Mercúrio Retrógrado

Quando Sigmund Freud dava seus primeiros passos no campo de invenção psicanalítica, costumava recomendar que os pacientes evitassem de tomar decisões importantes durante o curso da análise. Hoje isso soa impossível, beira o contra-analítico. Mas calma! Não vamos cometer o crime de avaliar uma situação fora de sua época histórica.

Na era originalmente freudiana, uma análise durava entre três a seis meses, pois era um tratamento intensivo que transcorria com um volume de cinco a sete sessões semanais (incluindo finais de semana!). Nessa intensidade, uma análise que durasse um ano já estava fora da curva, sendo considerada excessivamente demorada. Freud se preocupava com o alongamento do tratamento e chegou a escrever sobre isso no caso do Homem dos Lobos e no texto intitulado “Analise terminável e interminável”.

Portanto, a recomendação freudiana – de suspensão decisória e mudança de vida -, dentro desse contexto histórico, precisa ser articulada a outros elementos. O convite à suspensão traduzia-se como um convite para o desvio da urgência de resolução de um sofrimento na vida prática, alocando-o no trabalho de elaboração transferencial. Tal convite à experiência analítica permitira ao sujeito o exercício investigativo em torno das formações de seu sofrimento, possibilitando o desfazimento de alguns nós e a revelação da causa enigmática de sua formação sintomática. Após o exercício de leitura dessas operações inconscientes, o ser falante estaria apto para retornar-se à sua referência de realidade e decidir seus próximos passos no destino escriturado por este.

Hoje a psicanalise não é mais a mesma de seu início. Ainda que siga freudiana, não funciona com a mesma referência temporal recomendada pelo psicanalista. A mudança de durabilidade e intensidade adveio, dentre outras questões, de uma adaptação do tratamento à economia social vigente. Adaptamo-nos ao neoliberalismo e fragmentamos o tratamento em espaços semanais, alongando o tempo de saída de um sujeito nas construções transferenciais.

Essa alteração não seria um problema per se, mas termina por ser incorporada ao discurso (também neoliberal) de saúde mental, cuja orientação de normalização/adaptação de sujeitos ao laço social (e uma idéia de saúde) encerra por burocratizar a incidência do tratamento, universalizando-o. Afinal, quem disse que uma psicanálise funciona igual, semanal, ad infinutm, para todos os seres falantes?

Ao bater ponto uma vez por semana no consultório do analista, o sujeito marca como realizado seu compromisso na suposta prática de saúde mental, em conjunto com sua ida a academia e ao nutricionista. É, perdemos para o neoliberalismo. Mas a psicanálise nunca se pretendeu vencedora de nenhuma disputa social. Entramos na cena científica e médica avisados do mal estar da civilização. A psicanálise existe porque nasceu do berço de seu fracasso. Logo, uma analise é por estrutura cirúrgica, mas fica impedidada de adotar sua necessária economia quando efetua acordos de compromisso com algumas políticas sociais vigentes.

Sabemos da importância de um estatuto coletivo e social para o cidadão e as políticas públicas vem responder a essa demanda sem o qual não sobreviveríamos como indivíduos sociais. No entanto, a psicanálise é a peste, a filha maldita nascida desse campo que escolhe sempre pelo sujeito (e não pela civilização), preferindo seguir assassinando versões atualizadas de pais totêmicos (mesmo quando esses são de esquerda, rs), para não correr o risco de assassinar corpos falantes. Essa aposta é irremediável aos interessados por esse prática, produzindo urgências de trabalho que não necessariamente fazem acordo com os ideais de tratamento vigentes.

Mas não há apenas perdas. Há mudanças importantes que transformaram os modelos conservadores de alguns analistas. Nós, existências dissidentes, entramos com os dois pés nesse clubinho originalmente macho-branco-burguês e subvertemos as orientações e os destinos por onde caminham corpos falantes em metamorfose ambulante. A psicanálise contemporânea pertence um pouco mais aos estranhos, não-familiares. O drama edípico novelesco cede aos emaranhados artesanais inéditos e os sujeitos “analisados” se parecem cada vez menos entre si, provando que a cura é irreplicável, ainda que possua uma ética própria, metodologia e fundamentos. É justamente por esse aspecto que o incômodo diante das analises encaixotadamente semanais e longas causa vertigem. Mas aprendemos a gozar da privação, e ainda nos convencemos de que não mudamos essa realidade porque não podemos pagar pela mudança.

Toda essa reflexão transbordou enquanto pensava em Mercúrio retrógrado. Acho engraçado como vocês adoram sujar a psicanalise do sangue que habita o discurso psiquiátrico, que já matou mais do que guerras com sua prática manicomial. Prefiro brincar com os discursos que ousam ler os movimentos dos planetas e seus mistérios. Ao hipotetizar como o universos e seus movimentos produzem efeitos nos habitantes destes, estamos mais próximos dos enigmas da civilização do que imaginamos.

De acordo com algumas leituras astrológicas, Mercurio retrógrado é uma expressão que define um modo de leitura do movimento de um planeta em relação a outros dois elementos: o sol e a Terra. Nessa tríade especial, Mercúrio só é lido e traduzido como retrógrado para nos que habitamos a Terra. Esse fenômeno astrológico toma curso quando Mercurio orbita o sol mais rápido do que a Terra, produzindo a ilusão de retroação para nos, habitantes da terra. Percebam: para nós é Mercúrio que retroage. Mas na perspectiva de habitantes daquele planeta, somos nós que estamos rápidos demais. (Isso se considerarmos nosso apego a referência solar. Ao mudar essa centralidade, muda tudo).

A retroação é um dos princípios do ato analítico. Desaceleramos do ritmo das exigências sociais e retornamos aos pontos traumáticos da nossa vida para extrair deles os acontecimentos que não puderam ser lido na época de sua incidência traumática. Esse retorno nos permite desfazer emaranhados e seguir adiante. Na perspectiva lacaniana, da costura borromeana e topológica, retroagir é parte dos movimentos de trançamento – quando precisamos fazer cesuras e suturas em torno de traumas abertos, lembrando de não sufocá-los demais para impedir movimento flexível da estrutura do tecido que se fabrica.

Em tempos de neoliberalismo (é proibido parar!), o ideal é seguir sempre em frente e produzir a qualquer custo, independente de todos os outros elementos que orbitem e influenciam o curso de nossos passos. Talvez a astrologia seja mais acolhedora conosco do que a psiquiatria, porque nos traz de volta o direito de suspender a exigência superegóica do tempo capital. Afinal, há instantes da vida em que é preciso se movimentar de outras maneiras e intensidades. Não podemos esquecer, ainda, que precisamos até mesmo mudar de orientação e referência solar – porque a retroação é lida na perspetiva da terra. Pra Mercúrio, estamos apenas em outra velocidade e disso não precisamos temer. Basta ver o desenho do caminho que se deixa ler no final desses três giros em descompasso.

Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Mercúrio Retrógrado. Em: www.alineaccioly.com.br

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