Vinil

Cenário

O ambiente assemelha-se a um galpão grande e escuro que foi transformado em uma casa para pequenos shows underground. Para entrar no local é preciso atravessar uma pequena porta que não revela o ambiente interno, mas um pequeno corredor que leva a uma segunda porta. A curiosidade do cliente é instigada por esse jogo inicial entre portas, mas o que se avista na parte interna do galpão tem um efeito decepcionante.

O espaço escuro possui cerca de dez mesas com quatro cadeiras cada e, ao fundo, há um pequeno palco que comporta as bandas convidadas para cada noite. Caminhando em direção ao palco, observa-se, à esquerda, o bar decadente com poucas bebidas baratas, No fundo, encontra-se uma outra porta que leva a um espaço aberto e pequeno no qual os membros da banda e clientes podem fumar. 

Primeiro ato: A incidência do furo

Tudo parecia caminhar bem. Os quatro amigos estavam sentados enquanto a música da banda desconhecida rolava. A cerveja não era a preferida de nenhum dos quatro, mas estava gelada e o lugar parecia tranquilo. No intervalo da banda, o fumódromo ficou lotado não apenas de fumantes, mas de todos que precisavam tomar um ar. 

Me leia que eu gosto era o que se lia na camiseta favorita de Paula. Há pessoas que realmente lêem a frase e ficam interrogadas! Alguns não se seguram e perguntam o que ela escreve. Foi o que aconteceu com Alice, que tentava ler a frase escrita e quase fez Paula tropeçar na entrada do fumódromo. Alice perguntou o que Paula escrevia e ela respondeu animada, contando sobre seu último livro. 

Elas foram interrompidas por um ruído advindo de uma falação de dois homens que bebiam próximos às duas. Eles falavam barbaridades, piadas misóginas e toda sorte de machismos. Paula reclamou imediatamente, demonstrando aos dois que duas mulheres não perdem a capacidade auditiva quando estão conversando. Alice ficou sem graça e afirmou que um daqueles homens era seu marido. 

Desconcertada, Paula silenciou diante da discussão que ocupou o espaço, entre a mulher e seu marido. Ele debochava da frustração dela, que era estudante de filosofia e desejava escrever, mas “não fazia nada em casa o dia todo”. Ela afirmava estar deprimida e aprisionada nos cuidados dos dois filhos, ocupação que não permitiria a ninguém o tempo que a escrita exige. Sem perceber, Paula havia se tornado testemunha do desmoronamento de uma relação. Paralisada, assistia ao bombardeio daquele casal cuja guerra ela nem sabia existir a cinco minutos atrás. 

Alice recuperou o fôlego e, dirigindo-se a Paula, perguntou onde poderia ler seus escritos. Paula percebeu que era sua chance de sair daquela cena que não lhe pertencia. Entregou um papel com o endereço do seu site e tirou seu corpo daquele território. Mas já tinha notado um furo naquela imagem do desmoronamento.

Vocês já prestaram atenção nos pequenos furos de uma imagem? Incide como a morte de um pixel nas telas de celular ou televisão. Não importa a localização do furo – a partir do momento que surge, deforma a imagem. Por mais discreto que o furo seja, reconfigura a estrutura imagética e rouba a centralidade em torno do qual orbita o olhar e sua fuga. Transformada, toda a imagem torna-se palco para a existência daquele pequeno furo, menor do que a ponta de uma agulha. 

Segundo ato: Do furo ao abismo 

De volta a parte interna do Vinil, os quatro amigos decidiram dançar. Distraíram-se com as músicas da noite por alguns minutos. Paula entrou em transe com algum synth alternativo dos anos noventa e por isso prestou atenção na performance solitária da Dj. Ela bebia sua garrafa de cerveja e dançava sem prestar atenção no entorno. Era sua última noite de trabalho na cidade, pois estava de mudança para o Rio de Janeiro. 

Paula permaneceu algum tempo fascinada pela capacidade de isolamento e curtição daquela jovem mulher. A sua volta, absolutamente ninguém compartilhava de sua verdade na construção daquele instante. Cada um vivia suas mentiras sinceras, performances ideais aprisionadas nas suas próprias fantasias. A essa altura, o furo da imagem, que era do tamanho de uma agulha, alargou o suficiente para passar um dedo. O estatuto do rasgo mudou de furo para buraco. 

Um dos amigos de Paula ainda dançava na pista e pôde escutar seu sussurro, ao pé do ouvido. O sofrimento fora revelado: olha como as pessoas performam o tempo inteiro! – disse Paula a Otávio. Ela balbuciou mais algumas frases, mas Otávio parecia bem tranquilo ao habitar aquele espaço. Ele mesmo performava sua versão ideal, não havia tropeçado no desmoronamento, Paula concluiu. Rapidamente, a moça dirigiu-se ao caixa para pagar sua conta, porque a essa altura o rasgo já havia ficado no passado. O que a acompanhava, no meio daquela cena, deixava de ser um buraco. A mutação instantânea do vazio permitia entrever o princípio de um abismo que se alargava na velocidade das sombras. Paula urgia por uma saída, como quem sabe que tem pouco tempo antes de ser engolida pela ausência de sentido que ganhava corpo, crescendo voraz e sem face.

Terceiro ato: O abismo é um mundo inteiro

Do lado de fora do galpão, Paula inspirou o ar gelado da noite buscando forças para ir embora. Seus amigos costumavam fazer piada de suas saídas à francesa, por isso ela não foi bem sucedida em seu plano de fuga desta vez. Marcela flagrou a escapada da amiga e sentou-se com ela na calçada, interessada em no que havia tomado corpo quase imperceptivelmente naquele espaço de tempo que os quatro estavam juntos no rolê. 

Paula deixou as lágrimas caírem e tentou elaborar sua queda no abismo esgarçado daquela cena social. Marcela, Otávio e Douglas tentavam traduzir os afetos transmitidos por Paula, que afirmava ter se transformado no abismo da ausência de sentido daquele evento. 

Paula não tinha visto o abismo se abrir no meio da pista de dança. Ela havia se tornado aquela substância. Paula perguntava se os amigos não percebiam seus abismos: Cada um de nós habita um abismo. Quando revelado, somos pura queda –  ela dizia, convocando-os a um estado de pertencimento próprio da queda. Mas abismo tem substância? Vertigem.

O que Paula dizia era intraduzível. Havia uma distância, uma não relação possível. A roupagem do abismo reveste-o das mais variadas performances. Minutos antes Paula estava no Vinil, mas era o disco das pessoas que repetia, como todas as manhãs do personagem do Show de Truman. As pessoas falavam, brigavam, dançavam, mas estavam todas vivendo suas repetições programadas, imagens congeladas que tamponam os abismos de si em colapso. 

Paula falava com os amigos, sentava naquela calçada, porque urgia por uma última tentativa de encontrar diálogo entre abismos. Como estrangeiros em terra estranha, o sonho de Paula estava em construir estados de pertencimento momentâneos, bordas existenciais, laços temporários possíveis. Mas quando as pessoas se transformam em figuras chapadas – sem se dar conta da queda livre-, Paula tornava-se apenas uma espectadora da película de terror com pessoas mortas, sem que elas soubessem que estavam mortas, cadáveres sangrando. Ao fim, ela corria porque percebia seu próprio corpo tornando-se pura carne e ossos dissecados, anatomia de sua queda.

Ato final

Paula sabia que o abismo se abre nos lugares mais improváveis (ou prováveis): na balada, no encontro, na casa de um parente, na padaria. Sempre em transformação, esse abismo aumenta e estreita a depender da ocaisão*. Ora é um furo, ora um rasgo. O buraco do mundo inteiro é um abismo ordinário, comum. Independente de sua forma e variação de intensidade, está sempre presente como uma ausência intraduzível. Você não vê? 

Naquela calçada, chorando a estrangeirice mais radical da língua do seu abismo em território alienígena, Paula fechou os olhos por um segundo. Ela suspendeu a visão do nada, vi’nil, o horror desconexo de corpos falados, resíduos imagéticos sem vida, fantoches. Incorporou o silêncio, o vazio, o nada. Foi então que ela parou de fugir. Não tinha como escapar. Era única saída possível. Tornou-se ocaisão. Era seu próprio universo, afinal. Nele, Paula não viu alienígenas. Suspirou e deixou ressoar sua palavra final: Vinull

Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Vinil. Em: www.alineaccioly.com.br

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