Na boca do estômago

Quando era criança,

eu tampava os ouvidos com as mãos

e gritava, pra minha mãe:

“aqui ninguém entra”.

Mas o sexo é uma perturbação.

O corpo é território estrangeiro.

Nunca me avisaram que não bastava fechar

algumas fronteiras.

Há quem consiga entrar sem passaporte

por lugares que menos se espera.

Com seus pedaços de carne,

com suas palavras cortantes,

com suas regras absurdas.

Mas é em carne morta que o bolor cresce.

Pago com uma libra dessa carne

e que venham os fungos.

Ao menos são colonias vivas

que animam, com outras cores,

o desfolhar de minh’alma.

Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Na boca do estômago. Em: www.alineaccioly.com.br

Discover more from Desconcerto de Lalíngua

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading