É muito comum escutar de pessoas deprimidas que gostariam de dormir um sono longo de dias, semanas ou até meses. O sono vela o estado de despertar para a realidade. Mas o que é a realidade, senão uma fantasia de partilha universal dos acontecimentos diários das vidas individuais de milhares de pessoas? O estado promovido pelo sono é de um desligamento dessa fantasia vivida no despertar, devolvendo ao sujeito seu direito à manutenção narcísica, isolamento necessário para recuperar o fôlego do mar da coletividade.
O exercício de auto referenciamento promovido pelo sono nos remete diretamente ao nosso universo particular, todas as noites. Pela manhã, acordamos e voltamos a acreditar nos emaranhados da primeira pessoa do plural: fazemo-nos vários nós, trabalho cotidiano de articulação entre vários universos. Chamamos isso de vida. A do sujeito, a de alguém próximo, a da realidade universal suposta por muitos.
Em tempos de zolpidem, o tempo do sono tornou-se o tempo das pequenas mortes e alucinações. Algumas pessoas não sentem o desligamento promovido pelo estado de sono e com isso não são permeadas pelos efeitos corporais de descanso. Outras, desligam o funcionamento mental, mas seus corpos continuam em ação, desconectados. Tais fenômenos já produzem um certo estranhamento, para não dizer terrorismo. É nesse contexto que o documentário sobre a síndrome da resignação passou pela minha vida mês passado. “A vida em mim” mostra a história de algumas crianças refugiadas que sofrem da síndrome da resignação. Todas as crianças que apresentam sintomas dessa doença pertencem a famílias refugiadas da antiga União Soviética que atualmente residem na Suécia e aguardam o acolhimento da solicitação familiar de pedido de asilo. Em geral, esses pedidos têm sido recusados, causando terror nas famílias – que são obrigadas a retornar a seus territórios em guerra.
Essas crianças vão gradativamente tornando-se apáticas e deixam de funcionar bio-psico-socialmente até que se resumem a um estado vegetativo e sem resposta. Elas passam meses, até anos nesse estado. O serviço de saúde local desenvolveu um projeto imediato de cuidado, produzindo atividades de estímulo físico e emocional para que a criança consiga retornar após o choque traumático. Em geral, isso acontece depois que o estado de suspensão familiar é solucionado e a família consegue ter a garantia de asilo que as permite escapar do terror da guerra.
Como pode tamanho medo de deportação e estresse infantil resultar numa síndrome incapacitante e absolutamente emocional? Não só acontece, como tem se espalhado. Alguns cientistas já chamam essas crianças de As belas adormecidas da Suécia. A instalação do quadro crônica ocorre de maneira muito similar ao conto infantil. Um dia elas vão dormir e não acordam mais. Parece muito impactante que tenhamos chegado a esse ponto de insegurança social, produzindo estados de desligamento infantil em resposta a sofrimento sociais burocraticamente solucionáveis.
Diana e Mario Corso (Fadas no Divã) apresentaram uma interpretação para a importância da história da Bela Adormecida. Os psicanalistas afirmam que trata-se de um conto que elabora a passagem da infância para a adolescência, considerando o tempo de adolescer como um período de adormecimento e exílio. Ambos questionam: ” e se a questão do conto é evitar o crescimento e a sexualidade, que lugar é esse onde não se pode colocar o dedo?”
Aproveitando a problemática, podemos conjecturar que as crianças exiladas tornam-se um problema diplomático – um lugar onde ninguém pode colocar o dedo. Desterritorializadas, restam como corpos vulneráveis sem um estado garantidor de suas condições mínimas de vida. Já que não podem inventar soluções diante dos impasses políticos as quais estão passivamente reféns, apenas sofrem os efeitos desses impossíveis desligando-se à espera de um tempo de existência e elaboração possível. Interrompem, assim, o tempo de crescimento, impedem o amadurecimento e nesse sistema complexo de evitações, fazem-se de mortas, à espera de uma salvação que parece nunca chegar.
Resignadas, as crianças exiladas dormem o grande sono mantendo-se vivas, mas ausentes do mundo ao qual pertenciam e suspendendo o despertar do tempo futuro – que não se sabe mais se será possível – seu próprio futuro. Segundo o casal de psicanalistas, “o espaço geográfico que se habita na adolescência é típico de um exilado: um lugar que só existe porque é fora do outro”. Assim, as crianças resignadas em exílio forçado estão ausentes tais quais no tempo de adolescência No entanto, são forçadas a ocupar lugares e tempos que não são reinos de ninguém. Tornam-se, assim, invisíveis.
O esconderijo de seus sonos torna-se apenas mais uma das formas de passar dormindo por um período absolutamente inconcebível e insuportável. Elas escancaram que não há partilha. Nem no sono, muito menos na realidade. Até a ilusão coletiva fica perdida. Afinal, como continuar acreditando na realidade que chamamos de vida quando esta parece mais terrível do que o pior filme de terror?
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Bela adormecida. Em: www.alineaccioly.com.br
