Privada

Privada foi o nome do meu primeiro texto escrito na infância. Não foi salvo, como as recordações preferidas que minha mãe guardou.

Eu gostava de ler livros sobre as histórias e aventuras do objetos. Memórias de um cabo de vassoura, Como se fazem os livros, títulos de livros cujos enredos abordavam a transformação dos objetos, suas aventuras e desventuras. Então, decidi contar a história da privada, a coitada esburacada que tinha que engolir todo tipo de resto e dejeto sem poder falar, muito menos contestar. Eu tinha uma relação muito especial e de respeito com a privada da minha casa, meu trono, mas também tinha muito nojo das privadas alheias. Então, construí o que me lembro ser meu primeiro ritual. Pra fazer cocô eu precisava ficar totalmente nua, prender os cabelos e sentar na privada extremamente limpa. Pra mim, funcionava como uma relação de respeito a tudo que ela tinha que engolir. Respeitava também meu corpo, que estava limpo e pronto para entregar o presentinho. A pele mantinha-se intocada até dos próprios cabelos, amarrados, para prestar aquela homenagem ritualística ao nosso encontro forçado pela via dos dejetos e seus buracos.

Depois, eu chamava minha avó para me limpar e tinha que tomar banho e vê-la limpando a privada. Esse ritual não entrou pra minha primeira redação, mas na história sobre a passividade forçada da privada, eu contava como tinha empatia por um objeto que era forçado a engolir, a qualquer gosto, todas as merdas de todas as pessoas, dentre outros detritos. Me lembro o efeito que teve elevar a privada à dignidade por ela perdida, especialmente no dia que testemunhei minha avó enfiando a mão no ralo, atrás de um anel que perdi. Nesse dia, descobri a quantidade de nojeira que ficava depositava nos canos do esgoto da casa. Foi como se um universo inteiro de horror tivesse se apresentado na minha frente. Era como se eu tivesse acesso à face oculta da privada, o portal para outro universo, iniciado através de sua boca aberta atemporalmente.

Eu nunca tinha me dado conta da existência de todo esse corpo-encanamento-esgoto ao qual ela era ligada. Era um buraco sem fim! Depois de descobrir que o anel saiu inteiro no esgoto, após ser engolido pela privada e passar pelos encanamentos escondidos da casa, passei a olhar meu cocô com atenção. Algumas vezes até escavava (arqueológicamente) sua massa para descobrir o que nele passava intocável e ileso pelo meu corpo. A investigação provinha da inquietação fissurada pela visão do esgoto: O que eu engolia e não se transformava, chegando inteiro à privada? O que sobrevivia às transformações internas do organismo? Poderia meu corpo não sofrer as alterações e mutações contaminadas pelo que ele é obrigado a engolir, como a privada? Que buracos são esses que transpassam meu corpo?

O trauma se instalou, de fato, não com todo esse enredo fantástico e investigativo infantil, mas no dia que escutei sobre a presença de vermes nas fezes. Desde então, passei a procurar, obcecadamente, vestígios de vermes e parasitas vivos no cocô, que daria notícias de como se parece um corpo parasitado à sua revelia. O pior não era ser privada, afinal. O pior era carregar microorganismos inteiros no corpo, como bactérias, parasitas, fungos de toda sorte, uma fauna habitando invisivelmente minha derme, epiderme, carne, organismo. Seria eu, então, resultado de uma mutação em andamento, até que um dia eu acordasse e não me reconhecesse mais?

Eu era apenas uma criança, foi só mais tarde que viria a figurar minhas inquietações a partir do encontro com a narrativa fantástica de Kafka e sua transformação num inseto desprezível, facilmente assassinado com uma pisoteada paterna. Eu não tinha medo de ser pisoteada, muito menos de virar inseto. Mas a história da privada me levou de encontro ao universo dos vermes. Quando adulta, quis conhecer de perto esses vermes chamados de homens. Também seguia investigando minha capacidade de sobreviver, intacta, a seus parasitismos. Claro que acabei descobrindo que tudo se deforma, inclusive quem somos. Mas algo permaneceu: verme. Ver-me. Me ler. Afinal, o enigma a qual eu me enfiava, desde tão criança, era uma investigação sobre meu corpo, sobre minha existência, sobre minha capacidade de construir objetos pro mundo. O que sobrevive, transformado, na passagem do buraco que vai da boca ao anus, ou, em outros termos, o que sobrevive da gente depois de atravessar o campo da linguagem figurado pelo corpo do outro?

Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Privada. Em: www.alineaccioly.com.br

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