A sombra é como um passarinho que um dia vem me visitar.

Pousa de mansinho no meu corpo e começa a cantar.

Seu primeiro piado encanta,

Diminui o volume da agitação que me habita.

Dia após dia canta o Passarinho.

Nos meus ombros, faz nascer e se pôr o sol. 

Estranho não conseguir vê-lo, 

Pousado nos meus ombros.

Vislumbro apenas seu reflexo

 Desenhado pelos raios de sol.

Sombra.

Um dia, no entanto, subitamente acordo e sinto seu peso. 

Não parece mais um peso leve,

Passarinho.

Sua melodia ainda ressoa em meus ouvidos,

Mas, aos pedaços, 

Sinto que arrancou os fios da minha pele.

Desamarrou-me. 

Deste’ceu meu nó.

Devorou minh’alma,

Gestou minha dor, sentida.

Ah dor!

Há dor!

Ardor.

Ar’dor!

Meu corpo acende em chamas.

Enquanto queima, escuto, 

Frágil e dolorido,

Um ruído indiscernível.

Eco!

Preso na garganta.

Reverberação tateável, ainda abafada.

Grito. 

Não sai um pio.

Assombro. 

[Assombração]

Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) A sombra. Em: www.alineaccioly.com.br

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