Apesar de homenagear Catherine Millot no título do meu texto de hoje, venho expurgar um abismo muito menos charmoso desta vez. Estou prestes a realizar uma cirurgia e decidi avisar os familiares sobre o procedimento, a contragosto, por estar acostumada ao dissabor de me apresentar em estado de vulnerabilidade à família.
Não haveria tempo, nem desejo, neste texto, de justificar ou embasar o motivo desse desconcerto. As pessoas são quem podem ser, nos seus melhores e piores estados individuais, e o grupo institucionalizado como família consegue extrair o pior de todas elas juntas — incluindo a mim e a você, que me lê aí da sua casa. Talvez a família seja a instituição mais falida e mais perversa que ainda sobrevive, às custas da raiva mútua disfarçada de amor.
Sonho, a cada ano que passa, com as comunidades comuns e subversivas de solitários que se reconhecem em trânsito por esse deserto falido, esse modo de viver ao qual chamamos de civilização. Divago.
O primeiro comentário do meu pai sobre a cirurgia indicou a possibilidade de que o anestesista seja um amigo do condomínio. Sedenta por algum tipo de palavra firme, que pudesse sustentar um afeto no qual já não creio sobreviver a qualquer instituição familiar, desejei acreditar, por alguns segundos, que essa notícia era boa, que poderia me causar algum alívio ou me proporcionar um olhar mais acolhedor no inóspito ambiente hospitalar.
No entanto, depois de anos de análise, nenhuma ficção se sustenta — nem mesmo por um desejo de realizar fantasias amorosas em comunidade. Fui lançada violentamente a um turbilhão de memórias inquietantes sobre a falsa sensação de segurança familiar.
A primeira memória data de uma época em que eu tinha menos de vinte anos e namorava um rapaz considerado admirável pela minha família. Foi a partir desse relacionamento que se construiu uma mitologia: “Aline só namora homens bons e amáveis, a causa dos problemas é sempre o jeito dela.”
Lembrei exatamente do dia em que testemunhei uma conversa entre o rapaz bonzinho e seu pai, um homem de cerca de cinquenta anos. Ambos estavam sedentos para folhear uma revista Playboy, que trazia na capa a filha do vizinho. Ela tinha ficado famosa no BBB, e eles comentavam sobre o antigo desejo de vê-la nua. Finalmente, a curiosidade seria satisfeita!
A matemática não fechava na minha cabeça. “Desejo antigo de vê-la nua? Antigo?” Ela tinha dezoito anos, a minha idade. Se o desejo do senhor de cinquenta anos — transmitido para seu filho ainda adolescente — era antigo, isso implicava que ele queria vê-la nua desde que ela era criança.
Mal-estar.
Caí vertiginosamente em um abismo de insegurança que se abriu naquele território familiar.
Percebi como aquele pai de cinquenta anos tinha orgulho de ter um filho adolescente transando com a namoradinha no quarto ao lado. Pela primeira vez, naquela relação familiar, enxerguei o lugar que ocupava para eles. Meses depois, quando o namoro chegou ao fim porque o “partidão” queria casar, recebi a confirmação da mitologia familiar: “Por que Aline não casa com esses bons rapazes que chegam em sua vida?”
A segunda memória é mais recente do que eu gostaria de admitir. Eu estava numa festinha na área comum do condomínio do meu pai. Era uma festa familiar, com maridos, esposas e crianças. Cheguei mais tarde porque estava dando aula, e o rapaz com quem eu me relacionava já bebia cerveja com o pessoal.
Não percebi como, mas, em menos de uma hora, o local se tornou um espaço habitado apenas por homens, pois as mulheres e crianças foram discretamente se retirando com a chegada da noite — como se soubessem dos perigos que podem assombrar crianças e mulheres em seus quintais compartilhados.
Permaneci tempo suficiente para escutar certas barbaridades saindo da boca de alguns homens, na mesma medida em que as cervejas entravam. “Como eles gostavam de pegar as empregadas pretinhas e gostosinhas”, por exemplo.
Diante do absurdo, senti vontade de esbravejar minha indignação daquele racismo e misoginia, mas decidi ir embora.
Fui ao banheiro antes de me despedir, mas fui seguida por um dos homens. Ele tentou me agarrar à força no banheiro e só não conseguiu porque fechei a porta com uma velocidade maior do que a dele.
Ao perceber minha demora, o rapaz com quem eu saía, naquela época, notou meu transtorno e voltou ao ambiente para prestar contas com o agressor.
Diante do escândalo, a confusão que se estabeleceu não tratava mais da minha vulnerabilidade naquele espaço, mas dos homens competindo sobre quem era dono da verdade. Discutiam sobre a falta de respeito de um homem que atacava a mulher de outros homens (pai e namorado) presentes no recinto.
No dia seguinte, meu pai se recusou a solicitar a filmagem das câmeras de segurança, para que eu pudesse fazer o boletim de ocorrência.
Meses depois, o rapaz com quem eu saía, que passou a conhecer de perto minha vulnerabilidade e a certeza de impunidade como valor político e diplomático na minha família, promoveu outro ato de violência contra mim, em condições muito parecidas — porque sabia que estava assegurado naquele ambiente familiar de homens para homens, com homens.
Lesões ordinárias. Histórias comuns, nada especiais, como tantas histórias de mulheres que escuto no consultório, como leio nos livros de autobiografia, como ouço em podcasts e por toda parte.
Não há nada de especial nas minhas vivências, mas há esse eco presente que fixa uma verdade que nenhuma ficção de amor recobre: uma mulher nunca está segura — ESPECIALMENTE em ambiente familiar. Historicamente, são esses espaços que garantem a impunidade de atos violentos.
Minha mãe costumava não me deixar dormir na casa de amiguinhas quando criança. Depois, preocupava-se com minha vontade de transar, ainda novinha. Ela tinha certeza de que eu viveria situações de violência na rua, na casa dos outros, e provavelmente tinha razão. Mas apagou um detalhe importante: a violência que ela mesma sofreu por anos foi dentro de casa.
Os homens bonzinhos e bons partidos com quem ela casou promoveram misoginia e violência psicológica dentro do lar. Os rapazes mais adorados por ela e pela família eram os mais violentos que já conheci. E os meus grandes amores eram pouco familiares.
Não há erro maior do que supor que é em espaço estrangeiro que a violência vai acontecer. Assim como é um grande equívoco supor segurança na família ficcional que ainda sustentamos.
Então, não. Não senti segurança ao saber que o anestesista poderia ser um amigo do meu pai. Pelo contrário, lembrei-me do quanto é difícil estar numa posição de vulnerabilidade quando sabemos que nossos corpos são vítimas do desejo antigo dos homens, sejamos nós bebês, crianças, adolescentes, jovens, maduras, idosas, senis.
Ainda bem que as mulheres estão aprendendo a comunidade.
Espero que o anestesista seja estrangeiro.
Especialmente, não familiar.
Epílogo: Foi uma mulher. 🙂
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2025) Lesões ordinárias. Em: www.alineaccioly.com.br
