Cena de escrita II

O exercício de hoje é sobre uma composição entre três trechos de três diários: Virginia Woolf, Maria Gabriela Llansol e Franz Kafka. Como acabei de fazer aniversário no mês de abril, fui buscar as entradas desse mês nos três diários. 

Em Maria Gabriela Llansol, nos registros entre março de 1979 e setembro de 1982, só encontrei um único registro efetuado no mês de abril. No dia nove de abril de 1981, Llansol registrou que ela e Augusto sentaram-se no jardim para conversar e concluíram que o pensamento não é o raciocínio, mas um feixe de reflexões, de sentimentos e visões que se encadeiam e abrem caminho. Gostar é simplesmente a faculdade de habitar prazerosamente um pensamento sobre algo. Quem não gosta do jardim é simplesmente porque não pensou-o. A reflexão parece intelectual, mas cessa no instante em que Llansol percebe que o mesmo jardim provoca-lhe dores nas costas. Eu ri nessa parte. Lembrei das constantes dores nas costas que sinto pontual e diariamente desde que comecei a escrever meu manuscrito doutoral e praticar as horas dedicadas a escrita diária. Llansol, no entanto, assume que as dores nas costas, advindas das horas de escrita, são tão necessárias como as plantas e os espaços vazios que habitam o jardim. Eu ainda tento me livrar das minhas, mantendo a escrita.

No dia onze de abril de 1915, Virgina Woolf registrou a impressão de uma página recém escrita. Ela compôs uma página em uma hora e quinze minutos, um record pessoal. Estava animada com o ritmo de escrita e com a possibilidade de finalização do livro em um mês. No mesmo dia, leu a carta de Harriet Weaver solicitando a publicação do novo romance de Joyce, já que nenhuma editora queria fazê-lo. Woolf não mostrava-se disposta a publicá-lo, mas queria sondar mais sobre o assunto. Ela registra, ainda, que seu artigo foi mais uma vez rejeitado pelo Times, mas parece pouco se importar, empolgada com a velocidade recém descoberta de escrita e com a percepção de que terminaria por produzir vários livros em enxurrada. Mostrava-se preocupada com a montagem da nova máquina de impressão, porque estava sem eletricidade e sem compositor, o que atrapalharia o instante de fazer valer os direitos editoriais das obras. Pensei em quantos textos meus já foram recusados em revistas e capítulos de livros. Esse abandono, que eventualmente acontece, para os escritores, de certos formatos que parecem não ser bem aceitos pela comunidade jornalística, científica e editorial, que impõe a necessidade de construirmos nossa própria editora para publicar os textos impublicáveis nessa lógica universal. Quanto a isso, nada mudou desde 1915. É quase uma editora para cada livro, atualmente. 

Em nove de abril de 1915, Franz Kafka registra uma breve nota em seu diário acerca dos tormentos enfrentados para dormir, a noite. Tem se dedicado ao trabalho nas madrugadas, de forma que a falta de sono parecia não ser o problema para o escritor. O tormento registrado é de um barulho que o impediu de dormir, mas também de trabalhar, de escrever, de absolutamente tudo. Sua incapacidade de escrever uma só linha diante do barulho externo tirava sua satisfação de habitar seu quarto, tão vazio quanto uma concha na praia que espera ser esmagada por um pisão. A capacidade kafkiana de transformar vazio e perturbação em texto é admirável. Qualquer turbilhão de inquietude interna é motor para a escrita incessante do escritor. No entanto, qualquer perturbação externa que produza descontinuidade no transe melancólico da escrita do vazio é mortífera e atormentadora. 

A vida é esse instante, breve. Três registros, três épocas separadas pelo calendário, três anotações insignificantes sobre os processos de escrita de escritores absurdamente distintos. Gosto do exercícios de recorrer as palavras vivas de corpos mortos para não perder o fio da escrita. Me faz lembrar que apenas o tempo separa a estrela já morta da luz que ainda parece viva aos nossos olhos no céu. É porque temos fé na morte que podemos viver cada dia com a mesmo urgência de quem tem sede e conta com cada gota d’água.

Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Cena de escrita II. Em: www.alineaccioly.com.br

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