Dia desses a Angela declinou a concepção canônica de que a psicose é uma experiência a céu aberto. Para ela, a abertura do inconsciente não é escancarada como desenha um certo tipo de estereótipo imaginário do próprio campo psicanalítico. A abertura se apresentaria como um rasgo, uma fissura, um vão, uma erosão. Seja qual for o nome que damos à operação de leitura da abertura e o traço de sua imagem, há uma fantasia de abertura que costumeiramente encobre a justa fineza cernida no instante do rasgo, através dos contornos produzidos pelo próprio estriamento da superfície ao sofrer as rachaduras. Essa ação de cessão deformativa esgarça e produz, ao mesmo tempo, uma via e um limite, uma borda. A imagem dessa operação trinária não é calculável através da profundidade ou largura de sua incidência, mas figura a ação mesma de erosão, de sulcamento, das frestas em constante deformação do espaço e da superfície do corpo qualquer em questão.
Talvez por isso, minha leitura da topologia se aproxime da leitura de uma poesia. Há delicadeza nas intervenções do analista ao manipular as linhas e os pontos de lalíngua de um ser falante ao habitar a linguagem, como quem recolhe sementes em puro crescimento e as transpõe nas linhas do nó borromeano. É uma espécie de cuidado e intervenção que mexe nas linhas e pontos das frases, entrecortadas de lacunas e costuradas com palavras, pontuações e sonoridades.
Todo esse trabalho de costuras e suturas com as línguas me lembrou da minha avó, que costurava numa época rudimentar, mesmo que já contasse com instrumentos tecnológicos. Um pouco cega, com as mãos fracas e dedos tortos de tanto lavar roupa, ela perdia alguns minutos tentando passar a ponta da linha na cabeça da agulha. O buraquinho da agulha tinha o estatuto de fresta, minúsculo para o tamanho das mãos humanas e, ao mesmo tempo, enorme para a grossura da linha a ser transpassada pelo tecido. Minha avó tinha uma máquina de costura, mais ágil para esse tipo de serviço e com menos embaraços manuais no manejo dos instrumentos de costura. Mas para algumas costuras, dizia minha avó, só a sutileza e habilidade das mãos dava jeito.
Sempre considerei minha avó uma mulher abissalmente precária em sua intelectualidade e com parcos recursos afetivos para lidar com os horrores de uma vida de mulher, mãe e esposa nos anos de sua vida. Mas quando me lembro dela sentada, costurando qualquer peça que nem lembro mais a substância, o que me toca, ainda hoje, são os aprendizados deixados aos pedaços para uma neta que não costurava, que não percebia a semelhança entre a escrita e suas costuras feitas por suas mãos da poeta que nunca foi, entre panos e retalhos. Seus dedos inquietos sutilmente se movimentavam incomodamente através das pequenas frestas, como as letras entre os vãos da linguagem. Com seus gestos e trejeitos de uma senhorinha com uma agulha, um fina linha e o tecido invisivelmente tramado e cheio de frestas à espera de travessias de estilo. Para uma fina linha, a cabeça de uma agulha pode ser uma enorme travessia entre grandes céus abertos. Mas só naquela perspectiva da linha passante. Para as mãos que a manipulam, construindo caminhos e objetos novos, basta pegar o jeitinho das frestas em suas aberturas sutis o suficiente para deformar um universo inteiro de existência.
Ao enodar topologia e poesia, como um cuidadoso abraço nas lalínguas de cada analisante, transpasso essa costura com o gesto de minha avó, que não me ensinou a costurar, mas deixou esse fio solto na minha história. Cheguei a análise sem saber que o carregava até que fosse puxado pela minha analista, hábil costureira de palavras e marcadora de lacunas. Eu também tinha mãos e dedos inquietos, mas tinha me esquecido que o tamanho da abertura do céu só assusta as linhas que mergulham de pertinho nesse espaço. Ao tomar um pouco de distância do abismo – que às vezes um espaço aberto figura – e lembrar a mágica que mãos inquietas podem aprender a fazer, bastou praticar, com alguma constância, os gestos topológico e poéticos não sabidos e artesanais dessas mulheres que não temem a arte de produzir seus objetos com poucos retalhos que sobram da roupa do outro. Com Nina, aprendi a dançar nas entrelinhas, pescar meus fios perdidos, coletar retalhos e sobras indesejados por outros e compor, com esses elementos, uma via de passagem pelos abismos que, na verdade, se reduzem a pequenas frestas à espera de movimento. Inventei palavras com seu nome e tenho, finalmente, um vocabulário fabricado como uma língua própria.
Esse é apenas um fragmento de uma história de declínio, porque tal qual Bartleby, agora prefiro não. Mas aprendi meu jeitinho de ressoar esse modo de existência que me é irremediável e único: nananinanão. No meu dicionário: Nananinanão: Ação de cessão deformativa. Corte e costura. Escrita. Ou o nome que você traduzir na sua língua.
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Escrever nas frestas. Em: www.alineaccioly.com.br
