Sobre a sorte

Costumo ficar bastante irritada quando escuto homens brancos atribuindo à sorte o bom percurso de suas vidas. Não acredito na existência dessa sorte. A sorte branca e masculina, no Brasil, é, na verdade, um conjunto de privilégios operando incessantemente e silenciosamente nas estruturas sociais. Logo, meu incômodo com a pessoa que justifica parte do seu percurso através da sorte é porque deixa ressoar, na sua fala, uma ignorância acerca dos privilégios estruturais que suportam a sua “sorte” nada contingêncial. 

No texto passado, intitulado Vespeiro, contei um pouco sobre um episódio da Rádio Novelo e sobre a reflexão que construí após escutá-lo. Bom, o episódio quarenta e sete, intitulado “O visconde” trata sobre a questão iniciada no Vespeiro. Trata-se de uma família discutindo, em vários níveis e camadas geracionais, quais foram os privilégios que obtiveram por advirem de uma família escravocrata.

No final do episódio, frustradas com a resistência de alguns descendentes em liberar os documentos para acervos históricos, elas fazem a conta das suas posições hoje, em função dessa história. Uma delas afirma que a riqueza advinda da escravidão chegou a avó dela que, com o resto dos diamantes e objetos de prata, construiu uma casa para a família em Boston. Ela, neta desta senhora, não obteve nenhum privilegio financeiro direto, já que não restou herança. Mas ela reconhece que partiu de um lugar cultural e histórico de classe social que só foi possível graças aos anos e gerações que fizeram uso dessa herança escravocrata. Sua preocupação, ao final do episódio, era de contar essas história para seus filhos e netos, assumindo que o caminho deles não é pleno de sorte, mas é efeito, ainda que em parte, de anos e anos de usos de privilégios estruturais. 

Outra participante do podcast afirma enfaticamente que são elas, herdeiras diretas e indiretas desse passado escravocrata, quem devem pensar, elaborar, publicar e tomar responsabilidade pelos privilégios advindos, mesmo que não tenham diretamente recebido nenhuma herança financeira. Ela reconhece que são as pessoas brancas quem precisam se responsabilizar pelo racismo, bem como são os homens quem devem se responsabilizar pelo machismo, são os ricos que devem se responsabilizar pela disparidade econômica – independente de serem herdeiros diretos dessas estruturas e suas montagem. Essas economias de vida perduram, bem como seus privilégios, portanto nós somos os responsáveis por fazer usufruto dessas estruturas e mantê-las vivas. Com isso, é nossa função parar de nos manter na ignorância estrutural, ao atribuir nosso caminho à sorte. Essa expressão guarda apenas o silêncio dos vários privilégios que ficam invisíveis por essas pessoas em seus caminhos. 

Portanto, meu escrito de hoje é um pedido. Se você gosta de repetir que teve sorte no seu caminho, acho que chegou a hora de você sentar e fazer sua lição de casa. Substitui sorte – no seu conto sobre si – por um enigma. Escreve ai seus enigmas. Mas se não souber por onde começar, te ajudo: Quais foram os privilégios estruturais que operaram silenciosamente no seu caminho de vida dando a impressão, a você, que tratava-se de sorte? O quanto dessa “sorte” você continua usando sem querer dela saber? Como transformar as sortes futuras no seu caminho, sem que isso gere autopunições morais (a tal culpa branca/misógena/burguesa que não serve pra nada)? 

Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Sobre a sorte. Em: www.alineaccioly.com.br

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