A experiência de re-inclusão do corpo na vida neo-liberalizada de um sujeito é um exercício de castração. E o que é a castração, afinal? Definitivamente não é a história do menininho com a mamãe e o papai. Também não é a historia de terror da extração do órgão genital masculino. Essencialmente, a castração é uma operação de reconhecimento e admissão da imortalidade, da finitude, da impossibilidade humana de tudo realizar. É o reconhecimento que só temos o espaço entre a o nascimento e a morte para nos ocuparmos de maneiras inventadas de viver sem sermos apenas escravos da orientação simbólica que nos antecedeu.
É uma ferida narcísica sabermo-nos mortais, finitos, insignificantes na cadeia de eventos do universo. Essa ferida não é apenas localizada em um único aspecto da vida. Ela se abre incessantemente quando acordamos, a cada decisão tomada durante o dia, diante das contingências e do inesperado, e segue aberta até o instante de retorno ao sono e no reencontro com o narcisismo do universo onírico.
Gloria Anzaldua nomeia a castração como uma ferida aberta. Para a feminista, o mergulho nessa ferida é apenas o primeiro passo para a descoberta de um espaço estrangeiro ao qual ela chama de borda – borderlands – la frontera. Para entrarmos nesse território, é preciso encontrar a fissura, enigma que por vezes parece estar localizado em algum pedaço do nosso corpo, perturbando qualquer ilusão de paz que podemos desejar ter quando nos isolamos do mundo. É o mergulho na castração que abre as portas para outro modo de existir.
O ponto de giro para a-colhermos a castração está no local/no objeto onde esta incide. O esforço político-econômico-social atual segue na manutenção de uma versão moral suficientemente forte que, uma vez incorporada, atua silenciosamente nas nossas escolhas – tampando nossos espaços de respiro, lacunas, feridas. Sentimo-nos forçado a oferecer o corpo como material e instrumento de realização dos ideais de civilização vigente. Assim, o ideal sistematizado se mantém vivo as custos do desaparecimentos de nossos corpos.
Por que nos voluntariamos a manter esse modo de vida coletiva? Porque, narcísicamente, acreditamos que nosso valor está referido à potência de realizar o projeto ideal de sociedade. No entanto, essa falácia é apenas uma tradução da negação da castração. Até os discursos de minoria caem nessa falácia da potência realizadora. Enquanto isso, nossos corpos seguem desaparecendo nesse ideal potente de coletividade, existindo em sofrimento e isolamento.
Quando rompemos com essa moral parasitária de um status social que se mantém erguido com requintes sutis de perversão, recusamos os ideias impossíveis de serem realizados e acolhemos nosso corpo admitindo nossa castração. Não, não podemos tudo. Podemos, com sorte, nãotudo. Castramo-nos, lembrando que a existência exige um corpo que conta e impõe decisões incessantemente.
Afinal, somos mortais e o tempo é consumido – cada dia é um a menos. Somos mortais, por isso adocemos. E é porque somos mortais que privilegiamos as micro-decisões necessárias para viver o tempo desconhecido que nos cabe, deixando de perder tempo com ideias utópicos de manutenção da especie. Paradoxal, podemos concluir. Porque fomos convencidos de que é egoísmo não pensar na manutenção da especie, na infinitização da existência humana no planeta. Se até os fungos e vírus evoluem, transmutam-se e por vezes desaparecem, porque nós, humanos, manteríamos-nos os mesmos –ad eternum, sem mutação e até mesmo risco de desaparecimento?
Em tempo: descobri, finalmente, qual é a terceira língua que precisava, junto com a psicanalise a a literatura, para navegar entre línguas, estrangeira: a língua do corpo. Território estrangeiro, a alteridade que parasita e deforma os órgãos e seus usos, estranha numa terra estranha. A presença imaterial mas substancial do Outro em mim. Veja, não é “do” Outro nem “de” mim – porque não é no pertencimento o acento. É justamente no desacomodamento que a borda, o entre, funda.
Com essa língua estrangeira manifestado pelo corpo, com a lalíngua lacaniana e com a língua liter-ária, finalmente posso compor um corpo entre línguas através da escrita. Que belo dia foi esse da comemoração dos cem dias de trajetória de escrita diária. O som agora é Outro.
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Três línguas. Em: www.alineaccioly.com.br
