Desde criança, tenho um sonho recorrente a que nomeei como “O sonho d’a casa do morrão”. Após tantos anos, o que restou dele foram algumas imagens e sensações. O sonho tem como cenário a casa do morrão. Acontece, sobretudo, na sala desta casa, que fica entre a porta de saída e a estrutura que leva para o banheiro, a cozinha e o único quarto da casa. Essa casa foi uma das mais importantes dentre diversas outras que vivi durante minha primeira infância. Era uma casa muito pequena e muito quente, pois era a última de uma vila de casas em Duque de Caxias, Rio de Janeiro e, por sua localização, situava-se colada ao muro final da vila, cuja parte externa estava muito próxima de um terreno baldio onde as pessoas do bairro jogavam todo tipo de lixo e restos não recolhidos, muito comum em periferias.
Muitos fragmentos dessa época de residência no morrão atravessam meus sonhos ainda hoje, recorrentemente, por se tratarem de pedaços, restos descolados de uma realidade vivida e compartilhada com meus pais e vizinhos. Nessa casa eu sonhava muito, em uma época que ainda não sabia diferenciar os sonhos noturnos dos devaneios de vigília. Apenas muitos e muitos anos depois que descobri com Freud e Lacan que a realidade não passa de um sonho, estejamos dormindo ou devaneando acordados. Os sonhadores se cruzam pelos caminhos da vida suspeitando de suas próprias realidades e buscando uns nos outros referencias que determinariam qual é a realidade partilhada entre todos eles. Por isso, quero logo avisar a você leitor, que essa realidade partilhada não existe, apenas como ficção. Existem quantas realidades possíveis tais quais existem tantos sonhadores habitando esse mundo enquanto você lê fragmentos da minha versão sonhadora de existência.
Na casa do morrão eu sonhava muito, dormindo e acordada. E também tinha muitos aterrorizantes pesadelos, nas mesmas condições dos sonhos. As vezes não sabia catalogar se o gênero era sonho ou pesadelo, devido a tenuidade e sutileza dessas produções: aterrorizantes e oníricas, simultaneamente. Em um desses fragmentos noturnos, bruxas sobrevoavam o único quarto da casa, enquanto meus pais dormiam, me esperando adormecer para me levar. Elas tinham vindo de longe me buscar. Eu não era daquele mundo. Eu pulava para a cama dos meus pais, como medo de ser levada, e ficava com olhos arregalados olhando elas voavam circularmente no teto do quarto, na expectativa de que percebessem que eu não fecharia meus olhos aquela noite e elas teriam que me buscar outro dia.
Em outro fragmento diurno, que acontecia também em incontáveis dias, eu estava presa, junto com a minha mãe, em cima do sofá da sala, ou em cima da cama no quarto, esperando alguém chegar para nos salvar. O perigo eram camaleões que, apesar de trocar de cor para se esconder no ambiente, as vezes se deixavam ver e minha mãe, que tem fobia de animais, gritava incessantemente, paralisada de terror, até que alguém viesse nos salvar. Em alguns dias, ficávamos ali por horas e ainda sinto o calor, sem brisa, do bafo quente do verão fluminense derretendo meu corpo em suor e lágrimas enquanto parecia que ninguém viria nos salvar de um perigo que eu mesma não entendia, mas enxergava nos olhos e escutava nos gritos de minha mãe.
Eu poderia passar páginas contando desses fragmentos aterrorizantes que se sucediam durante o dia e durante a noite, alternadamente. A alternância, no entanto, era apenas temporal e cronológica, pois, fosse dia ou fosse noite, certo traço de terror estava sempre presente na casa, transpassando meu corpo e minha existência mirim. Assim, deste período infantil da minha vida, decidi demarca-lo através do sonho mais recorrente de todos, que até hoje se presentifica de alguma forma nos meus pensamentos.
O sonho do morrão acontece em primeira pessoa, como nos jogos de vídeo game em que você está no corpo do personagem e por isso se sente imerso na jogabilidade da cena, ainda que, para isso, perca uma visão de si. Logo, você sabe que existe na composição da cena a qual está inserida, pois o alcance do seu olhar, através do ponto de vista da personagem, circunscreve o espaço na qual este corpo habita.
No cenário da casa do morrão, eu atravesso a sala, do corredor em direção à porta, enquanto a casa está em chamas. Olho para trás, antes de sair, e vejo o vídeo cassete (K7) com uma caveira em cima. Esse objeto, um crânio, acrescenta um tom macabro à cena. É a ultima coisa que vejo antes de sair pela porta da casa, que pega fogo. Não há sobreviventes, segundo uma espécie de narração onírica como final de sonho. Toda vez que acordo desse sonhos, fico com um enxame de perguntas: se não há sobreviventes, como eu sai da cena? Se não há sobreviventes, aquele crânio infantil e cima do cassete era meu? Se eram meus restos mortais, como me vi de fora? Se havia apenas um crânio, onde estavam os corpos dos outros moradores da casa? Quem colocou fogo na casa? Por que tenho esse sonho e a lembrança recorrente de tê-lo por quarenta anos?
Sentindo a vertigem, como quem está embebida de tantas questões, conjecturo que o sonho da casa do morrão me indica uma chave de leitura para abrir portas que passei a infância inteira cega, surda e muda, não querendo saber. A palavra morrão indica colina, morro alto, íngreme, apelidado por nós (eu e meus pais) porque a linha de ônibus terminava no ponto de início do morro, como se os limites da cidade urbana terminasse ali. Para chegar em casa, tínhamos que nos aventurar a subir um morro de terra (e barro, quando chovia) longo e íngreme, que a cada passo parecia ganhar profundidade e ficar cada vez mais alto e esburacado. Depois de finalmente chegar no pico dele, ainda era preciso subir mais alguns níveis de rampa para chegar na última casa da vila. Estávamos para além do fim do mundo, depois ainda de onde Judas perdeu as botas. Lá, nem vento chegava.
Morrão, no entanto, nomeia pra mim, no equívoco sonoro, uma primeira marca de uma espécie de origem e destino funesto, referido o verbo morrer, conjugado na terceira pessoa do plural do presente do subjuntivo e terceira pessoa do plural do imperativo do verbo. No português brasileiro, o subjuntivo é um modo verbal que não expressa certeza e sim uma dúvida e/ou desejo e/ou ainda uma situação hipotética. Morram cerne a voz imperativa social quente e categórica, determinante, como deve ser a sensação ardida do habitantes advindos e destinados à ancestralidade do fogo do inferno; cerne, ainda, meu próprio desejo hipotético de matar tudo e todos naquela miséria de existência relegada ao espaço de sobrevivência extramuros da cidade, incluindo a minha própria existência. Mas, não só isso. Morrão funcionando como substantivo, circunscreve um pedaço de corda que, quando aceso na extremidade, comunica fogo às peças de artilharia. Em outros termos, é o pavio que, embebido de álcool, ateia fogo.
Levei quarenta anos para começar a ler tantas possibilidades coabitando à casa do morrão. Infelizmente, no momento em que comecei a me constituir como gente, naquele território, ficava apenas a ausência de qualquer sentido e o terror de um corpo que derretia de suor e lágrimas, terror e resistência, ódio e culpa, num calor de mais de quarenta graus. Estava longe demais da cidade para receber qualquer tipo de socorro, se necessário. E, apesar de constantemente sonhar em ser buscada, mantinha os olhos abertos o quanto fosse possível para não ser levada pelos únicos seres mitológicos que vinham toda noite me buscar: as bruxas. Elas, que mais tarde fui descobrir, era o próprio morrão, pois incendiavam o mundo com seus feitiços, mas também as cinzas queimadas por esses incêndios, hereges.
Talvez por isso eu tenha perdido essa chave de leitura, por tantos anos. Talvez por isso eu tenha escondido minha raiva da pobreza com tantos anos de autopunição e culpa. Talvez por isso eu finalmente entenda porque o vento, por tantas vezes, beijou meu rosto e me salvou da carne que queimava à beira da sacada, fitando o chão quente de concreto lá embaixo.
E o crânio, em cima do cassete? O grande mistério do sonho, afinal. Estaria eu com medo do meu luto infantil ou dos lutos infinitos das mulheres ancestrais que perderam suas cabeças em cima de cacetes? Uma letra muda tudo. Mas essa chave abre outros textos por vir.
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) A casa do morrão. Em: www.alineaccioly.com.br
