Peço licença a vocês, leitores. O texto de hoje é na verdade um roteiro que escrevi como carta-convite aos trabalhos de leitura e escrita de um espaço que tenho “Escrita Corpo falante” – @escritacorpofalante. Eu gastei todo meu latim nesse roteiro e não sobrou pra cá (risos). Segue.
Roteiro do Seminário 02/02/2024
Título: Línguas nativas, letras estrangeiras, textos impossíveis (E se escreve)
Guia de visitação: Aline Accioly (Psicanalista, Doutora em Estudos Psicanalíticos, Pesquisadora e Escritora). Sou uma catadora de letras.
Balizas iniciais
- “Escreverei livremente, certo de que esta narrativa só diz respeito a mim mesmo. Na verdade, ela poderia caber em dez palavras. É o que a torna tão medonha. Existem dez palavras que posso dizer. Enfrentei essas palavras durante nove anos. (…) Essas palavras podem terminar aqui e nada que seguisse o que acabei de escrever me faria acrescentar ou retirar qualquer coisa. Isto permanece, isto permanecerá até o fim. (…) Isto, portanto, deveria estar claro para todo aquele que lesse essas páginas pensando que são tomadas pela ideia da infelicidade. Mais que isso, que ele tente imaginar a mão que está escrevendo: se ele a visse, então talvez a leitura tornasse, para ele, tarefa séria”. A tarefa séria começa quando já não se é capaz de ignorar que a leitura, tanto quanto a escrita, tem a ver com a mão que escreve e, portanto, com o corpo. (Maurice Blanchot – Pena de morte, 1948)
Comentário: Uma experiência de análise é sobre uma letra que tenta passar. As operações de extração desta letra estrangeira envolvem a leitura do som na linguagem, a tradução desse referente na linguagem e, finalmente, a composição/fabricação de um corpo que se torna habitat desse enxame de lalíngua.
- A peste trazida pela psicanálise é a mesma apresentada pela coisa literária. O escândalo do corpo falante é que, ao falar, ele não diz o sentido, mas promete dizê-lo. O campo da promessa é o mesmo do desastre, isto é, estamos fadados a fracassar, a não cumprir a palavra empenhada, a dar o que não temos. Prometer é amar, mesmo fadado ao fracasso, mesmo sabendo da impossibilidade de escrever com precisão as palavras de amor, tentamos. Escrevemos e perpetuamos o escandalo de articular nossa própria promessa, dando corpo a ela. O escândalo do corpo falante nos obriga a encontrar, em meio as letras soletradas por esse corpo, nosso próprio prazer. Traduzir é lançar menos uma luz na produção de sentidos, mas mirar na linguagem, no grão de voz que conduz um corpo. Nesse caso, o corpo é texto. Isso exige o desastre, pois caminhar entre línguas é lidar com a sedução de dois (ou mais) sentidos. (Lucia Castelo Branco – Prefácio à edição de O escândalo do corpo falante, 2022).
Comentário: Maria Gabriela Llansol afirma que ninguem sabe o que a leitura pode fazer, porque ninguem sabe exatamente esse sexo. O sexo de ler é uma maneira de fazer amor pelos olhos, pela palavra e pelas mãos. Aos praticantes do sexo de ler, ela batiza como os legentes. Todo texto nos convida à prática do amor. O texto torna-se sexo, porque uma letra deforma absolutamente um universo inteito, imagina um corpo! Não se trata de uma metáfora. Um livro é um corpo. Na legência, ler é fazer seco de ler. Abrir, tocar, desfolhar, entrar. Não se trata de devaneio sair do texto, mas entrar em seu ponto voraz, vórtice, vertigem. Pedaço de real.
- “Já que se trata de tomar o desejo e que ele só pode ser tomado ao pé da letra, porquanto são as redes da letra que determinam, que sobredeterminam seu lugar de pássaro celeste, como não exigir do passarinheiro que ele seja, antes de mais nada, um letrado?” (Jacques Lacan – A direção do tratamento e os princípios de seu poder, 1958)
Comentário: Em o Riso da Medusa, Helene Cixous diz que se roubamos a palavra de seus sentidos enjaulados, roubamos a língua para fazê-la voar.
- O livro necessário é subtraído ao acaso. Escapando ao acaso por sua estrutura e delimitação, realiza a essência da linguagem, que desgasta as coisas transformando-as em sua ausência e abrindo essa ausência ao devir rítmico, que é o movimento puro das relações. O livro sem acaso é um livro sem autor, impessoal. (…) Este não pode atribuir-se aquilo que escreve. E aquilo que escreve, mesmo que sob seu nome, permanece essencialmente sem nome. (Maurice Blanchot – O livro por vir, 2005)
Comentário: Depois que o autor morre (Foucault), um leitor nasce. A escrita e o medo são incompatíveis (Llansol)
Hipótese de trabalho: A construção de uma interrogação na primeira operação de leitura e os caminhos possíveis como método.
Leitura de perto: Explicação. Texto introdutório do livro Via Crucis, de Clarice Lispector.
Nossa mesa de trabalho: Letra por vir.
- Trecho do texto (Leitura)
- Comentário com outra referência (texto, livro, experiência música, etc – Tradução)
- Risco (Esboço de escrita com’).
Fechamento: Leitura do convite para as visitas guiadas de 2024. Uma hipótese de formação do analista como leitor, do leitor como analisante do texto, da escrita como tradução. Mutação: a morte do autor -> o nascimento do leitor -> a descoberta do legente -> ler é um modo de escrever -> tramar um corpo.
O convite que faço hoje a vocês não é uma chave para todos os enigmas da psicanálise, da clínica ou da literatura. Muito menos a fonte de todas as respostas e teorias. Já se tornou uma norma um certo modo de encontro de desejosos pela psicanálise com sua teoria, clínica e escrita. Ficamos viciados em entrar nos territórios pelos mesmos caminhos marcados pela leitura de outros que chegaram ali primeiro. Isso vale tanto para nossos encontros com a psicanálise como com a literatura e com o processo de escrita.
Levando essa mesmice sem estilo a sério, elaborei nossa a proposta inicial para um leitor comum, expressão usada por Caetano Galindo como um princípio de leitura necessária para ler textos difíceis, considerados até inacessíveis, como os de James Joyce. Constantemente escuto que Lacan é difícil. Sobre a escrita, reverbera essa certa covardia misturada com receio de enfrentar suas águas nunca calmas. Por isso, arrasto um desejo antigo por esse cruzamento entre o mar e o rio – há um litoral possível de entrada nos campos da psicanálise lacaniana e da literatura que podem ser comuns, calmas, aventureiras.
A ideia principal da fundação da escrita corpo falante é de que todo leitor interessado em literatura possa aprender a ler com seu estilo único. Que todo aspirante a escrita possa descobrir sua letra. Que todo pesquisador possa criar sua metodologia de pesquisa. Que todo analista em formação possa circular pelo campo sem escravidão. Sair da lógica de especialistas e obcecados por charadas e estruturas excludentes não é fácil. Assim, como levar adiante esse ousado desejo?
Há milhares de cursos, livros, metodologias e modelos prontos para ensinar literatura, psicanálise e clínica. No nosso núcleo, não se trata de acúmulo de conteúdo. Trata-se de praticar as investigações da letra, para que possamos nos tornar familiares com essa não-familiaridade fundamental nesses campos. O que a psicanálise e a literatura partilham, dentre tantos pontos, é uma certa estranheza que se escreve, mas precisa primeiro ser lida e traduzida.
Por isso, me proponho ser uma espécie de acompanhante que caminha com vocês nas páginas dos textos. Os que estão escritos e vamos ler juntos. Os que estão sendo escritos por vocês e os que ainda precisam ser grãos de letras geminadas. Vamos caminhar páginas por páginas e espero poder te levar ao pé da letra marcando que é importante em cada passo do caminho. Vou te mostrar o que é preciso prestar atenção, que quase sempre passa despercebido e tem relação com uma forma própria do estilo da letra de se esconder. Vamos aprender sobre leitura e escuta, tradução e interpretação, escrita e ato. Vamos fazer nosso caminho com grandes estranhezas, território rico em línguas estrangeiras natas.
Vamos aprender sobre as letras de escritores da literatura e de psicanalistas, de analizantes e poetas, mas principalmente, vamos aprender sobre você. Sobre sua literatura. Sobre sua psicanálise. Sobre seu estilo. Vamos tomar as palavras pelas mãos e, com delicadeza, transformá-la em signo, significante e letra, para retornar à palavra, aqui livre do seu peso, livro. Não vamos apressá-las, mas embalar e convocá-las. Vamos escutar o som de suas vozes, muitas vezes sufocadas pelos modos certos de ler, escrever e pesquisar, e com elas voar. Vamos, sobretudo, nos divertir.
A subversão que proponho para vocês, nesse ano, é que possamos nos reunir semanalmente no núcleo de investigações e práticas da letra para levar adiante qual seja o projeto de vocês. Projeto de mestrado e doutorado, o texto final da dissertação e da tese, escrita de artigo científico, escuta clínica em supervisão, escrita de caso clínico para fins de estudo e publicação, escritas das próprias analises de vocês, poesia, prosa, conto, toda sorte de gêneros literários… vamos escrever. Vamos decantar a letra e dar para ela um habitat. Vamos construir um corpo textual. E faremos isso da forma mais diversa possível, num espaço onde cada um compõe seu trajeto e é acompanhado pelos outros, cada um em sua própria jornada e no tempo de cada passo. Vamos descobrir quais textos ajudam você a compor as pontes ainda não construídas entre suas palavras e suas inquietações, criar metodologias que criem autonomia de formalização com rigor ético que todo desejo e toda letra impõe. Vamos perder o medo da língua que habita o corpo de vocês a espera de um caminho para se transformar em texto. Seja qual for a estrutura formal que ela precisa subverter e existir.
Preparei um fluxograma, que um querido colega me lembrou ser um nome muito interessante para os caminhos da letra (gramme – que gosto de traduzir como grão). Ele diz um pouco sobre os cruzamentos e as passagens às quais vamos nos debruçar. Cada um de vocês vai entrar por uma dessas portas. E toda semana vamos confeccionar ou fabricar, se necessário, os elementos necessários da estrutura de linguagem pronta (teoria, epistemologia, técnica, etc). Começaremos tateando o território, começando a aprender a ler e deixar entrever algo do estilo de vocês. Depois, seguiremos acolhendo o desejo de trabalho de cada um para, na sequência, elaborarmos um percurso estruturado para a composição do texto. Aos poucos, vamos entender as noções fundamentais para qualquer escrita psicanalítica-clínica-literária e complexificando o rigor à necessidade de cada projeto.
Logo, não se trata apenas da escrita de um texto, mas da incorporação de um estilo extimo de escrever e de uma metodologia de trabalho que permita vocês a escreverem sem medo qualquer projeto subsequente que possa vir a ser o desejo de vocês. É um trejeito, um traquejo com o enxame de letras, com o corpo do texto. A essa altura, pareço fazer promessas. Shoshana Felman, escritora que concebeu o sintagma que dá nome ao nosso espaço, Corpo falante, diz que o amor tem algo dessa promessa que um corpo falante faz. Não se trata da certeza de dar ao outro o que ele quer. Trata-se, principalmente, do convitee a parceria da caminhada, onde cada um pode levar apenas seu desejo, prometer não faltar a ele todo dia, para, ao final, descobrir o que pode ser feito com o que ali falta a ambos e por isso não pode ser dado. A experiência do amor lacaniano, inspirado em Shoshana Felman, de dar o que não se tem a quem não quer. Escrever o impossível do amor e como ele vira texto.
O convite é, ainda, um abraço à solidão da escrita. Um texto se escreve sozinho. Ele demanda horas de despojamento do narcisismo, do ideal, da potência. Escrever é um exercício de castração. Por isso, vamos nos acompanhar, um sozinhos, na palavra por vir. Aqui, cada sílaba conta. Cada som inaudível é acolhido. Cada circuito de afeto é transformado.
Por isso, vamos hoje começar com um conto de Clarice sobre a escrita do que não se escreve. Para começar a alimentar nossa coragem e nosso compromisso. Para que vocês ousem o desejo de voltar. Uma semana de cada vez.
Sim, eu digo sim.
Próximo encontro: Calendário geral do ano. Presencial e Online (Híbrido). Sobre o pagamento. Venha com sua inquietação (texto, projeto, pergunta, qual seja o formato – roteiro).
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Roteiro. Em: www.alineaccioly.com.br
