Jéssica saiu do trabalho e correu para o trem. Tinha uma habitual pressa diária para não perder o horário das seis, assim podia chegar no trabalho do segundo turno e tirar um cochilo de quinze minutos antes de bater o ponto. Ela tinha dois empregos. A vida andava mais difícil do que estava acostumada, então trabalhava durante o dia em uma loja de roupas chique, num shopping bem frequentado por herdeiras e a noite, no aeroporto, enfrentava o segundo turno numa loja bem frequentada por gringos.
Naquela segunda-feira, no entanto, Jéssica sentia um cansaço maior do que o normal. Na expectativa de mudar alguma coisa na sua repetitiva rotina, decidiu escutar as músicas do seu Spotify no modo aleatório. Entrou no trem, como fazia todo dia, e depois de quatro músicas absolutamente desconhecidas e chatas, já estava arrependida da invenção do dia. Qualquer coisa que poderia ter sido nova ou animadora estava se mostrando cada vez mais sem sentido. Com medo de ter seu celular roubado, não ousava tirar o telefone do bolso para mudar a playlist. Teria que arcar com sua decisão mal feita até o final daquela viagem.
Ao amaldiçoar sua decisão, em pensamento, escutou as primeiras notas do piano de uma música que a levou para vinte anos no passado, instantaneamente. De repente, já não estava mais dentro de um trem numa segunda-feira comum, mas no dia três de junho de 2004. Naquela época, estava viciada no álbum novo da Nora, uma cantora de jazz que havia lançado um disco absolutamente empolgante e diferente de toda a onda pop que dominava as vendas e as rádios do momento. Jéssica escutava o álbum de Nora repetidamente e sonhava com uma vida melhor que a tinha. Naquela época, já trabalhava o dia todo em um serviço administrativo. Mas ainda tinha sonhos. E conseguia ter tempo livre, com apenas um emprego que pagava suas contas.
Jéssica escutou o apito do trem avisando que havia chegado a seu destino e voltou para sua realidade. No entanto, seu destino já não era mais o esperado a cinco minutos atrás. Como se uma cratera se abrisse no meio do seu despertar, Jéssica agora lembrava de quem havia sido, dos seus sonhos, de seus medos, e tudo que perdeu nas duas décadas que parecia ter atravessando dormindo, dopada. Não conseguia mais lembrar como chegara naquela estação.
A música acabou, mas a transformação produzida em Jéssica não encontrou um fim. A moça saiu do trem, deu uma volta e entrou no próximo, em direção a sua casa. Já não cabia mais em sua vida, nem naquele tempo. Havia encontrado algo que a muito estava perdido, guardado em pedaços num passado recuperado por apenas duas notas musicais de uma música. Não lembrava que tinha deixado pistas de si, como quem deixa pães no caminho para saber como voltar, em músicas perdidas nas suas playlists. Já sabia o que fazer. Bastava seguir escutando sua playlist nada aleatória escondida por ela mesmo em outro tempo de sua vida.
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Duas notas. Em: www.alineaccioly.com.br
