All of us strangers

Hoje acordei desassossegada, como quem perdeu a intimidade com as coisas da rotina. Fui em busca do meu grande mestre do desassossego, Fernando Pessoa. Na nota 226 do Livro do Desassossego encontrei:

Com que luxúria e transcendente eu, às vezes, passeando de noite nas ruas da cidade e fitando, de dentro da alma, as linhas dos edifícios, as diferenças das construções, as minunciosidades da sua arquitetura, a luz em algumas janelas, os vasos com plantas fazendo irregularidades nas sacadas – contemplando tudo isso, dizia, com que gozo de intuição me subia aos lábios da consciência este grito de redenção: mas nada disto é real! (p. 227 da edição da Cia das letras)

A primeira coisa que aprendi a ser na vida foi leitora. Talvez seja minha grande coisa por excelência. Ler o mundo, ler as pessoas, ler os buracos imperceptíveis, as irregularidades da cena cotidiana. Se Paul Preciado consegue escutar, do seu apartamento, o Som do mundo desmoronando, eu, por minha volta, consigo ler as linhas da vida, as minúcias das construções da realidade e contemplar a fantasia que as sustenta, inclusive a minha própria como leitora. E nada disso é real, e tudo isso é tão verdadeiro como o desassossego escrito por Pessoa. 

Ler é, sobretudo, perder a intimidade com a realidade partilhada e desassossegar-se com as formas que as coisas tomam – único indicio de que a tal realidade é nada mais do que uma construção incessante de estruturas. Talvez seja uma posição um tanto melancólica e chegando a essa conclusão, lembro ter assistido ao filme All of us Strangers, ontem a noite. O filme é baseado em um livro de Taichi Yamada, Strangers.

O livro é sobre a historia de um escritor de televisão que se divorcia e muda-se sozinho para um apartamento pequeno, onde enfrenta o reencontro com todos os mortos de sua família e os conselhos que escutou e moldaram sua vida. Não seja um estranho, dizia sua mãe desde que ele era um pequeno garoto assustado. Para não ser estranho, chegou a meia idade mais solitário do que nunca.

Enquanto o livro foca na solidão, que só os japoneses sabem abordar brilhantemente e com uma autoridade invejável a qualquer ocidental solitário, o filme – que estréia com dois maravilhosos atores irlandeses (Paul Mescal e Andrew Scott) -concentra sua narrativa em um único dia na vida de um roteirista solitário, de quarenta anos, morando num belo arranha céu londrino. Um outro estranho bate em sua porta num convite aparentemente irrecusável de partilha da solidão por uma noite. Assim, somos apresentados ao drama do protagonista, durante a noite que leva para tomar coragem de aceitar o convite do estranho e abandonar o caminho familiar normal e solitário por uma via estranha entre estranhos. 

Releio, portanto, meu desassossego de outra perspectiva. Sábado vivemos o espatáculo do show da Madonna em Copacabana, o abraço apertado de um milhão e seiscentos estranhos reunidos numa festa que já se tornou inesquecível para todos nós. Domingo assisto All of us Strangers e lembro o quão solitária é a vida de estranhos quando estão enfrentando as dificuldades cotidianas da vida em comunidade. E segunda, ao retornar ao trabalho, me lembro do desassossego que permanece e irrompe ao ler a realidade como uma fantasia partilhada, construída, feita para manter estranhos na categoria de estranhos, ainda que em uma maioria festiva e alegre num sábado carioca.

All of us, strangers, sabemos que nada disso é real. Mas cometemos a luxúria de caminhar por entre essas estruturas e até apreciá-las, tão minuciosamente arquitetadas para nos aprisionar com muito conforto e belas vistas. Contemplamos essa bela realidade, como o estranho do filme contempla o arranha céu londrino que figura sua solidão. Ele, do outro lado por onde seu corpo olha o mundo e nós aqui tomando coragem para deixar o outro estranho que bate a porta entrar.

A imagem que bate a porta figura a vida que ainda não tivemos. A que está por vir. Na fantasia, na realidade ou no desejo que se ocupa de escrevê-la, abrindo a porta.

Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) All of us strangers. Em: www.alineaccioly.com.br

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