Como perder uma avó?

Dona Sônia foi uma personagem complexa na vida de nossa família. A vida real é sempre mais inesperada do que a ficção, de modo que nunca soube muito bem em qual categoria classificá-la. A depender de qual fio narrativo contar os pedaços de sua existência, cairemos numa etiqueta predicativa distinta, às vezes em abissal contradição. A maior parte do mundo carioca que a conheceu gosta de se lembrar dela como a sambista fervorosa de todos os carnavais. Foi com ela, ainda muito pequena, que conheci o tremor de um corpo quando estava no meio de uma bateria de escola de samba no âmago da periferia carioca. O cheiro do suor, o bafo de álcool e a alegria cantante dos sambistas se indiscernia do brilho das roupas costuradas pelas mãos pobres de dinheiro, mas rica de alegria e talento das costureiras. Toda aquela realidade que só quem viveu sabe como é, eu conheci com ela, dona Sônia, acompanhando os ensaios da Grande Rio como quem acompanha religiosamente uma procissão. 

Tem, ainda, a Dona Sônia do buteco, sempre com Heloisa, sua companhia de tiracolo, bebendo uma cervejinha gelada e escutando Arlindo Cruz, Alcione, Zeca Pagodinho enquanto dava uma sambadinha em pé na calçada, a beira da rua. A conta? Ficava pendurada, pra depois. Enquanto os homens jogavam carteado e as mulheres descansavam de ser dona de casas entediadas, elas riam falando de safadezas e às vezes, com sorte, deixavam qualquer senhor safado pagar-lhes o que quisessem para dar uma sarrada no meio daquela alegria contagiante do pobre que sabe que é pobre e precisa sorrir enquanto pode. 

Das várias versões possíveis que poderia escrever sobre minha avó, do portão para fora de casa, a personagem que marca essa passagem entre a Dona Sônia da rua e a avó Soninha que tive em casa, é a Sônia que todo dia, no final da tarde, ficava a postos no portão para ver a rua passar. Foi nessa posição, inclusive, que ela me contou ter recebido, muitos anos antes, a notícia espiritual do falecimento do meu avô, seu marido, que nunca conheci. Ele morreu quando minha mãe ainda tinha cinco anos e minha avó gostava de contar essa história repetidas vezes para mim, de como ele, quer dizer, seu espírito, vestido de terno e chapéu branco, passou pelo portão para avisá-la que havia falecido. Horas depois ela recebeu a notícia do acidente, confirmando o anúncio misterioso. Essa Sônia espiritualizada, meio macumbeira, meio espírita, meio católica, cuidava da minha espiritualidade e das minhas doenças infantis me levando para benzer, me ensinando a acender velas, fazer simpatias, nunca mexer com a macumba das esquinas e, sobretudo, me ensinou que certas dores só curavam com doutorzinho. Só depois fui descobrir que não era um óleo mágico, muito menos remédio milagroso, mas um creminho qualquer cujo poder estava na massagem e no amor das suas mãos no meu corpo como aposta de cura. 

Quando me aproximo da possibilidade de contar sobre a importância da minha avó Soninha, aquela avozinha que só eu podia aproveitar dentro da casa dela, esbarro, no entanto, na Sônia que foi mãe da minha mãe. Essa mulher, que um dia foi mãe de quatro filhos e perdeu o marido cedo – numa época em que ser solteira era perigoso para uma mulher jovem -, foi mãe do jeito que soube. Ela transmitiu à minha mãe, sua filha caçula do primeiro casamento, o terror de ser mulher. Desde pequena, minha mãe foi convocada para os serviços e prestações de contas à sociedade e a família para trabalhar como uma mulher e nada muito bom saiu dessa transmissão simbólica entre elas. Muita devastação. Minha mãe nunca foi uma criança fácil, como ficamos sabendo pelo acúmulo de histórias de família sobre sua teimosia e inteligência precoce. As inteligentes sempre sofrem mais a dor do mundo de mulher porque sabem, mas seu saber não muda para muita coisa. 

Antigamente, se diria que minha mãe comeu o pão que o diabo amassou porque ela merecia, criança custosa. Mas, ainda bem que os tempos mudaram e hoje podemos assumir que não existe criança custosa o suficiente para ser submetida a quaisquer situações de violência. Especialmente uma que perdeu o pai tão cedo e teve que se acostumar a viver com um outro homem adulto cujos hábitos de prazer não eram os melhores para as crianças em seu entorno. Assim, minha avó se tornou, para essa criança, uma mãe ameaçadora, violenta, estranhamente em contradição com a Dona Sônia que todos conheciam na rua. Apenas adulta testemunhei os maus tratos verbais de minha avó na direção de minha mãe e não consegui mais olhar para minha avó com aquele olhar infantil de quem tinha uma avózinha guardada com carinho só para si. 

Quando conheci a mãe da minha mãe, não gostei dela, tive raiva e nenhuma história anterior de suas dificuldades me fazia compreender porque ela tratava a minha mãe daquele jeito. E, durante várias situações, testemunhei o descrédito da sociedade e da família com relação ao que minha mãe narrava de sua história e ninguém acreditava nela. Talvez eu mesma tenha achado um exagero da parte da minha mãe, por muitos anos. Mas não podia negar o que presenciei na relação entre as duas, depois de adulta. Por isso, hoje, quando tento escrever sobre o falecimento da minha avó, que aconteceu nessa madrugada do dia 28 de dezembro de 2024, não sei como responder a pergunta que dá título a esse texto. Como perder uma avó? Sinto que não perdi minha avó hoje. Comecei a perder a minha avó quando conheci a mãe da minha mãe, depois perdi mais um pouco da minha avó quando ela começou a desenvolver o Alzheimer, que durou cerca de cinco anos consumindo sua existência, que foi desaparecendo. Precisei perder a minha avó porque ainda não estava pronta para perder minha mãe. E comecei a entender porque, desde pequena, minha mãe me dava livros sobre maternidade, porque eu me interessei tanto pela maternidade e porque me tornei, muito rapidamente, a mãezona do rolê. Minha mãe era minha mãe, mas sempre pedia para ser filha. Quando desconheci minha avó e conhecia a mãe da minha mãe, entendi porque ela passou uma vida desejando ser filha. Porque ela não teve pai e sua mãe parecia quase sempre um filme de terror de mal gosto. 

Como perder? Uma avó. 

Vou escrever meu luto abrindo a oportunidade de transbordar em palavras o que a avó Soninha foi para mim. Vou reabrir a porta da ficção de uma mulher que me ensinou muito do que compreendi sobre feminilidade durante os anos cruciais de amadurecimento da minha vida. Ela tinha rituais de feminilidade. Desde criança, me pedia para ajudá-la a pintar seus cabelos. Foi acompanhando-a que aprendi a necessidade de fazer as unhas na manicure toda semana e tomar cuidados na hora de lavar a louça para não tirar lascas do esmalte. Também foi com ela que investiguei partes do corpo femininos nos nossos banhos, questionando porque os seios dela eram caídos, porque porque os pelos pubianos das pessoas eram diferentes e tantas perguntas que já não me lembro, porque a memória apenas guarda o sorriso largo que ela dava, com gargalhadas, a cada pergunta nova que fazia. Algumas perguntas ela sabia responder, para outras ela inventava qualquer resposta, fazendo-nos rir por vários minutos, enquanto me distraía do nojo que eu tinha de pisar no cimento cru do chão do banheiro – numa obra sempre inacabada da casa pobrinha que ela morava. 

Nunca vou me esquecer da coragem que ela teve, minha heroína, quando um dia meteu um braço inteiro dentro do ralo e puxou toda a merda que vinha junto com a  sujeira do cano para salvar um anelzinho que deixei escorrer entre os dedos enquanto passava sabonete no banho. Das milhares de vezes que eu morria de nojo para fazer coco e ficava sentada no trono, totalmente pelada, gritando avóooo para ela vir limpar meu bumbum. E das tantas vezes que ela correu comigo para a casa de alguma conhecida do bairro porque do nada me dava vontade de fazer coco no meio do caminho, nas horas mais improváveis. Quantas vezes ela passou vergonha com as minhas caretas de reprovação, nojo ou raiva para alguma situação vivida com alguém da rua e quantas vezes vestia seus sapatos de salto alto, roupas e maquiagem, para encarnar as personagens das novelas da globo pela rua afora, como Porcina da Silva. Ela nunca quebrava com a minha fantasia. Encontrávamos as pessoas pela calçada e ela apenas dizia: essa aqui é minha neta, Porcina. E todos sorriam enquanto eu vivia as duas personagens – Porcina e sua neta.

De tantas situações inequívocas, talvez as que só compreendi mais tarde as que tiveram relação direto com minha sexualidade. Acho que minha avó foi a primeira a saber que eu gostava de meninas. Até hoje existe o mistério de como certos livros de erótica lesbica vieram parar nas minha mãos e ainda hoje redescubro vários momentos em que ela tentava me ensinar algo para me proteger da homofobia do mundo, num tempo que eu nem sabia o nome das coisas. Quando minha prima mais velha apanhou do pai por ser descoberta namorando uma amiga, minha avó confidenciou que certas coisas que fazemos com as amigas devemos guardar segredo. No dia que ela me pegou brincando de marido e mulher com uma amiguinha, ela danou conosco como costumava danar com qualquer brincadeira proibida, mas nunca repreendeu de forma diferente, muitos menos contou para ninguém esses acontecimentos. Além disso, durante vários momentos, ela me mostrava mulheres sapatão na rua, no centro da cidade, e dizia como não tomar cuidado poderia causar danos irreparáveis, como mal tratavam a doida sapatão famosa da cidade. Já adulta, quando conheceu uma de minhas namoradas, fez questão de repetir sua frase padrão depois de velha – o que se leva da vida é apenas o que se come, o que se bebe e o que se fode. O resto é resto. 

Ela foi o que pôde ser pra mim, e foi muito. Muito mesmo. Mas foi também alguém que me causava angústia, pois nunca esqueci do dia que ela bateu na minha tia de cabo de vassoura, por muito tempo, porque ela não tinha cuidado direito de mim e eu tinha me machucado. Eu fiquei apavorada, não sabia o que sentia por minha tia estar apanhando tanto por minha causa e não conseguia entender porque minha avó batia nos filhos como batia nos bichos. E teve isso, que fez parte de uma geração: minha avó não tinha paciência com alguns bichos dos vizinhos e às vezes colocava veneno para matar os gatos mal criados que insistiam em aparecer no seu quintal. Ela nunca falou isso abertamente, mas quando os bichos amanheceram mortos, ela olhava para mim com uma cara de vitória, uma cara confidente que me fazia testemunha oculta dos crimes. Além disso, anos mais tarde, custei a revelar que a pessoa que roubava meus dinheirinhos guardados nas gavetas e sumia com algumas de minhas roupas era ela. Gosto de acreditar que isso já eram sinais de sua demência não diagnosticada precocemente, mas a verdade é que nunca soube muito bem o que sentir ou como defini-la nesses instantes absolutamente estranhos. E tudo isso ganhou muito espaço na figura que ela foi se constituindo para mim, ao longo dos anos, sufocando minha querida avó soninha da infância. 

Depois que eu soube, já adolescente, que ela havia fechado os olhos para os abusos sexuais sofridos por alguns de seus filhos por parte do seu segundo marido, padrasto das crianças, o mal estar se tornou uma presença irremediável entre nós. Aquele cara também cuidou de mim nos primeiros anos da minha vida e ela deixava-me dormir na mesma cama, sozinha, durante várias e várias manhãs da minha vida infantil. Como perder tudo que achamos que conhecemos de alguém quando um pedaço da verdade rouba e fragmenta toda a cena de uma história?

A mulher perdida: Sônia. 

Sei pouco sobre a história de Sônia. Sei que ela veio de uma família de quatro irmãos, e que há uma lenda de que talvez ela tenha sido fruto de uma pulada de cerca da minha bisavó, porque ela era parecida com os irmãos, mas era a mais diferente deles. O fato é que não sei nada de sua história. Durante tantos anos que passamos juntas, ela nunca contou com detalhes absolutamente nada de quem havia sido solteira. Talvez tivesse sido solteira por muito pouco tempo. Nunca saberei. Mas me incomodava demais, durante sua velhice, não saber o que ela gostava de fazer. Além da paixão pelo samba, minha avó não tinha hobbies. Não gostava muito de nada, porque gostava muito daquela vida do portão, de ver a vida passar, da cervejinha, do sambinha. Esse era seu universo privilegiado, que hoje me parece tão pequeno, mas para ela era engrandecedor. Sei que há uma mulher perdida, desconhecida por mim e por muitos nessas personagens que ela pôde ser para os outros. E talvez meu desejo de sabê-la sempre foi um exercício para ler sua vida, seus horrores e sabores com outros referentes. Talvez eu tenha chegado tarde demais com essa demanda de leitura. Talvez eu jamais conseguiria fazê-la, por ter tomado partido da minha mãe, sua filha, no rancor que tive ao responder a demanda de maternidade da minha mãe durante muitos momentos por que elas tiveram aquela história de devastação horrível. 

O gosto amargo que fica na boca é a mulher perdida. Essas mulheres, como minha avó, como minha mãe, como eu, que existimos de formas tão perdidas de nós quanto nos era possível para sobreviver ao mundo que odeia mulheres. Ficamos enroladas nessa trama de auto ódio, de devastação, de heranças simbólicas malditas, e muitas vezes não conseguimos romper essas correntes. Como perder uma avó? Como perder o que sempre esteve perdido? Como colher um grão de amor sufocado que passou entre nós, mesmo entre tantos horrores e mortes subjetivas? Porque, no final, quem cuidou da minha avó foram suas duas filhas, a preferida, filha do segundo marido, e a preterida, minha mãe. Porque quem eternizará sua existência em palavras sou eu. Porque nós, mulheres, conseguimos acolher o horror dessas relações insolucionáveis e ainda plantar alguma esperança para as próximas gerações. Porque não desistimos umas das outras. Porque sabemos que nossos corpos desaparecem da vida tão rápido como o tempo de queima de um fósforo, mas para nós, que testemunhamos sua queima segundo por segundo, ano após ano, nunca nos esqueceremos do espetáculo de uma vida que brilhou como os fogos de artifício, como se todo dia fosse ano novo.

Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2025) Como perder uma avó? Em: www.alineaccioly.com.br

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