Primeiro sonhei que estava na Suíça, aprendendo a perder a hora do voo de volta pra casa. Mas aprendia com classe, mantendo a leveza, a calma, afirmando que estava tudo bem e que tudo iria se resolver. Depois, sonhei que estava em um evento de psicanálise que acontecia em outra cidade, comprando um livro sobre a mentira da perversão, para me livrar de um certo cinismo sádico. Por último, sonhei que estava tomando um chá em São Paulo, conversando com um amigo sobre escrita. Depois ia montar uma pizza com os pedaços de ingredientes que precisavam ser compostos por mim, em camadas, para degustar com uma parceira, que ainda não conheço, no estado de vigília. Considero esses três sonhos como uma trilogia sobre transformações concernentes às possibilidades de encontros e desencontros com a minha sexualidade e com meu desejo pelo feminino. Não vou interpretar os sonhos, mas vou deixar essa transformação de amor aos pedaços registrada para os que saboreiam um enigma.
Ontem, no dia dos namorados, fui muito zoada pelas minhas amigas, que estão sem paciência para meu (des)tempoero amoroso. Atualmente, acho graça da falta de paciência das pessoas no que concerne a recusa de um certo exercício “livre” da sexualidade. Elas não apenas praticam a fantasia de liberdade, mas gostam dos ecos uníssonos de seus encantos da sereia. A mim, soa apenas mais uma proposta mandatória. Sim, sou cult. Sim, leio livros. Sim, o amor que nutro pelas pessoas é cortês. Sim, não tenho urgências sexuais que me submetem aos meus instintos. Sim, preciso de tempo para construir as camadas das coisas que me alimentam e me nutrem.
Não, não tenho pressa. Não tenho medo da solidão. Não me sinto carente. Gosto de sentir o vento à beira dos abismos. Esses sofrimentos universais são, para mim, chá de revelação – a solidão me revela: Sou do time delay, uma pleasure delayer. O modo como pronuncio essa palavra inglesa, abrasileirada, imprime um outro uso para ela. Minha estratégia é de-lei. Transformo ela em verbo, para imprimir um saber que vem do fazer: de-lei-ar. Desse verbo, construo um substantivo para predicar meu modo de ter prazer: é um deleite, construído durante minha análise com uma analista cujo sobrenome é Leite.
Sou, portanto, referida por ter me fabricado De’leite. Meu fazer, meu prazer, meu estilo, vêm dessa de-lei construída. É uma referência a partir de um certo adiamento no manejo do tempo do desejo. Quando o desejo se deixa ler, em sua insurgência, não traduzo-o como uma demanda ou um imperativo ao qual preciso me submeter e enquadrar através das leis da linguagem e da cultura. O tratamento que imprimo ao desejo é composto por voz e teclado, que também são elementos sonhados e escolhidos por mim.
Primeiro, transformo a insurgência do sonho, do desejo, teclando letra por letra um texto. Depois, realizo a leitura, discernindo o prazer que está em jogo nessa composição. Ao tecer o escrito que dá forma ao sonho/desejo (e também as resistências e imperativos), encontro a minha voz, no tom, no ritmo, na cadência para em-cantar esse desejo, de modo que não seja eu a vítima da voz da sereia fantasiosa, que só vai me deixar pra sempre amarrada num mastro, como Ulisses, com medo de si mesmo diante desse canto. Voz e teclado se entrelaçam num arranjo que se estrutura através do som da escrita e do ritmo das letras que (en)cantam. Sou, sobretudo, cortez com meu próprio desejo, ao dar-lhe esse tratamento, espaço e tempo para que sua construção, em camadas. Pedaço por pedaço, ganha forma a letra, o texto, a voz e as possibilidades.
Meu coração não é um órgão, refém dos instintos e da cultura. Meu coração é um corpo cuja tessitura é tramada com espaços transpassáveis por esse canto. Por meio de micro furos na pele, suspira o amor que, para passar, precisa ir e vir em pedaços, em sussuros. Essa é a peregrinação do amor. Tem que morrer para germinar. Nossa semeadura. Tem pressa de viver, mas em promessa, em fragmentos, um dia após o outro. Não tenho nada pra dar, além das minhas palavras e das experiências fugazes entre corpos, no intervalo entre cafés, almoços, encontros e desencontros durante essa peregrinação que é a vida. Delay, afinal, não deixa de ser o som de um eco. Repetitivo, atrasado, mas ainda sim, um sinal.
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Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Delay. Em: www.alineaccioly.com.br
