Foi a primeira vez que me perguntei, desde que comecei a dieta, se deveria tomar algum antidepressivo para a ajudar na compulsão. Tenho sofrido com sintomas de estresse pós-traumático no último ano. Essa energia descompensada se aloja nas compulsões. A alimentar é apenas uma delas. Estou enfrentando o quarto dia da dieta e me sinto ridícula por conceber a idéia de tomar alguma medicação. A automedicação é também uma parte das minhas compulsões.
Desde muito nova estudei remédios, já fiz curso e dei aula de psicofarmacologia e todo dia agradeço por não ter estudado medicina. Ter passe livre para drogas legalizadas é um inferno comum experimentado por médicos e farmacêuticos. Cheguei a tomar anti-inflamatórios e relaxantes musculares compulsivamente durante anos. Minha depressão é neoliberal, surge só quando não estou trabalhando. Aparece no cansaço, na dificuldade para dormir, na compulsão ao trabalho e na automedicação para dor.
Nem tão milagrosamente assim, estou dormindo bem. Acordei às oito horas da manhã com enjôo e um pouco de tontura. São sinais da labirintite que costumam chegar quando estou enfrentando a guerra das compulsões. Meu filho também acordou cedo e me chamou pra tomar café da manhã na padaria. Ele tem dezoito anos e está na casa do pai. Foi a primeira vez desde que ele cresceu que me chamou pra tomar café da manhã na padaria em pleno sábado de férias. Fiquei emocionada e achei bonitinho.
Tomamos café da manhã e segui mantendo minha dieta. Não é difícil seguir a regulamentação junto com meu filho. Desde criança ele é esportista e trocamos figurinhas com relação a questões do corpo, esporte e comida. Ele sempre foi o primeiro a incentivar minhas tentativas de abandono de vícios, porque ele mesmo não gosta de beber e lida muito tranquilamente com drogas. Sua inquietude vai todinha para os esportes – skate, cheer, parkour, circo, academia.
Enquanto tomamos café da manhã, ele me conta os planos de final de ano com a namorada e eu conto de uma série que estou assistindo. Comentamos sobre um reality coreano que estávamos vendo juntos e a manhã de sábado vai saciando não apenas nossa fome de comida, mas também a de presença.
Nos despedimos. Percebo que ainda são dez horas da manhã e dá tempo de saciar outra fome que já começa a roncar logo que eu entro em casa. Sento no computador e escrevo alguns textos do dia. Olho para o caos da minha mesa e brinco um pouco mais com o quebra-cabeças de mil peças que comprei para me distrair de telas e descansar a cabeça. Me pergunto, silenciosamente, porque demorei tanto tempo pra ter coragem de cortar todas as drogas de pessoas, demandas e exigências imbecis da sociedade.
Na calmaria do final dessa manhã de sábado, consigo escutar até mesmo o barulho das folhas das árvores balançando ao ritmo do vento do lado de fora do apartamento. Viver é melhor que sonhar.
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2023) Árvore da vida. Em: www.alineaccioly.com.br
