Como nascem as palavras?
Acordei agitada, após uma noite de muitos sonhos. Estava em uma festa de final de ano com minha família, em Caxias. Não cabia. O universo onírico figurou, metonimicamente, todos os modos possíveis de constatar como meu corpo é uma substancia que não cabe naquele discurso. Não caibo. Naquele espaço, ntre caxienses familiares, Não caí, bo…rromeana.
Dessa agitação sem fim, nada valeu a pena registrar e detalhar. Mais do mesmo. Abri a porta do quarto para as gatas e fizemos nosso ritual matutino em que sorrio e entôo minha alegria barulhenta para elas. Escovei os dentes, tomei banho e passei meu café, com gostinho de chocolatino e caramelo.
Em trinta minutos já estava no consultório, para acompanhar a impermeabilizaçao dos estofados que recebem os analisantes durante a semana. Enquanto o rapaz trabalhava com as tramas das poltronas, tornando-as impermeáveis, eu fazia justamente o oposto com meus livros, minhas ideias e minhas palavras. Escrevia, tornando permeável o texto que nascia. Sorri.
Havia passado a semana angustiada com a escrita de um outro material que não anda, porque o texto sobre o qual tentava dissertar é um desses textos sem furos, impermeáveis. Conclui, antes mesmo dos sonhos desse sábado, que não me interesso mais em abrir fissuras nas consistências que não são feitas para caber corpos passantes. Não me interesso em ocupar essa dimensão real para alguns outros. Portanto, apaziguei minhas inquietudes acerca desses territórios e discursos silenciosos, ainda que aparentemente sedutores. Até Ulisses precisou seguir para a próxima aventura, quem diria!
O rapaz logo terminou seu trabalho e me mostrou a mágica, jogando água nas poltronas e produzindo um efeito de deslizamento. Sorri diante do seu espetáculo, confirmando o excelente trabalho. Depois que ele já tinha seguido para seu próximo endereço, fiquei com as contrações das palavras e do texto que estava em trabalho de parto, “o risco do serrote num sólido”, como diria Lacan. Assim que nascem as minhas palavras. Das fissuras abertas, espontâneas e disponíveis, do meu corpo. Só para alguns, nãotodos.
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Sábado. Em: www.alineaccioly.com.br
