Lista de tarefas para existir

  1. Nos dias mais difíceis, descrever detalhadamente os passos do dia, desde o primeiro abrir dos olhos pela manhã ao instante em que o sono toma conta do corpo, incluindo quando possível, a contação dos sonhos. O estado onírico é um intervalo descontínuo da vida, instante em que despertamos para outra realidade desprovida, mas figurativa, da dor de existir. No estado de luto, é possível que passe despercebido o pequeno grão de estilo que fica a espera de terrenos férteis para seguir insistindo em germinar, marcando o nosso jeitinho irreplicável de habitar um espaço, um universo, plantando sementes com os nossos pedaços que caem pela caminho, a cada passo rumo à finitude.
  2. Nos dias mais sóbrios, em que a dor de existir parece ocupar menos espaço, furar o silêncio com palavras ordenadoras, coreografando e organizando as formas não cronológicas dos tempos do luto. Notar as conjunções, disjunções, encruzilhadas e passagens entre os acontecimentos e desacontecimentos contingenciais da vida e destacar o que pode ser lido dessas regularidades sobre nossas decisões e medos diante desses tropeços. Investigar essas linhas que desenham a dança dos nossos passos e costuram uma imagem da forma produzida, para que tenhamos, no próximo encontro com o abismo, um amuleto para lembrar. Lembrar que somos nós, indesviávelmente, que compomos nossas saídas, para insistir em existir apesar da estrutura própria do mundo e da finitude própria da nossa espécie. Que escrevemos, constitutivamente, composições monumentais para pensar o mundo, habitar um corpo e cantar uma canção em língua desconhecida para acalentar nossa estranha dor tão familiar. 
  3. Nos dias mais esperançosos, ousar fabricar uma novidade a partir da morte, da perda, do catálogo de dias já vividos e morridos. Ao inventar uma narrativa que só pode ser escrita pelas nossas mãos, autoficcionalizamos a dor extremamente real da morte cotidiana pagando com palavras a tal libra de carne que a arte de viver nos cobra como pedágio de passagem na estrada da vida, todos os dias. Afinal, não esqueçamos que o sentido, a orientação possível para a vida depois do tropeço inequívoco com o absoluto abismo de sentido da existência humana, só existe porque artesanalmente cerzimos os diversos processos, tempos e acontecimentos como uma história exemplar da vida humana. É ao narrar e pela forma como narramos que nasce um estilo, um jeitinho de escrever que causa cócegas no corpo de quem escreve (quem sabe no corpo de quem lê) e torna impossível não fazer sorrir o corpo ao ver beleza nos campos mais áridos em constante transformação. 
  4. Em dias solitários, ler o que escrevemos nos passos anteriores. Dedicar à esse momento de leitura uma vagarosidade necessária como a das mulheres rendeiras que passam o dia à beira do mundo costurando, com olhos atentos a cada movimento da costura, na renda, e nas vidas que se cruzam e passam diante de seus olhos. Como quem sabe que precisa decorar e incorporar cada movimento para depois fechar os olhos e reconhecer a vida que ganhou forma naquele coletivo de passantes, tal qual das rendas produzidas ao longo do dia. Ler as palavras que foram articuladas, rendidas como possíveis, contando com os dias difíceis, os dias sóbrios e os dias esperançosos. Que, com a leitura, se torne possível reconhecer tais formas de contar como estratégias de existência, coletivizando-as ao associá-las primeiramente entre si mesmas, mas também com outros escritos e outras experiências alheias. Que, nesse gesto de leitura escriturante, quase não se perceba certa distância que está em curso, a cada palavra lida, entre a familiaridade autoral com a dor testemunhada pela composição dos textos, em seu tempo de feitura, e entre o tempo do agora e tudo que ele torna estranho, esparso, fragmento caído do corpo que escreveu. Que, ao final da leitura, a constatação da concepção de um produto (artístico?) seja inconfundível, tal qual o fruto que só poderia ter caído de uma determinada árvore, tal qual as palavras que só poderiam surgir da produção cultural de seu tempo, nomeadas como A escrita do luto.  

E que assim, possamos encerrar um laço de três tempos mais um, soma que resulta numa extração mais digna de ser chamada de subtração. E que, se por um novo acaso, essa contação um dia deixar de ser operante para aquela que a escreveu, que possa então saber-se como alguém que faz de seu grão de loucura, outrora nomeado como dor de existir, um grão de estilo germinado como fruto da escrita. E que possa novamente reconhecer as linhas da vida e da morte como invocação de trabalho à espera das mãos de um deus qualquer para inventar as mais belas formas em torno do abismo, fundando o próprio abismo à beira do mundo. E que um deus qualquer existe no corpo das rendeiras, rendidas, redentoras, as verdadeiras criadoras dos universos que conhecemos e dos fascinantes buracos negros que ainda permanecem não conhecidos em nós.

Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Lista de tarefas para existir. Em: www.alineaccioly.com.br

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