Queria escrever um livro pequeno que fosse como um mergulho no mar. O livro teria a duração desse mergulho. Na primeira linha, escreveria como quem salta em direção a água. A última linha seria como o retorno do corpo à superfície, localizada no respiro que leva o ar novamente a encolher os pulmões. O meio do livro seria todo tipo de ação que se desenrola desde sua primeira aparição, como aquela coragem meio covarde de quem vê uma onda enorme avançando e sabe que não vai conseguir pular ou passar por cima dela. Então, diante desse impossível, o livro acontece, furando a onda, deixando-à atravessar por cima enquanto o corpo atravessa submerso e absorto em água por todos os lados, segurando o ar para tapar os orifícios respiratórios e retornar à superfície, com todo o risco que existe nessa manobra nada radical, mas muito aventureira. Seria um livro oceânico, mesmo que praiano, escrito por uma alma desértica por natureza. Gotas, grãos e ventos.
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Nota sobre um mergulho. Em: www.alineaccioly.com.br
