O retorno da recalcada

Estamos em 21 de janeiro de 2021 e acordei do meu sono de meses desde a última entrada nesse arquivo. Saída recente do cativeiro ao qual estava trancafiada (e comprometidíssima), retornei a vida a convite de duas professoras do curso de escrita ao qual me matriculei em dezembro do ano passado. Espertinha essa versão de mim que insiste na liberdade. Me matriculei no curso por causa de uma promoção, sem pensar muito ou mesmo saber se conseguiria participar das aulas. Fiz-me de boba e deu certo. Aqui estou, desperta e escrevendo. 

O convite para o exercício me fez escrever um texto que surgiu do nada, em camadas. Estou começando a entender melhor e gostar dessa história da escrita em camadas. Essa semana, minha orientadora me disse que o texto só nasce quando a gente o abandona para escrever outro que nasce das limitações expostas no anterior, depois de lido por alguém. Eu fiquei embasbacada com essa colocação, não porque ela seja uma novidae, mas porque ela localiza exatamente minha dificuldade na escrita: trato meus texto como objetos e sou apegada demais a eles. Por isso não consigo fazer deles constantemente outra coisa, e eles não evoluem para categorias textuais mais interessantes. Não ,alçam sua própria potencia, presos como objetos pequenos bebes narcísicos da mamãe. 

Tive que dormir com essa e acordei no dia seguinte para assistir minha aula do curso de escrita, que tinha faltado porque haviam coisas mais importantes a serem resolvidas naquela segunda. A aula foi passando e as professores foram incentivando a escrita em camadas. Primeiro você escreve cinco ações realizadas em um período do seu dia, de maneira bem suscinta. Depois você escreve cinco detalhes a mais, ligando a percepções e afetos conectados a cada uma dessas atividades. Na terceira etapa, você escolhe apenas duas ações e transforma seus dez itens em um texto corrido. E assim saiu um esboço de texto. Bobinho e fácil, pensei. 

O engraçado é que acabei escolhendo a atividade menos óbvia de todas que escrevi. E a partir dela saíram palavras que eu nunca nem me imaginei escrevendo. Nada óbvio. Fiquei provocada por uma citação que as professoras leram em sala, afirmando que um diário é escrito na ignorância do seu fim, na surpresa do que está por vir. A idéia é de que tudo se encontra suspenso, em estado de espreita do acontecimento. O leitor e o escritor ocupam a mesma posição de não saber o que virá, gerando um efeito de presença e cumplicidade. Notei que o exercício funciona. Porque dessas camadas todas surgiu, mais tarde, um texto ainda sem título. E, mais que isso, me fez voltar para o meu projeto de três páginas por dia. Além disso, ganhei um plus: uma dica da professora para futuros escritos, que resultou numa nota no meu celular para inserir e registrar uma lista de momentos insuportáveis. Adoro uma lista, desde muito jovem fazia listas sobre tudo. E gosto de escrever sobre o insuportável, o que só fez a ideia ficar gorda na minha bolsa amarela. 

Definitivamente aceitei que preciso perder o medo de deixar meus objetos caírem. As palavras que nunca escrevi nos textos que nunca deixei nascer estão em polvorosa. E eu também. 

[Texto originalmente escrito em 21/01/21]

Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) O retorno da recalcada. Em: www.alineaccioly.com.br

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