Estranhos

No documentário “Três estranhos idênticos” conhecemos a história dos irmãos que foram separados após o nascimento e criados por famílias diferentes durante toda infância. Aos dezenove anos, dois deles se encontram na universidade e viralizam nos meios de comunicação, abrindo espaço para a descoberta de um terceiro irmão. Os três gêmeos idênticos passam a ser a sensação da mídia durante anos e sabem tirar proveito da feliz contingência. 

Unidos, moram juntos, trabalham juntos, tornam-se a família que não puderam ser no começo da vida. O apaixonamento triplo esconde, no entanto, suas abissais diferenças. Nesse intervalo temporal, as famílias investigam o começo dessa história de separação e descobrem que a agência de adoção separou-os propositalmente para fins de pesquisa. Quanto mais o documentário avança, somos apresentados à revelações escusas em torno dos objetivos de pesquisa das instituições responsáveis por essa história. Há suspeita de motivações nazistas como pano de fundo para a investigação dessas crianças e famílias judias, bem como a revelação de que diversas crianças foram separadas e tomadas como objeto dessa pesquisa. 

Terminamos o documentário com diversos incômodos sem destino. Lembrei-me imediatamente de um episódio do podcast intitulado “Lendas Urbanas” da Rádio Novelo Acontece, em que duas pesquisadoras investigam a história dos gêmeos de Cândido Godói. Há uma suspeita de que a cidade havia sido parte de um experimento nazista. As narrativas investigadas durante o episódio vislumbravam explicar porque há um alto índice de gêmeos nascendo naquela cidade. No final do episódio, as jornalistas concluem que não há dados suficientes para comprovar tais hipóteses, mas ficamos com os mesmos incômodos e insuficiências de respostas como no documentário. 

Cercados pelos mistérios genéticos, culturais e afetivos que costumam circundar as crianças gêmeas, lembrei ainda de outro documentário. “Diga quem sou” acompanha a história de dois gêmeos britânicos que enfrentam a amnésia de um deles, aos dezoito anos, após um acidente de moto. O irmão acidentado confia cegamente no irmão gêmeo para recriar sua história e as lacunas da memória perdida. O irmão não acidentado vê a oportunidade de criar um conto de fadas com seu irmão, escrevendo a memória de uma infância feliz que nunca tiveram.

Após a morte da mãe deles, quando ambos já tinham trinta e dois anos, o irmão finalmente revelou o grande segredo de família: eles haviam sido constantemente abusados pelos pais e uma rede de amigos da família durante toda infância. Ao decidir não contar sobre o trauma para o irmão sem memória, ele desejava salvá-lo do insuportável trauma vivido pelos dois e, ainda ter a oportunidade de viver com ela a fantasia familiar de uma vida sem os horrores compartilhados e cravados em cicatrizes corporais.

As três histórias reais mexeram comigo na vertigem da estranheza familiar. Mesmo que partilhem do código genético, da aparência biológica e dos trejeitos comportamentais, em todas as histórias há uma presença incômoda do estranhamento entre eles. O tom de mistério que culturalmente atribuímos às vidas de gêmeos não surge apenas de fantasias ficcionais. Nos surpreendemos com a possibilidade de realizar o mitológico encontro com a alma gêmea, a luz do mito de Aristófanes.

Em essência, o mito se passa num tempo muito antigo, quando éramos seres completos com duas cabeças, quatro braços e quatro pernas – unidos por um mesmo tronco. Esses seres completos eram felizes e podiam fazer tantas estripulias com suas potências corporais e estado de completude que decidiram mexer com os deuses. Zeus ordena que Apolo corte-os ao meio – em duas partes -, de forma que passamos, desde então, a procurar por nossas metades irreconhecíveis pelo mundo. A única pista que teríamos estaria no umbigo, ponto de sutura do corte realizado. (Em outra versão, seria o encaixe dos genitais que indicaria o encontro – mas é importante destacar que as partes não eram apenas de sexos distintos – o que deixa aberto um enigma).

No caso dos gêmeos, poderíamos fantasiar com a certeza de encontro com a “cara-metade”, pois a identificação do pedaço perdido estaria desenhada na imagem e semelhança do outro, como uma reflexão no espelho. No entanto, nada é similar e reflexível nesses corpos que crescem absolutamente distintos, mesmo que tenham sido criados pelos mesmos pais e compartilhado uma rotina.

Nunca saberemos os resultados dos estudos realizados pelo primeiro documentário, pois o sigilo dos documentos dura até o ano de dois mil e sessenta e seis. No entanto, não precisamos esperar tanto anos para concluir que quaisquer fantasias que sejam construídas em torno da experiencia gemelar caem por terra na travessia da vida. Os traumas, ainda que partilhados, são únicos e intransferíveis. As cicatrizes e memórias também.

No primeiro documentário, um dos três gêmeos comete suicídio e fissura o desconhecimento talhando em seu corpo um buraco através do tiro que deu em sua cabeça. Tal tragédia ganhou corpo após o afastamento de um dos irmãos da tríade – completude que não se sustenta com o passar dos anos. As pequenas e grandes diferenças que eles encontraram nunca foram ditas, foram mantidas em segredo pelos três. Ao final, nunca deixamos de ser estranhos, mesmo que seja para nossa imagem e semelhança… especular.

Em tempo: Gemêas Mórbida Semelhança é uma série da Prime que surgiu como um remake feminista do filme Twins, interpretado por Jeremy Iron. A série saiu melhor do que o filme e consegue nos apresentar o verdadeiro terror protagonizado por um casal de gêmeas incestuosas numa versão trágica do feminismo radical futurístico. A completude vivida entre as duas mulheres – irmãs gêmeas -, se torna insustentável para um delas. Ao tentar a separação, ambas caem em angústias profundas ao mesmo tempo em que suas invenções tecnológicas feministas caem no perigo de uma ética questionável, especialmente quando a liberdade é confundida, por elas, com a realização do desejo sem limite civilizatório, a qualquer custo.

O tom de terror tecnológico do filme faz jus ao estilo de ficção científica de outro filme, Crimes do Futuro. É sempre bom lembrar que o gênero de horror nos impacta porque realiza, em parte, nossos piores pesadelos, satisfazendo nossas fantasias mais impronunciáveis e, ao mesmo tempo, permitindo com que elas sigam apenas fantasias que escondemos de nós mesmos ao clarear o dia. Imagina ter que acordar todo dia, olhar para sua imagem fora do seu corpo e lembrar que a vida consegue ser mais estranha do que a ficção?

Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Estranhos. Em: www.alineaccioly.com.br

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