O mundo está acabando e a nova ordem é aproveitar a liberdade. Todo mundo compartilha ininterruptamente alguma aventura muito interessante sendo realizada neste instante, em algum lugar do mundo. As pessoas estão eufóricas. Não conseguem parar de lançar a certeza da morte precoce como justificativa para aproveitar, imperativamente, os últimos dias de existência do mundo.
Enquanto isso, Carol sente saudade de trabalhar e passar na Applebees para o happy hour pós trabalho. Ela sente falta de uma vida comum, rotineira. Uma vida em que as pessoas também estão fadadas a morrer no final (afinal, somos mortais), mas não usam essa certeza como justificativa para os excessos de satisfação. A nova ordem, aproveite tudo e rápido, provoca um estado de melancolia em Carol. Enquanto sua família viaja, se lança de pára-quedas, faz cruzeiros, vive trisais, Carol, escondida, arranja um trabalho. Em pouco tempo, restaura os happy hours que tanto sentia falta no final do dia.
Essa história poderia ser a nossa, mas é apenas o roteiro de uma série que acabou de sair na Netflix. Carol e o fim do mundo é uma satira melancólica sobre a urgência categórica de aproveitamento da vida, incessante e exaustivamente, diante da descoberta do fim do mundo. As pessoas descobrem que tudo vai acabar, então essa ‘novidade’ impele à busca de satisfação em tudo que fazem, o tempo todo. Os excessos se tornam norma, as urgências se tornam imperativos e esquecemos a sutileza do mundo sensível que pode ser uma grande viagem sem sair de casa.
Zizek, filósofo cuja estranheza é a marca do seu estilo, nomeou essa característica neoliberal com o termo Enjoy your symptom – aproveite seu sintoma. O estudioso tem um livro com esse título, onde desenvolve a hipótese de como a sociedade contemporânea produz uma espécie de obrigação universal de auto adequação ao gozo do sintoma. Em termos simplórios, trata-se de alimentar nossa ânsia insaciável de devorar o mundo e, concomitante, ser devorado por ele. Assim, não apenas vivemos ordenados por uma urgência antropofágica, como aceleramos nossa mortificação iludindo-nos com a satisfação das urgências instintuais de vida.
Por isso, foi com muita alegria que recebi o mais novo livro de Paul Preciado, O som do mundo desmoronando. O título do livro é uma interpretação no universo de Carol (e do nosso, portanto). Menciono o livro de Preciado para interpretar a melancolia de Carol, porque a hipótese que o filósofo defende é que estaríamos vivendo uma Dysphoria mundi. Ele propõe que a noção de disforia seja pensada de maneira ampla e generalizada: E se a disforia de gênero não fosse um transtorno, mas uma inadequação política e estética de nossas formas de subjetivação em relação ao regime normativo da diferença sexual e de gênero? Estaríamos enfrentando um abismo epistêmico entre uma economia capitalista (patriarcal e colonial) que resulta na extinção das formas de vida intituladas como improdutivas, anormais, diferentes da norma vigente, seja ela qual for.
O fim do mundo do universo de Carol ilustraria o que o filósofo chama de o som do mundo desmoronando. A melancolia da personagem é apenas o sinal de sua inadequação ao novo normal. No entanto, o novo mundo que surge não se tornou melhor ou mais esperançoso, apenas instaurou uma outra hierarquia dos afetos às avessas, mantendo os estados de exceção para corpos que não coadunam com a nova normalidade. O mundo de Carol representa o velho mundo e sua economia capital de existência. O mundo em extinção, representado pelo universo no entorno da personagem, representa o novo mundo neoliberal. O que não pode nos enganar, afinal, é que ambos discursos nos impelem a equacionar nossa realidade individual através desses lados binários, ambos aprisionantes dos nossos modos de existir.
Estamos na virada de dois mil e vinte e três para dois mil e vinte e quatro. Inventamos essa ordenação temporal para acabar com mundos e construir novos a cada trezentos e sessenta dias. No entanto, nessa época do ano, há um aumento considerável nas depressões, nos suicídios e no sentimento de isolamento e solidão. Ao mesmo tempo, há uma enxurrada de fotos de praias, viagens e alegria em excesso pedindo testemunho.
Enquanto o mundo gira apenas para reencontrar com sua mesmidade repetitiva, sigo na dieta. Já tem algum tempo que descobri que nenhuma língua é neutra. Todo discurso gera um produto e um modo de aprisionamento dos corpos. Como bem escreve Dionne Brand, em seu livro recém lançado no Brasil, mudam as roupagens sociais para os imperativos categóricos sobre como a vida deve ser bem vivida, mas a violência incontornável que nos constitui como seres da cultura segue estruturante e estruturada nessas urgências de satisfação. Como não existe lado de fora para nós humanos, cuja universo é linguageiro e social, nos resta habitar os cruzamentos de geografias, tempos, culturas e línguas para sobreviver ao impulso antropofágico de devoramo-nos para saciar nossa fome de morte e extinção das existências singulares.
Como Brand e os poetas, insisto na escrita aos pés do muro da linguagem, desacreditando nas prisões e revoluções dos universos, cujas gramáticas são sempre aparentemente incontornáveis. Há sempre uma outra forma de habitar o mundo. Mas a saída só a gente escreve. Mesmo que seja com as pontas das unhas arranhando qualquer superfície que encontre pelo caminho. Esteja o mundo acabando hoje, amanhã ou depois.
[RIP PC Siqueira, Matthew Perry, Ana Caroline, Rita Lee, e inúmeros nomes cujos universos findaram em dois mil e vinte e três]
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2023) Carol e o fim do mundo. Em: www.alineaccioly.com.br
