(Primeira parte: Vestido Azul)
O evento terminou com sucesso e ao final da noite estávamos todos na praça central da cidade comentando as palestras recém escutadas. Riamos e falávamos alto sobre aspectos intrigantes da noite. Ao fundo da praça, Tina passou andando. Desta vez, trajava roupas comuns: uma camiseta branca, calca jeans e tênis. Seus cabelos estavam soltos e uma buchinha de cabelo circundava um de seus braços. Betânia chamou por ela, como da outra vez.
Oi Tina, lembra da Jô? O olhar de Tina foi diferente dessa vez. Transformou-se numa curiosidade preguiçosa. Lembro sim, disse ela. Pra onde vamos agora? Espetinho? Eu estava preparada para voltar para minha vida cinza, mas trajava minha jaqueta favorita. Aquele amarelo mostarda ainda não estava pronto para voltar para o armário. Segui com elas para o bar.
Entre conversas, risadas e cervejas, a curiosidade preguiçosa de Tina ia dando espaço para uma implicância que ressoava discretamente em falas dirigidas em minha direção. Betânia ria, saboreando o gosto divertido do clima que começava a se estabelecer. Não levava a sério essa aproximação, talvez por acreditar que a implicância de Tina não fosse cessar. Mas eu lia a transformação nas expressões do seu corpo. Da preocupação distante ao desprezo, no primeiro dia, à curiosidade preguiçosa e implicância ativa, no segundo dia. Alguma transformação estava em andamento. E era acostumada a trabalhar na transformação dos afetos das pessoas em minha direção. Gostava do desafio de tornar constrangimentos em curiosidade e presença de desejo. Algo em mim também se transformava.
A noite terminou com minha enorme dificuldade de voltar pra casa e despir-me da minha jaqueta amarela. Apesar disso, estava esperançosa. Em um dos bolsos nunca antes utilizado, estava um pedaço de papel com um número de telefone. Tina grafou onze números no guardanapo usado da mesa do bar e me entregou. Estava reticente, mas não conseguia conter sua curiosidade. E eu não conseguia mais disfarçar o interesse que brotava visivelmente do meu corpo.
Posteriormente, Tina viria e me dizer que sua atenção havia sido capturada pela minha ‘sem graceza’. Para uma mulher super poderosa, como costumam descrever lendariamente minha pessoa, ela apenas tinha visto uma mulher envergonhada, embaraçada e sem graça por não conseguir tirar os olhos dela. Nossas histórias passadas desmoronavam silenciosamente, dando lugar à costura de um tecido afetivo em alinhavo delicado.
Na janela, fumando um cigarro, eu e a jaqueta amarela restamos como únicas testemunhas dos primeiros traços escritos naquele papel sujo e usado. Os onze números grafavam uma senha, a abertura de um caminho nunca antes atravessado nem por ela, lindamente amarela, nem por mim.
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Jaqueta amarela. Em: www.alineaccioly.com.br
