As plantas eram tantas que escapavam pelas frestas e vãos abertos das janelas e das portas, entre os ambientes. Qualquer buraco do apartamento era facilmente permeado por galhos e folhas das mais variadas espécies de flora viva e abundante, beirando o espalhafatoso na ocupação dos pequenos metros quadrados daquele espaço. As espécies terrestres habitavam vasos enormes espalhados pelo chão da sala. As variedades flutuantes moravam em cumbucas medianas, penduradas por ganchos nas paredes da varanda e dos corredores. Os tipos menores, pequenas formas tímidas e econômicas, dividam o espaço dos móveis e armários com livros, eletrônicos e bugigangas sem lugar. A casa era quase toda verde e vibrava em tons de alegria que são difíceis de figurar com palavras.
Do lado de fora, o céu escuro começava a dar sinais de clareira, pintando, como numa tela, a mutação entre o final da madrugada e o começo da vontade de nascer o dia. A opacidade enevoada acrescia textura à imagem, tecendo contornos atmosféricos permeáveis à pele humana, resultado de uma onda de seca que havia invadido a cidade naquela semana. O cerrado mineiro presenteava seus habitantes com seu clássico clima de inverno, que se impõe anualmente através de sua secura brilhante. Em alguns momentos, os olhos mal conseguiam se abrir diante da intensidade e do brilho dos raios solares em contato direto com a retina humana.
Havia silêncio. Aos ouvidos atentos, talvez fosse possível perceber um ruído sutil de alguns passarinhos se movendo em seus ninhos. Paula respirava o ar daquele instante como quem aspira sua existência, incorporando cada um dos aspectos daquele ambiente tão familiar, tão seu e agora tão estranho. Inspirava e expirava, principalmente, a dor de sua partida. Estava ocupada numa investigação sobre como carregar todas aquelas plantas consigo, em busca de um novo lar.
Depois de gastar alguns minutos pintando o quadro daquela realidade, percebeu que não conseguiria carregar na mala de viagem a experiência incapturável de uma criação que levou anos para ser composta. Não teria mãos o suficiente para carregar toda aquela fauna e flora, tão cuidadosamente regadas e cultivadas. Seu coração era sereno, no entanto. Tinha certeza sobre o instante de sua partida. Despedia-se silenciosamente de toda aquela realidade enquanto, calmamente, operava pequenos cálculos para saber o que conseguiria carregar apenas com a força de seu corpo. Carregava consigo alguns cadernos, livros e discos. Levava, principalmente, um traço, um trejeito, um certo modo de abismar-se com o corpo através das palavras. Era tudo que precisava, o gosto por fabricar e habitar abismos.
No cômodo ao lado, restava um corpo estendido no chão do quarto. Ressonava o sono dos despreocupados ou dos alcoolizados. Não conseguia e nem desejava discernir. Precisava encontrar a chave para abrir a porta e sair antes do despertar daquela alma perdida, obsediada. Talvez fosse uma alma morta que ainda não se sabia em estado de decomposição. Paula não pagaria a taxa de revelação do status daquele corpo. A cada falante sua sina.
Silenciosamente, buscou a chave numa bolsa aberta no chão do quarto, mas apenas encontrou pequenos objetos femininos guardados, como uma coleção de pedaços de mulheres perdidas, roubadas. Brincos, aneis, roupas, sapatos. Entre tantos pedaços caídos e cheios de histórias, Paula podia sentir a textura do sangue e o amargor da morte ao tocar esses objetos com a ponta de seus dedos. Tinha que apressar-se, pois escutava o aumento constante de volume dos piados de passarinhos lá fora e a atmosfera da casa ia rapidamente desmoronando, perdendo sua leveza e transformando-se na aridez do dia seco que nascia com uma velocidade própria.
Foi então que escutou um barulho de porta abrindo e surpreendeu-se com um bando de pessoas entrando na casa, procurando por alguém que pudesse dar início a mudança que estava marcada para aquele dia. Paula não se lembrava de ter pedido ajuda ou agendado o trabalho de deslocamentos. Apressou-se com a oportunidade aberta diante de seus olhos, carregou as plantas que conseguiu em seus braços e saiu, sem olhar para trás.
Segundos depois de atravessar a porta de saída daquela vida, daquele habitat que ela mesmo havia construído com cada suor e sorriso de seu corpo, sentiu-se, ela mesma, planta. Tinha tronco, raiz, belas folhas e um cheiro de fotossíntese no ar. Sua raiz estava visível, desesperadamente livre, à espera do novo solo que receberia seus caules com sulcos de vida para enredar-se, mais uma vez, no buraco escavado com suas próprias mãos em uma fazenda qualquer do mundo. O cheiro de sua existência luminosa ocupou a rua, do outro lado daquela porta, como se finalmente pudesse se espalhar sem limites e brotar chão afora, sem destino. Precisava apenas descobrir o nome de sua espécie. Mas não tinha pressa alguma. Estava feliz de ter se transformado numa vegetação qualquer. Havia suspeitado, a vida inteira, que era mais planta do que gente.
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Um dia de domingo. Em: www.alineaccioly.com.br
