O amor é um trabalho de insistência e só dura o instante em que toma uma forma inovadora, surpreendendo aqueles envolvidos em sua arte. Logo depois, esses seres voltam a ser corpos desejantes e silenciosos até que venha a próxima fala.
Escrevo nossos encontros com as mais variadas formas que eles impõem. Coleciono esses momentos através dos meus escritos, mesmo quando alguns deles decidem não voltar nunca mais, assustados com a imensidão do abismo da linguagem que nos separa.
As palavras são feitas para nos separar através do seus sentidos universais, esse é o paradoxo. Se não escavamos o vazio que habita as palavras, morremos povoados e separados pela massificação de seus significados. Se convocamos o vazio, podemos caber no que inventamos nesse vão. A memória desse momento ficará para sempre depositada naquele instante de subversão da palavra. Escondemos-nos nesses buracos da linguagem e quando menos percebemos, costuramos frases através desse fio. Fazemos o trabalho inverso de Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Guardamo-nos escondidos através desse fio que dança na presença dessas ausências envelopadas pelas palavras.
Talvez por isso não amamos pessoas, consistentemente. Amamos os momentos subversivos em que fizemos esse pacto silencioso através do desejo de sobreviver nas frestas do tempo, nas hiâncias das letras, no fio da palavra. Para além de amantes, tecelões. Como Japim-soldado, pássaro melódico cujo timbre depende de repetição lenta, sem pressa. Mas seu tear é rápido, como uma máquina. Pássaro tecelão.
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Pássaro Tecelão. Em: www.alineaccioly.com.br
