A noite, quando sonhamos, visitamos os nossos medos. No universo onírico, no entanto, somos bem aventurados. Ao acordar, demoramos para nos dar conta que algum dos medos se dissiparam, perdidos durante a visita noturna. Dormir nos cura da realidade assustadora e seus medos risíveis. Dormimos e voltamos a acreditar na nossa capacidade criativa. As vezes esquecemos as aventuras noturnas e com isso despertamos mais uma vez para os medos acumulados ao longo de uma vida.
Mario Levrero, no Romance Luminoso, perguntou quem seria tão idiota de gastar seu tempo de vida sentindo medo. Ele mesmo responde, com suas seiscentos paginas de diário. Ele sentia medo da vida, do seu corpo, do mundo, de tantas pequenas coisas que passou mais da metade de sua vida trancado em uma pequeno apartamento escrevendo. Sentia-se desprezível por seu enjaulamento, mas distraía-se aumentando os pequenos problemas do dia a dia. Ele lia e escrevia. Seu medo não era tão grande a ponto de não permiti-lo escrever. Lembrava-se de um tempo em que sua loucura era fundamental para permiti-lo viver. A loucura, quando é maior que o medo, nos liberta.
Na maior parte do seu diário, sentia o abalo da sua morosa covardia. Talvez porque achei corajosa sua determinação em deixar de lado o mundo e suas exigências e só viver para ler e escrever, com algumas caminhadas de vez em quando. Indecisa entre achá-lo covarde ou corajoso, não consegui abandonar seus registros mesmo quando soavam terrivelmente íntimos.
As vezes costumo pensar que acesso mais intimidade dos analisandos do que das pessoas que circulam na minha vida pessoal. Mas seria injusto dize-lo, porque a recíproca não é a mesma. Livros como esse, de Levrero, rompem essa barreira. Assim como os diários de Virgínia Woolf, Kafka, as cartas de Freud e Clarice Lispector. As vezes criamos mais intimidade com a escrita secreta das pessoas mortas do que com o exibicionismo imagético e perfomático das pessoas vivas.
Enquanto isso, na realidade que supomos compartilhar, nada de interessante acontece. A natureza segue seu curso diário, o sol nasce, o sol se põe, o planeta gira, pessoas nascem e pessoas morrem. Cada vez mais o rosto das mulheres é a cara de patos, os homens são massas enormes sem mobilidade e as crianças angustiadas sem saber brincar. Olho para a pilha de discos, cds, dvds e fitas k7 que acumulei, durante toda a vida, e que nem existe mais tecnologia para toca-lós. Tornaram-se relíquias, objeto mortos sem espaço de respiro. Os livros conseguem ser mais vivos do que quaisquer objetos tecnológicos, porque para tornarem-se vivos de novo, basta o depósito do olhar de qualquer leitor.
Acho que meu sonho luminoso é o de publicar um livro, mas não de psicanálise. Esse sonho já realizei. Só não consigo me decidir pelo romance ou por não-ficção e com isso vou escrevendo vários nadas que são largados por arquivos, cadernos e notas. Aprendi com os escritores como Levrero que as voltas que damos para enfrentar a escrita do indizível podem parecer intermináveis e sem propósito. Mas disso, ao menos, não precisamos ter medo. Por isso, meu sonho luminoso já esta se escrevendo em algum lugar, em outro tempo.Continuarei visitando esse desejo durante as noites e em alguns pedaços secretos dos dias. Uma hora dessas a loucura liberta o livro.
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Sonho luminoso. Em: www.alineaccioly.com.br
