Hoje acordei flutuando no espaço, como quem não consegue ficar pregada no chão, muito menos na cama. Enquanto sentia o peso do meu corpo deitado, flanei pela casa, pelas ruas, por lugares que a muito tempo não visito, encontrando com pessoas que a muito tempo não vejo. Fui longe, percorrendo territórios, como quem tem liberdade de voar e não nasceu num corpo que só consegue se movimentar lentamente, pesado, em contato com o chão.
Hoje acordei querendo fugir do destino marcado para este dia, como quem acredita na liberdade e nas surpresas da vida, como quem tem fé no poder de decisão que dizemos ter. Levantei e lavei meus cabelos para dar-lhes a liberdade de serem encaracolados, como se esse gesto marcasse um sinal de liberdade em movimento e não da estrutura que sustenta cada um desses fios, cuja tendência é enrolar naturalmente, mesmo que em determinado dia insistam em não enrolar.
Hoje acordei escutando o barulho da rua me chamando, devaneios de um corpo preso em sua própria estrutura carnal, que acredita poder passear e descansar da vida sem vida. Fui para a cozinha fazer um leite, antes da liberdade, e descobri que não tinha Toddy. Tive que lavar o liquidificador e procurar o achocolatado em pó sem açúcar que havia sobrado escondido num canto do armário. Quando terminei de fazer a peregrinação para tomar o leite, o corpo já estava preso e cansado e descobri que liberdade é uma utopia pra gente ter esperança.
Hoje acordei como quem acredita na liberdade de escolha sobre como viver os afetos, mas logo topei com Safatle na estante da sala, com meus cabelos encaracolados molhados, meu leite gelado e meu corpo cansado, e precisei parar de negar que os nossos circuitos de afetos levam a gente sempre para os mesmos lugares. É um circuito, afinal. Então eu coloquei Tim Bernardes para tocar no meu Spotify, olhei para meu rabiscos e rascunhos da escrita e decidi que a liberdade não é maior que o sonho, mas ele continua vivo. E chorei de levinho, uma pequena lagrima que não sabe para onde vai escorrer, porque ela, na sua função de lágrima, é livre, como o choro.
[Texto originalmente escrito em 23/07/20]
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Troco uma lágrima por dez páginas escritas. Em: www.alineaccioly.com.br
