Subterrâneo

Lendo O romance luminoso, de Mario Levrero, roubei uma expressão que nomeia o que sinto assistindo a série Ripley (Netflix). A expressão é “incômodo subterrâneo”. Quando eu era criança, assistia a certos filmes de terror no estilo gore e adorava muito aquela espirração fake de sangue. Mas em filmes de suspense e horror psicológico, eu tinha que fechar os olhos na hora do êxtase das cenas, porque não conseguia olhar a satisfação dos personagens naquela cena. E não conseguia me autorizar a testemunhar a satisfação deles e sentir, com isso, satisfação também. (Escolha da neurose, diriam alguns analistas – rs)

Bom, Mario Levrero me deu a expressão para o que eu nomeava, até então, como gastura. É incômodo subterrâneo. A expressão ganha consistência ao ser atrelada à leitura de obras como O romance luminoso e Memórias do Subsolo. Já falei em outros textos sobre a gastura que dá ler a jornada do anti herói luminoso em escrever infalivelmente a não escrita do romance luminoso. No caso do homem do subsolo, trata-se de acompanhar detalhadamente a escrito do vexame, da vergonha, dos atos desprezíveis de um ser que existe apenas por teimosia e autopunição. Cada ato do homem do subsolo emaranha o sujeito mais ainda numa rede de expiação, humilhação e vergonha moral. Essa gastura é agora nomeada como incômodo subterrâneo. No caso dessas literaturas, no entanto, a gastura aparece porque testemunhamos os emarahados da neurose obsessiva em pleno acontecimento. São os homens dos ratos que amamos e não conseguimos abandonar até a última palavra de um escrito.

Como leitores, vamos nos emaranhando com esses seres que se arrastam como os ratos pelos esgotos da cidade, como sombras que restaram de uma vida escrita equivocadamente pelos não-atos covardes diante de situações de medo, angústia e mal estar. Quando percebi, já estava colada a cara, a máscara, como já escrevia Fernando Pessoa. O rateio do sujeito se escreve nesses textos confessionais, como no dia em que o esgoto transborda na banheiro porque entupiu e temos que colocar a mão na merda para desentupir. Devaneios. 

Em Ripley, por outro lado, acompanhamos a construção do personagem em sua jornada perversa. Torna-te quem tu é, nesse roteiro, é sobre a escrita da escolha pela perversão. Não, queride leitore, um perverso não é causado por uma perversão anterior no qual foi primeiro vítima. Essa leitura é uma lenda urbana teórica. A escolha pela perversão se confirma passo a passo, a cada decisão orientada para esse fim. Há momentos da série que é preciso pausar e fazer outra coisa, porque o incômodo subterrâneo transborda. Nesse caso, falo do fascínio neurótico em testemunhar os atos perversos – porque a neurose é uma decisão pela não autorização a “coragem” perversa. Ficamos enredados, no entanto, com um pouco de inveja (pela coragem), um pouco de ojeriza (pelo horror) e um pouco de curiosidade (pelo fascínio). Como pode uma pessoa pacientemente construi-se perversa? Bom, a série brilhantemente demonstra, passo a passo. E naquela clima de beleza noir, a beleza estupenda que é necessária pra suportarmos o gore a céu aberto de Tom Ripley. 

Esses dias um conhecido me perguntou se eu ja tinha conhecido um perverso, sem contar no consultório. Respondi que sim, infelizmente, mas chegaram pessoas e não conseguimos dar seguimento a conversa. Todos nós conhecemos perversos. Não há número majoritário de psicóticos, neuróticos, autistas ou perversos no mundo. E, apesar de associarmos a perversão a maldade, há maldade neurótica, há maldade psicótica e a maldade perversa. Há normalidade em todas as estruturas e há crises em todas elas também. Há perversos analisados, que constroém outros caminhos inventivos com seus desmentidos da castração. A questão, na série, é mostrar, passo a passo, como um perverso constitui-se como tal, autorizando-se ao crime, desmentido por desmentido. Eles não são mais inteligentes do que quaisquer outras estruturas. Eles simplesmente sabem fazer com o desmentido, eles sabem esperar o buraco do sujeito e da civilização se abrir na frente deles e apenas entrar, dando um passo em sua direção. De buraco a buraco, angústia em angústia, eles caminham. Simples assim.

Enquanto nas neuroses obsessivas nos tornamos ratos, afogados na vergonha moral e transbordando nossas vísceras para expiar nossas culpas pelo desejo amoral, os perversos andam pelas calçadas sorrindo, sem medo algum de suas imoralidades. Enquanto escrevemos textos confessionais, expiando nossos descaminhos e justificando cada desvio com teorias de dar orgulho a qualquer cientista, o perverso simplesmente segue andando em direção a sua satisfação, criando economicamente apenas as palavras que forem necessárias para o próximo cálculo. 

Ripley é um excelente trabalho de atuação de Andrew Scott, mesmo ator que fez o padre em Fleabag. Terminamos por nos satisfazer com o modo como o personagem transforma o tedioso mundo dos ricos em um caminho de sangue, ao estilo do protagonista de Saltburn. Nesse cruzamento, vale lembrar que o perverso clássico tem outro modo de manejar a sexualidade. Eles não são necessariamente heterossexuais, homossexuais ou qualquer referência estática do jogo sexual no qual nos debatemos, brigando por reconhecimento de gênero. Tom Ripley e Oliver Quick satisfazem-se no instante do visível embaraço dos sujeitos quando os olham, sabendo o que eles estão fazendo, mas sem coragem de dizer. – porque não conseguem saber o que fazer com isso (na neurose). Enquanto procuramos modos de nos livrar do horror em cena, Ripley, Quick e os perversos gozam exatamente nesse ponto. Na nossa angústia moral e covarde desvelada. 

É um jogo de suor, sangue e lágrimas. E muita beleza noir. Detalhe: o filme não é em P&B, mas P&P (Preto e prata). O detalhe sutil consegue inserir o brilho da perversão em cada frame, lembrando o que Freud dizia sobre a marca do brilho na orientação perversa. O fetiche é constituído por uma operação de deslizamento-deslocamento, no qual um traço do objeto desejado é localizado como esse sutil fragmento peculiar que brilha em outro objeto, instaurando o empréstimo que soluciona a satisfação perversa em outra cena. De brilho em brilho, o perverso preserva o fragmento que apenas ele reconhece, pois o brilho tem efeito de luminosidade apenas para o perverso, não é partilhado por seu entorno. É como Oliver Quick, em Saltburn, que lambe o ralo da banheira após o banho do amigo – dono da casa, porque o erótico demonstrado na cena não se trata do desejo predicado como homossexual, mas a satisfação em incorporar-se aos restos imorais que caem do corpo do outro e com estes reinar desmentindo a não-relação sexual. O fetiche preserva o resto caído do outro, elevando-o a categoria de valor do belo , a ser preservado custe o que custar. 

Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Subterrâneo. Em: www.alineaccioly.com.br

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