Chegamos na praia animadas. Era nosso primeiro dia de férias depois de dois dias dirigindo na estrada. Uma amiga, que morou naquele bairro anos antes, avisou que demoraríamos um pouco na caminhada até a praia. Fui logo colocando meu tênis. Só eu sei a batalha que tenho atravessado nos últimos sete meses com a dor no quadril. Uma dor inconclusiva, segundo dizem os fisioterapeutas que me tratam. Detesto a dor, mas gosto dela ter o meu estilo. Inconclusiva. Já estou rindo, mas isso fica para outra história.
Meu amigo, que atualmente também enfrenta problemas físicos, decidiu logo entrar na minha onda e foi buscar seu tênis. A amiga, ex-moradora do bairro, está no auge dos seus trinta anos e da sua saúde física. Tacou-lhe um chinelão nos pés e saiu na frente, animada com o caminho. Afinal, ela já tinha como calcular a distância, conhecedora do território. O último componente do nosso quarteto, um amigo, estava preocupado com outras questões e com isso não prestou atenção em qual calçado seria melhor para seu percurso.
Andamos cinco quilômetros de ida até a praia e depois cinco quilômetros de volta. Estava sol, mas nada que um vento não pudesse refrescar de vez em quando. No meio do caminho do trajeto de ida, o amigo desatento sentiu dor entre os dedos do pé. O chinelo havia lhe provocado feridas e ainda tínhamos um dia inteiro pela frente. Paramos numa loja de surfistas e conseguimos um pedaço de micropore para tampar o pedaço claramente sem pele do machucado entre os dedos, o suficiente para alcançar o litoral. Ah, agora minha bolha está protegida! Disse meu amigo. Todos rimos. Era uma viagem de pessoas analisadas (se é que isso existe!).
No dia seguinte, ao acordar, a bolha do pé estava extremamente inflamada e ao cutucá-la, ele percebeu ter feito o curativo com um pedrinha de sujeira da rua lá dentro. Antes de se dar conta da intrusa, chegou a pensar que não conseguiria andar naquele dia, tamanha era a dor que sentia numa minúscula região nada protegida entre seus dedos. Imaginem só, carregar a rua inteira dentro da bolha, incorporada na pedrinha!
De fato, nunca estamos protegidos. A bolha só faz crescer a difusão entre o que compreendemos como interno e externo. Fazemos nossos curativos e achamos estar seguros diante do perigo externo. Mas as pedrinhas não ficam mais no meio do caminho de fora. Elas andam com a gente, infiltradas sob nossas peles, mantendo constantemente a ferida aberta. A bolha é o dentro e é o fora! É a dilatação da pele que, machucada, já não cabe grudada ou solta em lugar algum!
Oh! Como um buraquinho distraído e sem pele pode derrubar um corpo…
Acontece que a ferida do meu amigo também carregava seu estilo. Mas isso já é outro texto. O importante é que, no dia seguinte, saímos todos de tênis. Melhor não mexer com os buracos edípicos passos caminhantes de quatro vagantes em férias.
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Bolha. Em: www.alineaccioly.com.br
