Paulo entrou no trem pontualmente, às dezoito horas. Estava satisfeito por iniciar mais uma semana sistematicamente no horário. Olhou para seus sapatos, bem lustrados, e ficou extremamente satisfeito por ter atravessado um dia sem sujar um pedacinho daquele valioso objeto. O brilho dos sapatos parecia realçar a meticulosidade com a qual ele cuidava de sua masculinidade. Com a camisa bem engomada, a calça bem passada, o cabelo perfeitamente cortado, Paulo sabia que ninguém naquele trem poderia desconfiar de sua transmasculinidade. Fazia questão de passar invisível, como se fosse um homem cisgenero. Essa passabilidade aumentava sua satisfação e sua sensação de vitória e segurança.
Talvez fosse reconhecido apenas pelo extremo zelo com qual cuidava de suas unhas e mãos. Ao olhar para suas mãos e passar álcool gel, flagrou-se no exato ponto onde sentia mais dificuldade de abandonar seu traço feminino – o cuidado com as mãos e as unhas. Com medo do que poderiam ver e julgar, rapidamente encostou a cabeça no trem e tirou um cochilo, distraído de seus próprios pensamentos. Acordou assustado, pulando de um rápido sonho em que ainda tinha um corpo feminino e carregava seu nome morto, revelado, no meio de uma multidão. Havia sido flagrado na manicure, pedindo as unhas de cor vermelha. Assustado, ainda no trem, levou alguns segundos para retomar a compostura. Olhou para os sapatos lustrados, seu objeto referencial para sustentar seu mais novo semblante, e recompôs-se, aliviado por ter sido apenas um sonho. A essa altura, no entanto, o incômodo já havia ganhado vida. Agora, olhava o brilho dos sapatos e lembrava do brilho perdido das unhas vermelhas.
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Sapatos lustrados. Em: www.alineaccioly.com.br
