Sempre que me perguntam a importância da Madonna na minha vida, me remeto exatamente às minhas primeiras experiências de masturbação com motivação externa. Sim, minhas primeiras siriricas provocadas por uma imagem erótica aconteceram por causa da Madonna em The Girlie Show. No Brasil o Show passou no ano de 1993 e eu tinha exatos 11 anos. Não tínhamos internet, computador, celular, muito menos educação sexual pra entender como era lidar com um corpo de menina, muito menos pra entender o que era gostar de outras meninas. Eu continuei muitos anos sem conseguir nomear as coisas, mas o corpo encontrou acolhimento no modo como aquela mulher lidava com as coisas dos corpos femininos e dos corpos afeminados.
Mais tarde, uma das experiencias mais emocionantes de final de análise que tive o privilegio de trabalhar, foi produzida por uma saída de analise de um homem adulto e gay que autorizou-se a Express himself no mundo, remetido a Madonna e importância de sair dos armários abertos pela cantora desde os anos oitenta. Ter alguém que segue lutando pelos LGBTQIA+ e consegue nos ter vontade e coragem de seguir vivendo é, ainda, muito importante. Não menos do que qualquer luta pelos direitos de minorias.
Chorei pelos queridos perdidos para a AIDS, chorei pela homenagem aos brasileiros, chorei porque o tempo de carreira da Madonna é quase a minha idade e só eu sei o que já passei nessas quatro décadas em um mundo cuja estrutura heteronormativa não dá descanso. Como muitos, fui deprimida, quis morrer, não encontrei lugar. Entrei na norma, entreguei ao social o casamento, os filhos, a independência financeira e como a maioria que vive essa realidade, nunca coube. O meu mundo sempre foi outro. Por isso, emociona assistir a uma celebração desse calibre em Copacabana, depois de bolsonarismo, da pandemia e tantos de nós mortos pela estrutura que não cede de seus privilégios.
Adoro meus amigos heteros, mas me canso de explicar para eles porque não gosto de ir em lugares majoritariamente heteros. Eles não enxergam a constante violência silenciosa que esta embutida nas performances da heterossexualidade. Está presente na cerveja gostosa que a gente toma, na banda divertida que toca no palco, do minuto que você entra ao minuto que você sai. Minhas queridas amigas heteras, que eu amo de paixão, falam de macho o tempo todo e não percebem o quanto elas ficam submetidas a essa estrutura falida. A mensagem é sempre a mesma, ensurdecedora: não cabemos nas conversas, não somos nem vistos nessa diferença. E quando os levamos para os nossos espaços, eles se sentem invisíveis, estranhos, não vistos, mas não problematizam isso, apenas não voltam mais. E nem precisamos ir tão longe, isso acontece até entre gays e lésbicas, já que o mercado das minorias foi amplamente ocupado por Gs antes de Ls. Quiça as Ts.
De toda forma, não é uma disputa de poder ou de lógica majoritária que estou escrevendo aqui. É sobre a cegueira do mundo padronizado para algo que, no sábado, gritou por duas horas na maior rede de televisão brasileira. Bom, vocês se incomodaram? É, vocês tem o privilegio de “só” ficar incomodados por duas horas. Muitos de nós vivem essa dor a vida inteira.
Que dias bons para ser uma pessoa LGBT. Assim a gente respira e ganha esperança para seguir lutando contra os horrores climáticos do Sul, contra horrores religiosos acontecendo em terras estrangeiras, contra todos os horrores que nos assolam na humanidade. Hoje, a gente pode acordar ao som de Unholy e Like a Prayer e sentir um quentinho no coração enquanto segue como um grão de areia na estrutura intacta e heteronormativa. Mas agora o grão de areia se sabe pertencente a um milhão e meio de outros grãos na praia de Copacabana.
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Madonna. Em: www.alineaccioly.com.br
