Acordei sem saber onde estava, com a sensação de ter algo escorrendo pelas pernas. Levantei para ir ao banheiro e na passagem pelo corredor, lembrei que estava na casa do meu avô. Entrei no banheiro, sentei na privada e vi sangue na calcinha. Eu tinha treze anos e foi assim que no dia 12 de outubro de 1995, dia das crianças, deixei de ser uma criança.
Não é bem assim que funciona, você deve estar pensando. Não devia ser, mas era essa a informação que eu tinha sobre o ritual de chegada da primeira menstruação. A cor vermelha do sangue era sinal verde para o sexo. Escutei muito essa regra, parte da cultura no Brasil nos anos noventa que, além de hipersexualizar crianças, mantinha vivo um descaso com os corpos femininos e seus desejos, doutrinados desde cedo pelo discurso moral e religioso.
Passei alguns minutos dentro do banheiro, despreparada, pensando em como arranjar um absorvente sem que a notícia se espalhasse pela família como o fogo se espalha na floresta. Chamei minha mãe e contei pra ela que precisava de um absorvente. A primeira coisa que ela perguntou é se podia contar para meu pai. Pedi pra ele que não contasse para ninguém da família, pois estávamos prestes a sair pela peregrinação de casa em casa de parentes durante todo feriado e tudo que eu não queria era a atenção com o assunto da minha intimidade pélvica. Adivinha?! No final do dia todo mundo já sabia. Meu pai, orgulhoso, fez questão de contar. Justificou, primeiro, que era só para minha avó, a primeira visita do dia. O resto, depois, já virou história.
Uma das primeiras coisas que aprendi com meus pais é que se eu quisesse ter um segredo, nunca podia contá-los. Depois minha mãe perguntava tanto porque eu mentia! Outra coisa que eu aprendi com meus pais é que quanto menos eu precisasse deles, melhor. Eles estavam sempre ocupados tentando subir de classe social e havia um abismo entre nós no campo dos afetos. Eles tinham o hábito de falar as coisas no plural, me incluindo na percepção de mundo que eles tinham e eu nem sabia articular minha discordância ainda não discernida.
Hoje consigo localizar exatamente essas diferenças no modo como experimentamos o mundo, mas esse desencontro fundamental entre línguas me fez acreditar que era menos trabalhoso fingir concordância, porque eu não era uma tradutora entre línguas e só ficava muda diante da torre de babel desmoronando no final do dia. A coisa mais valiosa que aprendi com esses dois seres humaninhos, durante a infância, foi a performance. Meu pai gaguejava de nervoso quando falava e minha mãe era calada e tímida como bicho do mato. Os dois ganharam a selva de pedra paulista performando muito bem em suas profissões. Não à toa, fui fazer teatro aos 11 anos e só parei aos 18, emancipada, podendo colocar em ato, na minha própria vida, os aprendizados testados com minha primeira plateia particular.
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Acordei de um sonho confuso, sem entender absolutamente o que tinha acabado de acontecer. Levantei para encontrar um colega de trabalho no café da manhã e comecei a elaborar o desejo do sonho como um retorno ao infantil, naquele exato momento em que a sexualidade irrompe em nossos corpos púberes e somos lançados aos riscos que um corpo precisa ultrapassar para dar destino ao emaranhado dos instintos, dos hormônios, da sexuação, do mito da espécie. O sonho figurava algo nebuloso sobre esse momento de passagem entre o autoconhecimento infantil e a passagem às experimentações adolescentes.
Para os que não menstruam, talvez o carimbo que autoriza ao sexo, no passaporte do corpo, seja o sexo, a primeira relação sexual. Para as que menstruam, a marca que imprime o visto de passagem para ser objeto sexual do mundo é o sangue. O sonho tratava disso, de um incômodo. Todos os elementos do sonho contavam por três. Essa era a única coisa que eu lembrava, que com qualquer carimbo que fosse, nunca fechamos a conta do sexo em par. Quase chegando à cafeteria, sorri com o enigma borromeano do número três e me dei conta que estávamos em mais um dia 12 de outubro, só que 29 anos depois, em 2024.
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Nas redes sociais, as fotos das crianças pipocaram nos perfis de conhecidos. Larguei essas fantasias instagramáveis de infâncias felizes e encontrei a Barbara Cassin no seu mais recente lançamento traduzido no Brasil: “A nostalgia – Quando, afinal, estamos em casa?”. A nostalgia não é simplesmente uma saudade de casa que se resolve com um retorno ao lar. A invasão desse sentimento é apenas a ocupação de uma ficção escolhida como familiar, signo que não cessa de dar indícios do nosso sonho de retorno a um lugar de pertencimento. Mas, “casa” é realmente um lugar para onde voltamos e encontramos nosso pertencimento?
Com esse fio interrogativo, a filósofa escreve um ensaio sobre a palavra nostalgia, sua relação de significados entre pátria, exílio e língua materna. O percurso tem como referência a história de origem do termo nostalgia, uma palavra suiço-alemã que surgiu para nomear uma doença repertoriada no século 17. Sua primeira aparição em dicionário foi em 1678, no dicionário histórico da língua francesa.
O médico Jean-Jacques Harder cunhou o termo para expressar a Heimweh – saudade de casa -, da qual sofreram os mercenários de Luís XIV, perambulando sem dinheiro e sem Suíça. Na mesma época, outro médico, Jean Hofer, descreveu um caso que se enquadra nessa nomenclatura, ao acompanhar o caso de um paciente que definhava, internado no hospital da Basileia, e se curou no caminho de casa, antes mesmo de chegar a Berna. Depois, descreveu o caso de uma camponesa hospitalizada que gemia ich will heim – quero minha casa -, e foi mesmo curada ao voltar para casa.
Na mesma época, Rousseau descreveu a história de proibição de um canto dos ranchos, na guerra, pois assim que escutavam a música tão querida entre os suíços, os soldados caiam num choro intenso e desertavam dos campos, mesmo sob a pena de morte. A palavra nostalgia, portanto, foi criada para designar uma doença dos suíços de língua alemã. Mais tarde, no compêndio médico que incluiu uma Dissertação sobre a nostalgia, ela foi forjada com letras gregas maiusculas NOΣTAΛГIA e em minúsculas góticas oder heimweh, ou saudade de casa. Chegou a ser eclipsada como philopatridomania – loucura do amor à pátria, mania de pátria, ou ainda como pothopatriadalgia – dor do desejo pela pátria.
Todo o esforço de Cassin ao nos apresentar a origem da palavra nostalgia cerne o ponto da questão: trata-se de um retorno. Sua hipótese, ao longo do livro, intui que o retorno à casa que tanto faz o sujeito doer de saudades não se trata de uma casa material, de uma pátria específica onde se teria nascido, mas o retorno a uma língua por onde experimentamos a sensação de pertencimento, enraizamento, referência.
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Enquanto terminava de ler o livro de Cassin, recebi a notícia que minha avó, que estava no estágio terminal da doença de Alzheimer, havia sido internada após um desmaio e aspiração do próprio vômito. Meses antes de entrar num estado de ausência, comum à evolução da degeneração demencial, ela passou alguns anos pedindo para voltar para casa. No entanto, cada vez que era questionada sobre qual casa ela se referia, sua resposta nunca era a mesma. As vezes ela nem sabia descrever de modo concreto a casa do seu desejo de retorno. Enquanto ainda andava, chegou a fugir algumas vezes, andando por ruas desconhecidas, buscando sua casa. Compreendemos com o tempo que nem ela sabia mais o significado da casa ao qual desejava retornar. Mas ela nos dava pistas sobre os inesquecíveis instantes em que, ao longo de uma vida inteira, conseguimos pertencer aos momentos como se fossem casas, habitats no tempo-espaço. Depois, passamos uma vida inteira com saudades destes espaços imateriais, de um tempo perdido posto que vivido, sem lugar. Acho que ela queria voltar a algum tempo perdido.
Talvez por isso eu não tenha manifestações de saudades da minha infância. Também não tenho saudade de casa alguma do passado. Não sinto nostalgia por algum passado específico. Tenho saudade de certas sensações experimentadas no corpo quando li pela primeira vez certas palavras. Do modo como o vento tocou meu corpo em certos dias. De uma noite qualquer em que fingia estar dormindo no colo da minha mãe enquanto ela me carregava, depois do final de uma festa. Da minha chupeta, que caiu três andares abaixo no lixo de uma casa térrea do vizinho. Do cheiro da garoa nas manhãs de SP dos anos noventa. Da esperança que eu tinha de mudar o meu mundo quando deixava bilhetes escritos pro meu pai ler depois que chegasse do trabalho e eu já estivesse dormindo. Tenho saudade de instantes que se resumem a flashes mal figurados e perdidos, incatalogáveis na história da minha vida, que restaram como sensações não palpáveis. Memórias do corpo.
Sofri muito de saudades do que não vivi, uma frase que virou um meme e piada, mas descreve bem a sensação de luto pelos sonhos que perdemos e nunca foram experimentados para além da ideia. Tenho saudade da calma que eu tinha quando estava frente a frente com os momentos abissais de ausência de sentido da vida. Acho que sempre tive mais saudade de microssegundos de pertencimento a alguns raros instantes de vida em que sabia que estava vivendo algo raro e importante. Mas não sinto nostalgia, porque não espero o retorno. Não há retorno de experiências, só o vazio retorna sempre no mesmo lugar.
O retorno à casa é impossível. Especialmente porque sempre fui estrangeira a língua materna e sabia sê-lo, mas não deixei de contar com esse primeiro referencial familiar. Celebrar o primeiro sangue de uma menina-mulher não deixa de ser um ritual em homenagem à vida. Mas, depois de certo tempo de análise, não conseguimos mais sentir saudade da alienação fundamental. A gente agradece ao banho de vida que o suor e as lágrimas desses seres humanos (também sozinhos) nos ofereceram, mas o que nos resta é retornar à língua estranha que chamamos de casa para criar mundos com ela. Não somos gatos e a vida é uma só que conta num relógio inacessível.
Quem sabe algum desses mundos que a gente cria possa se tornar habitação para nossos corpos em decadência, dando a eles alguma pequena sensação de retorno à casa – na morada de cada palavra que dedicamos a essas estranhas espécies humanas que terminam a vida exiladas, presas nas suas próprias histórias e desapropriadas de seus corpos. Antes isso, do que resumir-se ao irremediável destino biológico.
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2025) Como perder a infância? Em: www.alineaccioly.com.br
